Músico, escritor e editor, Cadão Volpato nasceu em São Paulo (SP), em 1956, e construiu uma trajetória que atravessa a música pós-punk dos anos 1980, o jornalismo cultural e a literatura. Fundador da banda Fellini, é autor de 13 livros de ficção e não ficção, entre eles Pessoas que passam pelos sonhos, À sombra dos viadutos em flor e Notícias do trânsito, publicado em 2025 pela Seja Breve, editora de livros curtos que criou, ao lado de Bernardo Ajzenberg, após seis anos vivendo em Nova York. Neste Inquérito, Cadão fala sobre hábitos de escrita e leitura, o papel da anotação no seu trabalho, as condições ideais para criar, suas referências literárias, a recusa à autoindulgência, o incômodo com as “igrejinhas” do meio literário e uma visão de literatura guiada mais pelas dúvidas do que por certezas.
• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Lembro que, aos 18 anos, no primeiro ano da universidade, eu disse a um professor, com a maior segurança, que queria escrever um romance. Demorou quase 40 anos para acontecer.
• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Anotar compulsivamente. Ler livros físicos, curtos, bonitos e bem-escritos
• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Hoje, a dos livros inéditos que minha editora (minha e de Bernardo Ajzenberg), a Seja Breve, pretende publicar nos próximos anos.
• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Que não se repita, do Eugênio Bucci. É sobre o dia a dia do governo Bolsonaro, de quem nos livramos graças a ele.
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Para mim, um tempinho livre diário, meu computador e minhas anotações. Tenho grande capacidade de abstração, já escrevi muito em meio ao burburinho das redações.
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Aquelas que você conseguir cavar. Tem sido cada vez mais difícil, pelas distrações do mundo moderno. Mas a velhice ajuda: você vai tirando o inútil do caminho, pois o tempo tende a ser cada vez mais curto.
• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Aquele em que desenhei algo bonito para as capas da minha editora. Desenhar tem sido fonte de uma grande alegria, e tem a ver com a infância, quando eu já desenhava antes de saber escrever.
• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Escrever alguma coisa que seja verdadeira para mim mesmo. Nem sempre acontece, mas quando acontece é uma beleza.
• Qual o maior inimigo de um escritor?
A burrice.
• O que mais lhe incomoda no meio literário?
As igrejinhas.
• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Dois: Fernando José de Almeida, autor de Elogio à saudade; e Patrícia Mourão, autora de Criança velha. Dois autores inéditos de pequenos livros extraordinários que saem o ano que vem pela Seja Breve.
• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Caro Michele, de Natalia Ginzburg. Descartável: Mein Kampf, de Adolf Hitler
• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A autoindulgência do autor.
• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Química. Diferente de Primo Levi.
• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
O caderno de anotações de Renato Russo, que morou um mês no apartamento que eu dividia com amigos em 1984. Nele, Russo previa o futuro da sua banda. De lá, de acordo com o testemunho de uma amiga, tirei o título e imaginei a história de um trio (a sair em 2027).
• Quando a inspiração não vem…
Não escrevo nem desenho: vejo a vida passar.
• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Natalia Ginzburg, na companhia de Italo Calvino (para não ficar um clima pesado).
• O que é um bom leitor?
Aquele cuja imaginação ajuda o autor durante a leitura.
• O que te dá medo?
As ratazanas de Nova York.
• O que te faz feliz?
Às vezes a solidão, nunca a multidão.
• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Só as dúvidas, nenhuma certeza tem ajudado ao longo desses 30 anos de publicações.
• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Ser fiel a mim mesmo.
• A literatura tem alguma obrigação?
A de chegar até alguém.
• Qual o limite da ficção?
Não tem limites, a não ser os limites da paciência do leitor.
• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Às mulheres mais fortes desse mundo, por exemplo, Natalia Ginzburg, caso estivesse viva.
• O que você espera da eternidade?
Que dure menos.