Indignado (a) leitor (a), vocĂŞ consegue imaginar-se abandonando o conforto do seu lar, a convivĂŞncia com familiares e amigos, a caminhada diária por lugares conhecidos, o arroz com feijĂŁo, a prĂłpria lĂngua, para recomeçar sua vida num paĂs que o rejeita, para enfrentar preconceito e humilhação, solidĂŁo e impossibilidade de comunicar-se por nĂŁo dominar o idioma? Pois Ă©, vocĂŞ sĂł faria isso em um momento de profunda desesperança, nĂŁo Ă© mesmo? E, no entanto, Ă© isso que nossos jovens estĂŁo fazendo… de novo…
Sim, perplexo (a) leitor (a), a partir dos anos 1980, a chamada “dĂ©cada perdida”, cerca de 1,5 milhĂŁo de brasileiros deixaram o paĂs rumo aos Estados Unidos, JapĂŁo e Portugal, principalmente, a maioria deles numa viagem sem retorno. E, embora tenhamos conhecido uma pequena sensação de que enfim estávamos trilhando o caminho do progresso na primeira dĂ©cada dos anos 2000, a desgraça novamente se abateu sobre o Brasil, e desta vez em dose dupla, com a pandemia, praga mundial, e pela escolha livre – nunca nos esqueçamos disso! – deste, Deus que me perdoe, livre e guarde, Jair Bolsonaro para a presidĂŞncia da RepĂşblica.
E, entĂŁo, de novo, estamos assistindo ao desespero daqueles que nĂŁo conseguem ver nenhuma perspectiva de sobrevivĂŞncia digna por aqui. Pesquisa da Fundação GetĂşlio Vargas aponta que, se pudessem, 47% dos jovens brasileiros deixariam o paĂs. A mesma pesquisa mostra que 27% dos jovens entre 15 e 29 anos nĂŁo estudam nem trabalham e que 70% deles tĂŞm dificuldades de encontrar trabalho. Para piorar, se Ă© que isso Ă© possĂvel, outra pesquisa, da Gallup World Poll, indica que a aprovação dos jovens brasileiros a respeito dos governantes do paĂs despencou de 61% atĂ© meados da dĂ©cada passada para 12% para a administração atual. Na mĂ©dia mundial, a taxa tem se mantido prĂłxima a 57% há quase dez anos.
Reflexo disso, em 2019, 17.800 brasileiros foram detidos na fronteira do MĂ©xico com os Estados Unidos. E, durante esta pandemia, ou seja, quando o mundo inteiro está mais ou menos paralisado, mais de 30 mil brasileiros foram barrados tentando entrar ilegalmente naquele paĂs. E, ilustrado (a) leitor (a), nĂŁo estamos falando, obviamente, daqueles aposentados e daquelas celebridades que vĂŁo de primeira classe morar em Miami e sim de gente que vende tudo e se endivida para entregar a sorte nas mĂŁos de um coiote que fica com o dinheiro, tendo ou nĂŁo sucesso em sua empreitada.
TambĂ©m para Portugal, os jovens brasileiros estĂŁo fugindo. A comunidade brasileira, que já Ă© a maior do paĂs, conta com 184 mil brasileiros, sendo que 100 mil imigraram apenas de 2016 para cá. Em 2020, o nĂşmero de brasileiros que ingressaram em Portugal foi 22% maior do que no ano anterior. E tambĂ©m, de novo, a grande maioria nĂŁo vai para lá para desfrutar de suas aposentadorias nem de suas fortunas, mas trabalhar em subempregos, sempre correndo o risco de serem presos e deportados.
Diante de tanta frustração e desesperança, que futuro aguarda esse paĂs abençoado por Deus e bonito por natureza?
