🔓 A literatura dos povos originários

A produção cultural de povos autóctones chama a si legitimidade e valor, alcançando visibilidade e demandando novos paradigmas de compreensão
Colagem digital de Maíra Lacerda a partir de ilustrações de Fernando Vilela
01/01/2023

Texto escrito em parceria com Maíra Lacerda

Silviano Santiago publicou há algum tempo um pequeno artigo em que se referia às etiquetas apostas à literatura, para marcar a presença de novos atuantes em cena. Necessárias e passageiras, deveriam ser abandonadas tão logo a produção assim marcada se incorporasse à cena literária. Literatura feminina, negra, homossexual eram alguns dos exemplos citados. No presente, pode-se constatar o acerto do crítico. Conceição Evaristo, Jeferson Tenório, Caio Fernando Abreu fazem literatura sem adjetivos.

No caso da literatura dos povos originários ou indígenas, tal etiqueta tem ainda sua conveniência. Apesar do lugar de fala indígena mostrar-se cada vez mais, há em circulação uma enorme quantidade de obras em que autores de origem variada recontam narrativas das quais se apropriaram e passaram a reproduzir, nem sempre com a atenção devida. Ao agir como substitutos das vozes originais, não alcançam a complexidade de representação de um mundo cujas versões passavam, até bem pouco tempo, pelo olhar e pela voz do colonizador. Com as recentes perspectivas de um olhar deconolizador, a produção cultural de povos autóctones chama a si legitimidade e valor, alcançando visibilidade e demandando novos paradigmas de compreensão.

A cuidadosa obra Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção, de Julie Dorrico, Leno F. Danner, Heloisa Helena S. Correia e Fernando Danner, aborda múltiplos aspectos desse projeto e suas realizações. No Brasil, a urgência de politizar a luta indígena no país, como reação aos projetos de expansão socioeconômica dinamizados pelos governos militares nas regiões norte e centro-oeste, propicia a organização para a luta política, vinculada necessariamente às questões de identidade, memória e expressão.

A literatura para crianças e jovens foi importante porta de entrada para tal e cabe a Daniel Munduruku um dos principais papéis na articulação entre autoria e publicização da literatura indígena. Escritor, publicou, em 1997, Histórias de índio, obra sucedida por fluxo ininterrupto de relatos que disseminam a poética e os valores culturais indígenas por leitores infantis e juvenis de todo o país. O livro ilustrado, espaço de diálogo entre os campos verbal e visual, objeto lúdico e provocador por excelência, fomenta a produção de significados no processo de leitura, deslocando o leitor de posições anteriores, oferecendo a ele um novo lugar na compreensão do mundo. Alcança-se, no tempo de toda infância, isto é, no tempo aiônico da experiência, a construção de diversa mentalidade, construída na recepção aos valores dos povos originários. As cosmogonias, a força do elemento fantástico, o aspecto sagrado do mito, as histórias de origem carregam posições fundadoras e identitárias que sensibilizam crianças e jovens. Configura-se, portanto, um país feito de alteridades e de consideração às verdades históricas na interpretação de sua memória.

Em parceria com a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Munduruku amplia o espaço para escritoras e escritores indígenas, por meio de seminários específicos e da criação de um concurso literário voltado exclusivamente a obras dessa autoria. Um passo seguinte é a criação do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. O fortalecimento de uma produção literária, que demandava etiqueta e se mostrava incipiente, conduz a uma profusão de belos e consistentes livros, com robusta premiação nacional e internacional.

Nós – Uma antologia de literatura indígena, coletânea de 2019, organizada e ilustrada por Maurício Negro, é uma dessas obras. Na acepção de Viveiros de Castro, nós tem o valor de um pronome cosmológico, em referência ao grupo. Na introdução, o esclarecimento essencial:

Afinal, quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Os indígenas são aqueles que de fato pertencem ao lugar. Nativos, como dizem. Gente da terra, com a qual mantêm uma relação de profunda dependência, interação, respeito e parentesco. Índio, caipira, caboclo, caiçara, ribeirinho, quilombola, camponês, interiorano — cada qual sob sua cultura. […] Embora sejam brasileiros, os dez escritores que assinam as narrativas desta coletânea são antes Mebengôkré Kayapó, Saterê-Mawé, Maraguá, Pirá-Tapuya Waikhana, Balatiponé Umutina, Taurepang, Umuko Masá Desana, Guarani Mbyá, Krenak e Kurá-Bakairi.

