Dizem que os cães veem coisas

Conversa entreouvida numa manhã dessas entre dois vira-latas, Meia-Noite, o filósofo, e Pirata, seu jovem aprendiz, sobre as dificuldades dos tempos
Ilustração: FP Rodrigues
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02/07/2021

Meia-noite é um vira-lata todo preto que vive – ia dizer mora, mas não, ele não tem casa – que sobrevive, então, na esquina de uma quadra, ao relento, com um casal sem-teto. Às vezes, Meia-noite fica preso por uma coleira; na maior parte do tempo, no entanto, encontra-se solto, andando de um lado a outro. Às vezes come, às vezes toma banho, às vezes recebe carinho. Por conta dessa existência precária, tornou-se filósofo. Mas filósofo indagativo, reflexivo – desconhecedor de certezas, portanto.

Há cerca de duas semanas Meia-noite ganhou um companheiro, Pirata, um jovem cão que, não fosse adotado pelo casal sem-teto, talvez minguasse pelas veias e artérias da cidade, chafurdando em sacos de lixo, correndo de pontapés, esquivando de para-choques e rodas de carros, hostilizado pelos humanos e pelos colegas de desgraça. Agora, ainda que frágil, percebe-se afortunado membro de uma família. Como bom preceptor, Meia-noite assumiu o dever de instruir o novo amigo. Pela manhã, pouco antes de o sol nascer, expõe suas dúvidas a Pirata, enquanto vela o sono intranquilo de seus donos.

Disso tudo soube um dia, quando, fustigado pela insônia, resolvi caminhar pelo bairro. Logo ao quebrar a esquina ouvi murmúrios sob uma tipuana. Primeiro, pensei fossem barulhos aleatórios, o vento roçando as folhas das árvores, por exemplo. Depois, imaginei tratar-se do ressonar do casal sem teto, que dormia esticado em caixas de papelão, ladeado por um carrinho de supermercado cheio de pertences. Mas, em seguida, maravilhado, atinei que os sussurros provinham daquele vira-lata preto, que, contemplando a agonia da madrugada, dirigia-se ao jovem cão malhado, atento, mas dispersivo – coçava-se, mordia-se, levantava-se, sentava-se, deitava-se –, atolado em sua vulcânica mocidade. Eis o que conversavam:

PIRATA: … então, por que a gente passa fome, não tem um teto?

MEIA-NOITE: Também não compreendo, Pirata. Há cães que moram em casas imensas, alimentam-se de nutritivas refeições, possuem empregados para passeá-los, frequentam clínicas onde são lavados, escovados, perfumados, vistoriados. Se adoecem, levam-nos ao veterinário. Se necessitam, educam-nos com adestradores. Recebem, ao longo da existência, afeto. Ao morrer, pranteiam-nos os donos, fixando seus nomes e façanhas na crônica familiar. Apreciados, invejados, admirados, a esses poucos favorecidos os humanos denominam raça pura, como não descendêssemos todos do mesmo cão original…

PIRATA: Foi sempre assim, Meia-noite?

MEIA-NOITE: Não creio, meu bom amigo, não creio. No princípio dos tempos, quando homem e cachorro formávamos uma só nação, todos dependíamos uns dos outros para perdurar como espécie. Mas à medida que alguns, pela força, pela violência, foram acumulando riquezas, nos dispersamos. Como apêndice da dos homens, a nossa história passou a ser a narrativa de desencontros, desentendimentos, divergências…

PIRATA: Como assim?

MEIA-NOITE: Embora tenhamos nossas próprias convicções, a convivência nos empurra para espelharmos as características dos nossos donos. Há cães dóceis e amargos, felizes e furiosos, altruístas e egoístas, amigáveis e antipáticos, tolerantes e discriminatórios, mansos e violentos, bons e maus, enfim. Mas todos esses adjetivos devem ser apostos aos humanos – nós não distinguimos os nossos semelhantes pela pelagem, o ganido, o tipo de coleira, as roupas com que se cobrem, os acessórios que possuem. Para nós, um cão é um cão. O preconceito, que infelizmente também adotamos, desaparece no momento em que nos deixam a sós, entregues aos nossos cheiros, pois no outro reconhecemos de imediato o ancestral comum e revivemos aquele sentimento de paz e alegria de quando nos achamos em equilíbrio com o universo.

PIRATA: Ah, então isso é que é felicidade?

MEIA-NOITE: Não sei se é isso a felicidade… Mas talvez a sensação mais próxima à felicidade seja os instantes, poucos e raros, em que, cientes da nossa desimportância individual, nos irmanamos com os seres e coisas existentes. Precisamos de quase nada para subsistir, Pirata, um prato de comida, um pote de água, um lugar para deitar o corpo cansado… Mas viver não é subsistir: apenas uma vez ocupamos esse corpo e temos o dever de, dia após dia, contribuir para tornar o espaço que nos cerca mais harmônico.

PIRATA: E como a gente consegue, Meia-noite?

O cão filósofo suspirou. A manhã despertara com o trinar dos pássaros, o ronco dos motores dos primeiros automóveis. O casal sem teto espreguiçava. Só então os dois cães repararam em mim, estático. Cruzei devagar a rua rumo à calçada oposta, sem ouvir a resposta de Meia-noite.

(Publicado originalmente em El Pais, 21 de abril de 2015)

Luz na escuridão
Oscar Nakasato, romancista:
“No início da pandemia, fiquei por um tempo paralisado, assustado com o que acontecia. Depois fui retomando as atividades, tanto docentes quanto literárias. Atualmente estou na expectativa da publicação do meu romance Nihonjin no Japão e no México, considerando que os contratos com as editoras dos dois países já foram assinados. Aguardo, ainda, um longa e uma animação do romance, mas creio que esses dois projetos demorarão, considerando a ausência de editais da Ancine. Por fim, estou revisando Nihonjin para uma nova edição. Também escrevo o meu terceiro romance, cujo título, provavelmente, será Ojiichan, que significa ‘avô’ em japonês. Não será uma continuação de Nihonjin, como querem algumas pessoas, embora eu retorne ao universo nipo-brasileiro, desta vez tematizando a terceira idade”.

Parachoque de caminhão
“Nossas convicções são feitas mais para serem aplicadas à conduta dos demais do que à nossa própria, porque é então que aparecem com todo o esplendor de sua honradez: sólidas, arraigadas e inquebrantáveis. Ao contrário, quando se trata de nós mesmos, nossas opiniões ou convicções ganham no mesmo instante a flexibilidade da cera e se acomodam e se modelam maravilhosamente sobre os caprichosos incidentes de nossa conduta.”
Teresa de la Parra (1895-1936)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Augusto Frederico Schmidt
(Rio de Janeiro, 1906 – 1965) 

A ausente

Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que os pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão…

(Pássaro cego, 1930)

 

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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