Marcia Kupstas estreou na literatura em 1986 com Crescer é perigoso, vencedor do prêmio Mercedes-Benz de Literatura Juvenil. Em quatro décadas de carreira, publicou mais de 150 livros voltados ao público infantil, juvenil e adulto. Recebeu ainda o prêmio Orígenes Lessa por É preciso lutar e é autora de títulos como Coragem não tem cor, Fronteiras, O jardim de Yuki, O clube do beijo e Marco zero, além de ter atuado na coordenação de coleções literárias como Três por três e Sete faces. Neste Inquérito, Kupstas fala sobre sua relação com a escrita e a leitura — práticas que, segundo ela, fazem parte de uma disciplina diária: “Todo dia, sempre”.
• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Desde criança almejava ser escritora. Meu pai contava que, aos 5 anos (e analfabeta, claro), eu já sentava no seu colo, ditava uma história, e ele tinha de anotar direitinho! Se perguntassem o que queria ser quando crescesse, a resposta era sempre essa: “ser escritora”.
• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Sou leitora-devoradora de livros. Não consigo ir pra cama sem um livro (ou e-book) para ler; preciso ter uma leitura à mão antes de dormir.
• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Leio de tudo, mas adoro mesmo romances policiais. Agora, estou com o segundo volume da série Slow horses, do britânico Mick Herron. Já assisti à série [está na Apple TV+], os livros acabaram de sair em português e já estou no volume Leões adormecidos. É do gênero policial, mas subgênero de espionagem. Tem personagens interessantíssimos.
• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Acho que o gosto literário é muito pessoal. Eu sondaria que tipo de livro ele prefere… Se fossem romances policiais, indicaria a obra de Agatha Christie. Se quisesse um autor nacional, citaria Rubem Fonseca.
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Todo dia, sempre. Acho que o escritor profissional deve agir como tal. Reservar algumas horas por dia diante do computador, nem que seja para rascunhar projetos.
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Na cama, alguns minutos antes de dormir.
• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Um dia em que consegui escrever um ou dois capítulos ou umas 15 a 20 páginas. Mas isso quando estou “engatada” num projeto. Se é uma fase “seca”, sem produção de livros, é reservar mais tempo para leitura.
• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A elaboração de personagens. Gosto de colocar “cara e alma” nos personagens, fantasiar seu cotidiano, suas atitudes, seu caráter.
• Qual o maior inimigo de um escritor?
A preguiça. Deixar a imaginação à solta, mas não conduzi-la com rédea curta, para viabilizar os sonhos em palavras no papel.
• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Algumas “panelinhas” muito fechadas, que definem o que é a “grande arte” e desprezam o que é produzido de maneira mais comercial ou mais voltada para o público comum, que não faz parte das tais “panelinhas”.
• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Raphael Montes é um escritor jovem que se dedica a romances policiais e o faz bem. Dias perfeitos me impressionou positivamente.
• Um livro imprescindível e um descartável.
Iiih, essa vou pular. Dificilmente eu me apego a um livro. Quando gosto de um, eu vou atrás do autor e leio tudo dele. O descartável seria aquele livro que me fez largar a leitura na metade, e eu sequer terminei.
• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Personagens mal construídos, que agem sem um motivo claramente definido, fazem x ou y apenas para facilitar o enredo e não por uma necessidade visceral, de sua personalidade.
• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Livro de autoajuda. Acho chato e pretencioso ensinar os outros a viver. Se eu escrever um romance com personagens bem caracterizados, vivenciando fatos significativos, poderei ajudar o leitor com esse retrato e permitir que ele reflita sobre decisões de personagens que tragam inspiração para a vida real do leitor.
• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Não foi bem o lugar, foi o quê: uma placa de rua com “procura-se cachorro perdido”. Uma ideia me levou a outra, e escrevi o livro sobre um paranormal que tinha a habilidade de localizar cachorros perdidos, mas era um bocado antissocial para outras coisas.
• Quando a inspiração não vem…
Vou ler. Vou fazer uma caminhada. Vou ver uma série de TV.
• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”, me parece um contato bem divertido… Ele iria destilar suas fofocas maldosas sobre a elite brasileira colonial e a Coroa Portuguesa.
• O que é um bom leitor?
Um leitor. Que mantém o hábito e não se irrita; se acha um livro chato, pega outro e continua.
• O que te dá medo?
Perder a lucidez, ter aí uma dessas doenças FDPs, que te deixam igual um nabo, dependente de todos e sem memória de nada.
• O que te faz feliz?
Um bom livro. Uma viagem que deu certo. Um papo com amigos. Um café preto de manhã cedo. Uma aula de pilates que não me deixou com dor. Um telefonema surpresa de algum amigo que há muito não vejo. O passeio matinal com Yuri, meu adorável cocker spaniel.
• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Fazer o melhor possível. Pesquisar o assunto, elaborar o estilo, procurar a caracterização mais plausível do personagem e acreditar que meu leitor terá um livro honesto; pode não ter concretizado tudo que planejei, mas foi o melhor que consegui, no contexto.
• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Verossimilhança, criar situações e personagens plausíveis, convincentes.
• A literatura tem alguma obrigação?
Não. Literatura engajada é um pé no saco. Um bom livro é aquele que corresponde a certos parâmetros de verossimilhança, estilo fluente, caracterização bem feita de personagens etc. E, por ser um bom livro, pode pertencer a uma obra significativa daquele momento histórico.
• Qual o limite da ficção?
Ficção não tem limite e nem deve ter.
• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ah, que ETzinho mais safado! Eu devolveria a sugestão: “só se você me levar primeiro ao seu líder”.
• O que você espera da eternidade?
Que eu possa participar dela, que de alguma forma meus livros possam superar o tempo e, sei lá, daqui a 130 anos, um adolescente enfadado descubra Crescer é perigoso, ou Marco zero ou Clube do beijo, etc.