Os indígenas brasileiros não são um bloco monolítico, mas povos tão distintos entre si quanto os diversos povos da América. Reconhecer-se e ser reconhecido em sua singularidade tem sido objetivo do projeto de literatura indígena. Em um país miscigenado, cuja tradição cultural é resultado de confluências e absorções, como negar ao indivíduo a sensação de pertencimento, por meio de uma ilustração, uma prática, um rol de palavras? Em experiência de implantação de biblioteca na cidade de Açailândia, no Maranhão, a leitura do conto Hariporia: a origem do açaí, escrito por Tiago Hakiy, do povo Sateré-Mawé, deixou patente no público a emoção de se ver representado no verbo e no traço. Em outra cidade, em que a população indígena vinha da aldeia próxima para o curso, a representação pictórica que Graça Lima escolheu para a taba, em A boca da noite, de Cristino Wapichana — tomada do alto e mergulhada no sol do ocaso —, causou impacto no grupo, com exclamações: “É assim, nossas casas são assim, a aldeia é assim”.

Esses exemplos ratificam as palavras de Maurício Negro, que se refere a uma sabedoria antiga, cujos ecos ainda estão por aí pedindo reforço em palavras e imagens, proposta plenamente alcançada nos textos verbais e nas ilustrações que remetem à xilogravura, nas quais estão presentes apenas o vermelho e o negro, cores das tradicionais tinturas indígenas obtidas do urucum e do jenipapo,. Fernando Vilela utiliza-se de uma paleta contida e forte nas xilos para o magnífico Sabedoria das águas, de Munduruku, em que, à beira do rio Tapajós, Koru vive o imemorial dilema de Fausto.

A tentação do herói de Goethe é a tentação e o pecado do colonizador: dominar o espaço-tempo dos colonizados, o que resulta no sequestro da alma desses povos. Koru renuncia ao desejo fáustico ao saber do preço a pagar por ele, e ouve a voz do enorme gavião-real:

Viste seres que não são deste mundo no qual te moves. […] São viajantes solitários pelo espaço-tempo do cosmo. Têm poder, mas não mandam em ninguém. Têm prestígio, mas não têm como usufruí-lo. Eles fizeram a escolha a que hoje renunciaste por amor a teu próprio espaço-tempo.

Entre a criação dos fantasiosos I-Juca-Pirama, Peri, Ubirajara e outros, sem compromisso com a realidade dos povos originários, e o consistente protagonista de Maíra, advindo da experiência antropológica de Darcy Ribeiro, os indígenas tomam a si dizer da própria identidade, em toda sua complexidade. O povo Guarani Mbyá chama de belas palavras a uma linguagem ritual, extremamente elaborada, ayvu porã, […] revelada pelas divindades aos dirigentes espirituais e pronunciadas em ocasiões especiais, a partir de um vocabulário e conceitos muito próprios: o povo brasileiro está aberto a ouvi-las.

Maíra Lacerda
Designer e ilustradora. Professora no Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF, com doutorado em Design pela PUC-Rio. Prêmio de tese pelo Museu da Casa Brasileira. Pesquisa os livros para crianças e jovens e a formação visual do leitor no laboratório LINC-Design.
Nilma Lacerda

Escritora, tradutora, professora, recebeu os prêmios Jabuti, Rio, Brasília de Literatura Infantojuvenil, entre outros. Trabalhou em várias universidades públicas, é colaboradora da UFF. Exerce a crítica de literatura para crianças e Jovens e mantém um Diário de navegação da palavra escrita na América Latina.

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