De volta para o passado

Em 2014, 1,7% da população passava fome – hoje já são 12,8%. Enquanto isso, a venda de artigos de luxo disparou e ganhamos mais 20 bilionários
Ilustração: FP Rodrigues
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23/04/2021

Desmemoriado (a) leitor (a), você há de lembrar que, em 2014, o Brasil deixou oficialmente o Mapa da Fome da ONU – naquele ano, o percentual de pessoas desnutridas ou subalimentadas no país caiu para 1,7% do total da população, o que significa que 98,3% dos brasileiros tinham o que comer em casa. Seis anos depois, o número de cidadãos que vivem abaixo da linha de pobreza alcança 12,8% do total da população, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas. E a situação, infelizmente, tende a se agravar ainda mais, com o aumento previsto do desemprego – estimativas otimistas apontam para um índice acima de 15% para este ano.

Mas, ao mesmo tempo, o mercado de artigos de luxo – bolsas, roupas, acessórios, perfumes – apresentou crescimento de 93% em 2020. O segmento de carros de luxo também não pode reclamar: enquanto na média o setor de automóveis teve uma retração de 26% no ano passado, algumas marcas viram as vendas explodirem, como a Porsche, que entregou 1.849 unidades, crescimento de 35% em relação a 2019, recorde que deve ser batido este ano, pois, só no primeiro trimestre, foram mais 830 carros entregues. E a venda de barcos, com preços que variam de R$ 535 mil a R$ 1,8 milhão, subiu 20%, segundo a Associação Brasileira de Barcos.

E, indignado (a) leitor (a), pasme! Enquanto no fim de 2020, 55% dos brasileiros (117 milhões de pessoas) estavam encurralados por algum grau de insegurança alimentar, mais 20 brasileiros se tornavam bilionários, engrossando a lista nacional na Forbes, que agora soma um total de 65 felizardos. Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 1% dos brasileiros concentram 28,3% do total da renda do país, o que torna o Brasil o sétimo mais desigual do mundo – e esses dados são de 2019…

Então, fica a pergunta: você realmente acredita que isso ainda pode acabar bem?

Luz na escuridão
João Anzanello Carrascoza, romancista, contista, autor de literatura infantojuvenil: “Nesta imensa escuridão, que sufoca até mesmo o silêncio, engrossada a cada dia por uma nova camada de morte, venho avançando na construção do romance Inventário do azul. Busco reconstruir nele, de forma rizomática, a vida de um velho – na certa porque estou me tornando um e, sobretudo, porque, como escreveu Philip Roth, a velhice não é uma guerra, mas um massacre. Massacre ainda maior em nosso país, pela fragilidade inerente aos idosos, pelo seu temor diante dos multiplicados riscos atuais, pelo desprezo dos jovens e pelo desgoverno que nos assola. O inventário galvaniza as memórias deste homem por meio de fragmentos (afinal, estamos todos despedaçados). Para ele, ao contrário da expressão ‘o céu que nos protege’, título do romance de Paul Bowles, o céu não é só indiferente aos desígnios dos homens, como os asfixia com a beleza de seu azul e a arrogância de sua imensidão: não há providência divina, apenas a imprevidência humana. Uma narrativa-dor, embora também uma história-esperança”.

Parachoque de caminhão
“Quanto mais um homem estúpido é, mais obstinado se mostra em conseguir os seus fins.”
Saltykov-Shchedrin (1826-1889)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Solano Trindade
(Recife, PE, 1908 – Rio de Janeiro, RJ, 1974)

Tem gente com fome

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuu

(Cantares ao meu povo, 1962)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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