Nascido em Baependi, em 1949, o mineiro Luís Giffoni tem 28 livros publicados entre romances, contos, ensaios, crônicas e literatura juvenil, recebeu prêmios como Jabuti, APCA, Prêmio Nacional de Romance, Prêmio Nacional de Contos e Prêmio Minas de Cultura, e, desde 2017, integra a Academia Mineira de Letras. Autor do recente romance Linha de neve, ele encara este Inquérito reafirmando um princípio central de sua obra: o respeito absoluto às personagens. Avesso a todo panfletarismo e desconfiado das certezas — “mais vale uma boa dúvida que duas certezas” —, defende uma literatura comprometida com a arte, crítica aos modismos e atenta à inteligência do leitor, sem se render à vaidade que, para ele, é o maior inimigo de um escritor.
• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Aos oito anos, quando comecei a escrever um romance sobre uma terra desconhecida na Amazônia. Na quinta página, a inspiração acabou.
• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Só escrevo de manhã, tenho que clarear a cabeça ao assentar, achar as palavras corretas, descobrir a sensualidade de cada uma antes do uso, preciso mergulhar dentro da personagem, dialogar com ela, descobrir-lhe os segredos. Uma vez uma personagem me deu uma bronca: “Não sou assim!”. Tive que atendê-la. Respeito muito minhas personagens. Devo a elas meu ofício.
• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Leio de tudo. Caos total. Depois busco a ordem dentro do caos. Costumo vislumbrar alguma. É a tal de inspiração.
• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Os Ensaios, de Montaigne. Montaigne tem mais sabedoria que a Bíblia.
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Um bom insight, um momento em que o mundo parece ao alcance da mão, e toda a história se descortina dentro da cabeça. Depois, aos poucos, o descompasso de velocidade entre o cérebro e as mãos vai se ajeitando, e controlo o estouro da boiada dentro do curral do texto.
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Um bom romance, uma tarde de chuva, um copo de uísque, silêncio ao redor.
• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando escrevo uma frase, uma linha, uma página, releio, releio e não consigo mais mudar as palavras.
• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
O momento do insight, o instante de comunhão com a amplitude, o segundo em que o Universo caberia dentro do texto. A carpintaria também é prazerosa, mas vem em doses homeopáticas. Às vezes, tem gosto ruim, confesso.
• Qual o maior inimigo de um escritor?
Dar-se muita importância.
• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O tamanho dos egos.
• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Francisco de Morais Mendes.
• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Grande sertão: veredas [João Guimarães Rosa]. Descartável: O alquimista [Paulo Coelho].
• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A repetição temática sem um toque diferente, a transformação da própria experiência sem o crivo da ficção, a falta de senso crítico, a pobreza do texto, o desrespeito com a inteligência do leitor, a submissão ao modismo.
• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Panfletarismo de qualquer natureza.
• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Um banheiro imundo dentro de um ônibus.
• Quando a inspiração não vem…
Vou ler cosmologia ou Borges. Os astros e o Bruxo acendem meus neurônios.
• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Shakespeare. Para protestar. O danado me roubou frases e ideias magníficas.
• O que é um bom leitor?
Aquele que persegue o autor no momento da criação, que entra em fase com o escritor, e vão fazendo a obra juntos.
• O que te dá medo?
Líderes autocratas. E ismos.
• O que te faz feliz?
Uma caminhada numa floresta junto às montanhas dos Andes.
• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Sou sempre dúvidas. Mais vale uma boa dúvida que duas certezas.
• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Fazer um texto provocador. E que me agrade.
• A literatura tem alguma obrigação?
Tem, sim. Com a arte, com a criação, com o prazer que proporciona ao autor e eventualmente ao leitor.
• Qual o limite da ficção?
Tenho tentado descobrir. Até agora, sem êxito.
• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao Yoda.
• O que você espera da eternidade?
Deus me livre da eternidade. Eternidade é uma das mais idiotas das invencionices humanas.