Deixar apenas o essencial

Leitora desde a infância, Alê Motta fala sobre concisão, reescrita, fé e a necessidade da ficção como forma de ampliar a visão de mundo
Alê Motta, autora de “Pequenos engasgos”
01/10/2026

Nascida em São Fidélis, no interior do Rio de Janeiro, Alê Motta é arquiteta formada pela UFRJ e autora de livros de contos e de literatura infantojuvenil. Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada por Adriana Lisboa, e estreou em livro com Interrompidos (2017). Depois vieram Velhos (2020), obra adotada em vestibulares de universidades públicas, além de O menino que sabia fingir (2024), Minha cabeça dói (2024) e Todo mundo, no mundo todo, faz alguma coisa muito bem (2025). Em 2026, lançou Pequenos engasgos, reunião de micronarrativas. Contos seus também integram a antologia internacional Daughters of Latin America (HarperCollins, 2023). Leitora desde a infância, Alê conta que decidiu ser escritora aos nove anos e que a ficção permanece central em sua formação e em sua rotina. Na escrita, diz buscar concisão, valorizar cada palavra e reescrever até deixar apenas o essencial. Neste Inquérito, fala ainda de fé, dúvidas, leitura, medo, felicidade e do desejo de encontrar leitores.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Eu tinha nove anos de idade. Era uma criança que lia o tempo todo. Um dia, ao terminar a leitura de um livro, afirmei para minha mãe que seria escritora. Ela disse que eu poderia ser. E eu acreditei no mesmo instante.

 • Quais são suas manias e obsessões literárias?
Não sei se é mania, obsessão ou tolice, mas preciso ler mais de um livro ao mesmo tempo. Como sei que é impossível ler tudo o que quero ler ao longo da minha vida, ler dois ou três livros ao mesmo tempo me deixa menos chateada.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Ficção. Tenho pena de quem não lê ficção. Fabular, imaginar: como viver sem esses deliciosos recursos? Também leio a Bíblia todos os dias, desde criança.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Eu não recomendaria um livro especificamente. Recomendaria que ele lesse ficção todos os dias. A ficção amplia a nossa visão de mundo, nos faz enxergar detalhes. A boa ficção lida com paradoxos — nos entrega delicadeza e desespero. A boa ficção pode nos incomodar, nos arrebatar, nos sensibilizar. Acredito que isso faça diferença para um governante.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?}
Circunstâncias ideais não são utopia neste mundo acelerado?

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Ler para mim é inevitável. Em qualquer circunstância.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Um dia em que observei o mundo ao meu redor e, de um modo que não sei explicar nem definir, me senti incomodada. E o incômodo me fará escrever.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Descobrir o que quero contar. E, de modo muito especial, amo reescrever. Cortar o texto, deixar apenas o essencial.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A indiferença.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A vaidade.

 • Um autor a quem se deveria prestar mais atenção.
Vou citar três autores: André Timm, Cinthia Kriemler e Adriane Garcia. São maravilhosos.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindíveis para mim: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, e Contos completos, de Flannery O’Connor. Descartável nem vale a pena citar.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O autor tratar o leitor como uma criança, segurando sua mão, explicando cada detalhe da narrativa.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Nunca é definitivo demais!

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Muitos. Num cemitério, num dia em que cheguei atrasada para um enterro e acompanhei o cortejo fúnebre errado. Numa calçada, onde levei um tombo constrangedor. Numa obra, em meio ao barulho ensurdecedor de marteletes. E até durante um assalto, em que o ladrão usava blazer.

• Quando a inspiração não vem…
Eu continuo observando tudo ao meu redor. E escrevo.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Flannery O’Connor e C. S. Lewis.

• O que é um bom leitor?
Aquele que se entrega ao texto.

• O que te dá medo?
Tive que tirar a tireoide há alguns anos, por causa de um nódulo que comprometeria minhas cordas vocais. Fiquei com muito medo de não conseguir falar após a cirurgia. Existia essa possibilidade e, para mim, era apavorante. Amo conversar, fazer amizade, trocar ideias. Fiquei muito feliz após a cirurgia, quando consegui falar normalmente.

• O que te faz feliz?
Dar gargalhadas com meu marido e meu filho. Conversar com meus amigos. Ler um bom livro. Ajudar alguém, de preferência sem a pessoa saber. Surpreender alguém. Amo surpresas!

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Muitas dúvidas! E não acho isso negativo. Quem só tem certezas corre o risco de se tornar arrogante.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Não sei se é preocupação ou desejo. Acredito que sejam três os principais: o desejo de fazer algo bom, o desejo de valorizar cada palavra, pois meu projeto é de concisão, e, por fim, o desejo de encontrar leitores.

• A literatura tem alguma obrigação?
Não deveria ter. Se é literatura, deve ser livre.

• Qual o limite da ficção?
Limite é uma palavra que não combina com ficção.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu desobedeceria, com certeza! Não iria gostar desse ET chegando e já exigindo que eu fizesse algo por ele.

• O que você espera da eternidade?
Tenho muita fé. Acredito que cada dia de vida aqui na Terra é um presente. Mas temos impossibilidades, lutas, dias muito difíceis, vitórias seguidas de fracassos. A finitude está em tudo o que tocamos. Na eternidade, espero começar a vida sem as limitações que temos por aqui. Espero a completude.

Pequenos engasgos
Alê Motta
Faria e Silva
72 págs.
Rascunho

O Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

Rascunho