Com minha mãe estarei

No céu, acompanhado do meu pai, irmão, sobrinho, de todos os gatos e até mesmo de um cachorro chamado Joli
Ilustração: FP Rodrigues
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram

(20/11/20)

Você não deve conhecer, leitor/leitora, porque não é do seu tempo, na verdade sequer é do meu tempo, mas havia ou há uma música do canto litúrgico da igreja Católica intitulada Com minha mãe estarei, que tem como estribilho (ou refrão) “No céu, no céu/ Com minha mãe estarei”, sendo que “mãe” aqui refere-se a Nossa Senhora, e “céu” a céu mesmo, aquele lugar post-mortem destinado aos eleitos que seguiram os Dez Mandamentos, que praticaram boas ações na Terra, que foram justos e corretos etc. – vetado portanto a bolsonaristas, terraplanistas, fundamentalistas, corruptos, fascistas, negacionistas e congêneres.

Mas eu, desde sempre, associei “mãe” não à Mãe de Deus, mas à minha própria, dona Geni, uma das melhores pessoas que conheci até hoje, e então, quando evoco esse canto, penso que, quando morrer – e espero, sinceramente que esse acontecimento tarde bastante – irei me reencontrar com ela no céu; e, não só com ela, mas com aqueles com quem partilhei momentos inesquecíveis, e que já se foram, infelizmente de forma precoce, meu pai (seu Sebastião), meu irmão (Célio), meu sobrinho (Daniel) e – aqui ouso contrabandear – todos os meus gatos (Federico, Sassy, Oliver, Ignácio, Romeu, João, Ronrom, Pelé, Pelezinha, Vanderlei, Vanderléia, e tantos e tantos outros) e até mesmo um cachorro, o único que tive na vida, Joli.

Neste céu que imagino, as pessoas mantêm a mesma idade com que morreram, e, claro, no começo pode parecer estranho, talvez eu esteja mais idoso que meus pais, certamente estarei mais velho que meu irmão e meu sobrinho, mas isso torna-se vantagem, porque assim poderei expressar corretamente o tamanho da minha admiração e a extensão do meu amor por eles – e que talvez, por incompetência afetiva, não tenha sido devidamente evidenciada por mim à época.

E para você que está aí, ironicamente pensando, quem é este Luiz Ruffato que acha que, ao morrer, irá para o céu – se céu existir –, eis minha resposta, hipócrita leitor/leitora: deixe-me sonhar acordado neste pequeno espaço, único consolo que me resta neste mundo desesperançado.

Luz na escuridão
Carol Rodrigues, autora de Sem vista para o mar, Ilhós e O melindre nos dentes da besta: “Tenho trabalhado numa novela, a voz é a cabeça de uma criança nos anos noventa, processando as relações com coisas, pessoas e bichos, entre os escândalos e crimes tão estranhos da década. Tem algo de violência, mas também de humor, de um certo ridículo de classe-média, de um cristianismo desajeitado. Esse texto tem mais memória do que os meus outros, então é um processo novo. Não sei quando fica pronta para publicar, acho que vão ainda vários meses de trabalho”.

Parachoque de caminhão
“Será que existe na vida desilusão maior do que conseguir aquilo que se buscava?”
Robert Louis Stevenson (1850-1894) 

Antologia pessoal da poesia brasileira
Mário de Andrade
(São Paulo, SP, 1893 São Paulo, SP, 1945)

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
[muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos
[olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

(Clã do jabuti, 1927)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

Publicidade

Leia também

Rascunho

Curitiba - PR

Entre os selecionados, há sete brasileiros: Julián Fuks, Maria Valéria Rezende, Julia de Souza, Veronica Stigger, Itamar Vieira Junior, Tiago D. Oliveira e José Rezende Jr.
Gisele Eberspächer

Curitiba - PR

Autora do primeiro livro escrito em árabe a vencer o The International Booker Prize, Jokha Alharthi acredita na potência transformadora da boa literatura
Rascunho

Curitiba - PR

Em texto, senador chama de “nefasta” a cobrança de tributação de 12% sobre os livros proposta pelo governo federal na reforma tributária
Rascunho

Curitiba - PR

Caê Guimarães e Tônio Caetano, ganhadores nas categorias Romance e Conto,
participam de live nesta terça-feira (24), com transmissão pelo YouTube e Facebook