Luz na escuridĂŁo
CĂntia Moscovich, contista, romancista:
“Estou trabalhando numa narrativa longa, coisa que me toma anos. Algo relacionado a um câncer que tive, mas que evito, a todo custo, tornar uma histĂłria de sofrimento e penas, que Ă© o que todo câncer representa. Quero que a histĂłria seja engraçada e atĂ© ridĂcula em alguns momentos, como foi meu tratamento. Escrevo e reescrevo, nunca me parece bem ou perto de estar bem. Com a pandemia, entĂŁo, tudo me parece ainda pior, o texto parece que me sai truncado. Mas sairá, tenho certeza. Escrever, nesses tempos inglĂłrios, tornou-se resistĂŞncia. Vamos a ela, Ă resistĂŞncia, portanto”.
Parachoque de caminhĂŁo
“Os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos com que brincaram em crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frequentaram, os esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram.”
Somerset Maugham (1874-1965)
Antologia pessoal da poesia brasileira
Ferreira Gullar
(São Luis, MA, 1930 – Rio de Janeiro, RJ, 2016)
Uma fotografia aérea
Eu devo ter ouvido aquela tarde
um aviĂŁo passar sobre a cidade
aberta como a palma da mĂŁo
entre palmeiras
e mangues
vazando no mar o sangue de seus rios
as horas
do dia tropical
aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos seus jardins
eu devo ter ouvido
aquela tarde
em meu quarto?
na sala? no terraço
ao lado do quintal?
o aviĂŁo passar sobre a cidade
geograficamente desdobrada
em si mesma
e escondida
debaixo dos telhados lá embaixo sob
as folhas
lá embaixo no escuro
sonoro do capim dentro
do verde quente
do capim
lá
junto Ă noite da terra entre
formigas (minha
vida!) nos cabelos
do ventre e morno
do corpo por dentro na usina
da vida
em cada corpo em cada
habitante
dentro
de cada coisa
clamando em cada casa
a cidade
sob o calor da tarde
quando o aviĂŁo passou
II
eu devo ter ouvido no meu quarto
um barulho cortar outros barulhos
no alarido da época
rolando
por cima do telhado
eu
devo ter ouvido
(sem ouvir)
o ronco do motor enquanto lia
e ouvia
a conversa da famĂlia na varanda
dentro daquela tarde
que era clara
e para sempre perdida
que era clara
e para sempre
em meu corpo
a clamar
(entre zunidos
de serras entre gritos
na rua
entre latidos
de cĂŁes
no balcĂŁo da quitanda
no açúcar já-noite das laranjas
no sol fechado
e podre
Ă quela hora
dos legumes que ficaram sem vender
no sistema de cheiros e negĂłcios
do nosso Mercado Velho
– o ronco do avião).
III
eu devo ter ouvido
seu barulho atolou-se no tijuco
da Camboa na febre
do Alagado resvalou
nas platibandas sujas
nas paredes de louça
penetrou nos quartos entre redes
fedendo a gente
entre retratos
nos espelhos
onde a tarde dançava iluminada
Seu barulho
era também a tarde (um avião) que passava
ali
como eu
passava Ă margem do Bacanga
em SĂŁo LuĂs do MaranhĂŁo
no norte
do Brasil
sob as nuvens
IV
eu devo ter ouvido
ou mesmo visto
o avião como um pássaro
branco
romper o céu
veloz voando sobre as cores da ilha
num relance passar
no ângulo da janela
como um fato qualquer
eu devo ter ouvido esse aviĂŁo
que Ă s trĂŞs e dez de uma tarde
há trinta anos
fotografou nossa cidade
V
meu rosto agora
sobrevoa
sem barulho
essa fotografia aérea
Aqui está
num papel
a cidade que houve
(e nĂŁo me ouve)
com suas águas e seus mangues
aqui está
(no papel)
uma tarde que houve
com suas ruas e casas
uma tarde
com seus espelhos
e vozes (voadas
na poeira)
uma tarde que houve numa cidade
aqui está
no papel que (se quisermos) podemos rasgar
(Dentro da noite veloz, 1975)