Um chá com Bolaño

Ieda Magri: “Os romances funcionam pra mim como funcionam as séries para as novas gerações”
Ieda Magri, autora de “Os detetives selvagens” Foto: Keli Magri
01/09/2023

Catarinense radicada no Rio de Janeiro, Ieda Magri é ficcionista e professora de Teoria da Literatura nos programas de graduação e de pós-graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Para ela, o chileno Roberto Bolaño é uma obsessão literária. Se pudesse, tomaria um chá de camomila com mel com o autor do romance Os detetives selvagens, “um livro imprescindível”, segundo a romancista.

Ela também acharia tempo para um café com Natalia Ginzburg ou Elsa Morante… Essas são algumas inconfidências que a autora de Um crime bárbaro — obra que lhe valeu o Prêmio Catarinense de Literatura de 2023 na categoria Melhor Romance — conta nesta edição do Inquérito.

Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ieda Magri escreveu ainda os romances Uma exposição, Ninguém e Olhos de bicho, além dos ensaios O nervo exposto: João Antônio, experiência e literatura e Três histórias com Piglia.

Para Ieda, a contista Flávia Perèt, que publicou recentemente a coletânea Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeça, é uma autora para se “prestar mais atenção”. Ela ainda fala sobre a vaidade dos autores, seus momentos e lugares preferidos para ler e criar e o que espera da eternidade.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Acho que continuo me dando conta. Não há um momento específico, mas o desejo de escrever, que vai se renovando ou minguando conforme as dificuldades aparecem. Houve porém, como acontece com quase todos os escritores, o grande incentivo de uma professora, que sempre que lia meus trabalhos escolares dizia que eu me tornaria escritora porque sabia dar forma às anedotas que todos partilhávamos. Ela começou pra mim mesma, talvez, aquele mal-entendido imprescindível, a crença, que faz de alguém um escritor, como diz César Aira.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Obsessão literária no sentido estrito da palavra somente Bolaño. Obsessões mais leves: escrever para entender alguma coisa ainda não compreensível, ler livros de muitas páginas, que durem mais de uma semana ou ler um romance inteiro em um só dia.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Qualquer ficção. Os romances funcionam pra mim como funcionam as séries para as novas gerações. Os bons teóricos e críticos que se dedicaram a ler seus contemporâneos também me interessam.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Pré-história, de Paloma Vidal.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Acho que não há situações ideais: já tive tempo e fiquei sem ideias, já estive atolada em trabalho e escrevendo freneticamente. Mas eu diria que as condições ideais se apresentam quando você não precisa se preocupar demais com a própria sobrevivência e a dos outros.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Mente vazia, silêncio, uma boa poltrona, de preferência perto de uma janela com vista pra mata. Por outro lado, nada melhor que um livro bom em qualquer situação de espera, haja o ruído que houver.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Na escrita, apenas duas páginas com uma deixa pra continuação. Como professora, uma aula que funcione.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
O momento de descoberta: saber o que é necessário escrever de uma vez e ir à escrita sentindo a página se encher de frases que parecem funcionar, ainda que depois precisem ser deixadas para trás.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Os outros trabalhos, aqueles que ele é obrigado a fazer para sobreviver. Ou não ter outro trabalho quando precisa dele pra sobreviver.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A vaidade dos escritores e os maus críticos, aqueles que gostariam de ler outro livro que não o que têm em mãos.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Uma autora: Flávia Perèt.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño e Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A preocupação ou, pior, a condescendência com o leitor sensível.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nenhum: não acredito que a literatura seja feita de um ou outro assunto.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Poderia parodiar o personagem de Daniel Kehlmann, em Fama: “na banheira”. Mas não seria verdade. Acho que foi do rosto excessivamente pintado de uma desconhecida no mercado público de Florianópolis. Foi com ela que comecei o que veio a ser meu primeiro livro.

• Quando a inspiração não vem…
Você aproveita pra ler. Faz bem pra todo mundo.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Natalia Ginzburg ou Elsa Morante ou a tia do Puig. Também gostaria de fazer uma pergunta muito específica ao Bolaño, tomando chá de camomila com mel e esperando que ele não me obrigasse a desistir de escrever.

• O que é um bom leitor?
Aquele que lê contra o escritor, mas não somente para criticá-lo ou para achar defeito em suas histórias; e contra si mesmo, para testar sua própria ideia de boa literatura.

• O que te dá medo?
Continuar precisando escrever quando ninguém mais quiser me ler. Precisar parar de escrever para fazer algum tipo de militância que se torne mais imprescindível que a literatura.

• O que te faz feliz?
Poder comer bem e não precisar ir às ruas pra dizer “Ele não”.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A de que tudo é, para o bem e para o mal, bastante provisório.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Tentar não ser demasiado óbvia sem, no entanto, escrever de forma excessivamente literária.

• A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma que não seja com seu próprio funcionamento.

• Qual o limite da ficção?
O da prescrição: querer ensinar um modo de pensar ou de agir no mundo real.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao Lula, óbvio. Se não desse certo, ao Spielberg.

• O que você espera da eternidade?
Que ela não exista. Mas se existir, que seja como a última parte de As aventuras da China Iron, de Gabriela Cabezón Cámara.

Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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