🔓 O difícil e inquieto bordado

Andréa Pachá: "Cada escritor deve ter seu próprio demônio. No meu caso, a procrastinação é o maior inimigo"
Andréa Pachá, autora de “A vida não é justa” Foto: Leo Aversa
01/02/2023

Andréa Pachá ficou conhecida dos leitores em 2012, quando seu livro de estreia A vida não é justa virou um best-seller. A obra compila crônicas e depoimentos recriados pela autora a partir de sua atuação frente a uma Vara de Família no Rio de Janeiro. São observações a respeito dos conflitos nos tribunais e da necessidade de compreender o fenômeno que leva os casais, muitas vezes, ao limite do ódio e da intolerância.
O livro ganhou ainda mais repercussão quando virou uma série do programa Fantástico, da TV Globo, em 2016, com o nome de Segredos de Justiça. Agora, dez anos depois da primeira publicação, A vida não é justa ganha uma reedição acrescida de novos textos.
Hoje desembargadora, Andréa tem uma relação íntima com a palavra escrita muito antes de o Direito entrar em sua vida. “Não consigo lembrar de algum tempo da vida em que eu não precisasse escrever para entender o mundo”, diz.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Não consigo lembrar de algum tempo da vida em que eu não precisasse escrever para entender o mundo. Dos diários da infância, às cartas da adolescência, passando pelas anotações dos pensamentos e sentimentos, escrever, para mim, sempre foi como respirar. Nunca havia pensado em ser escritora como uma atividade profissional. Embora participante de um grupo de dramaturgia, coordenado por Alcione Araújo, e já advogada, ofício que me exigia a escrita como ferramenta, me perceber escritora veio após a publicação do meu primeiro livro de crônicas, em 2012. Quando experimentei a chegada do texto a muitos olhares, quando recebi de leitores mensagens de identidade ou críticas a minha produção literária, ali entendi que queria ser escritora. Foi a partir da percepção de que escrever pressupõe o encontro com as leitoras e os leitores, que transformam o texto em matéria viva.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Tento transformar a experiência cotidiana em um processo de criação permanente. Não consigo ir ao mercado, caminhar no calçadão, ou até mesmo atender um telefonema de telemarketing, sem imaginar as histórias que existem na vida das pessoas que atravessam o meu caminho. Tenho sempre uma caderneta, na bolsa. Quando a história não chega pela voz dos outros, eu invento as personagens que, imagino, existem naquelas histórias. Gosto de ouvir conversas entrecortadas nas caminhadas, no metrô, nos elevadores, e escrever a partir das frases soltas. Tenho mania de colecionar esses recortes, e sempre que possível, inserir em algum texto.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Não começo o dia sem a leitura de, ao menos, dois jornais. Sou obcecada por informação e, para minha sorte, encontro colunistas afinadíssimos, capitaneados por Dorrit Harazim, Joaquim Ferreira dos Santos, Eliane Brum, Eugenio Bucci, Flavia Oliveira, Miriam Leitão, entre tantos outros, que além de informar, escrevem lindamente. Ao lado da leitura informativa, essencial nesses tempos de mentiras, tenho sempre Clarice Lispector na cabeceira. Não consigo ler um livro de cada vez, e tenho hábito de voltar a leituras que fiz no passado. Clarice nunca ficou no passado e é sempre simultânea dos demais livros. Ler Clarice, nem que seja uma frase por dia, é um jeito de não esquecer por que eu quero ser escritora.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Galileu Galilei, do Brecht. No início, havia pensado em alguma obra de um autor brasileiro, mas penso que o presidente conhece o Brasil profundamente. Galileu é um texto muito atual. Discute o monopólio da verdade, a compreensão de que, muitas vezes, pactuar não é retrocesso, mas garantia de sobrevivência. E o texto é muito bem construído, revelador das nossas contradições, vaidades e escolhas.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Preciso de uma tela aberta e de silêncio. Escrever, para mim, exige concentração. Quando sento para escrever, muitas vezes, as palavras já estão gestadas, mas não tenho fantasias ou idealizações sobre circunstâncias ideais. Escrever é um exercício difícil e, como todo exercício, quanto mais eu escrevo, melhor para escrever.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Leio em qualquer lugar, embora o ideal seja durante um longo período de ócio, nas férias, que no meu caso, é cada vez mais raro. Se eu precisasse descrever um lugar perfeito para ler um livro, seria numa rede, com o barulho do mar ao fundo.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Os dias em que consigo ter tempo para trabalhar um texto sem pressa. Depois do primeiro copião, conseguir voltar à produção e encontrar a forma ou as palavras que cabem exatamente no que eu quis escrever.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
É exatamente esse retorno ao texto. Chamo do tempo do bordado. Depois que a ideia está posta, voltar às palavras, enxugar o que sobra, substituir por outras rendas e cores. O mais difícil, para concluir um livro e enviar para a publicação, é abrir mão desse momento extremamente prazeroso.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Cada escritor deve ter seu próprio demônio. No meu caso, a procrastinação é o maior inimigo. Alimento as ideias por longos anos, até ter coragem de transformá-las em textos para publicar. Um outro inimigo que, certamente, tenho abandonado à medida que os anos passam, é minha excessiva autocrítica. É um sentimento que paralisa, e muitas vezes impede que um texto circule livremente.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A dificuldade de ampliar o espaço comercial para muitos autores jovens, excepcionais, que não conseguem decolar na profissão pelas limitações do mercado.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Socorro Acioli.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Não gosto da ideia de livro descartável. Assim como os relacionamentos tóxicos, também eles nos transformam no que somos. Um livro imprescindível: Cem anos de solidão, do García Márquez.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A tentativa do autor de tutelar a liberdade do leitor. Um livro que dita regras, estabelece comportamentos, elimina as contradições.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Não consigo imaginar um assunto que jamais entraria na minha literatura. Nem consigo imaginar qualquer literatura sem um exercício de liberdade total.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Na fila de um banheiro de um bar.

• Quando a inspiração não vem…
Eu escrevo sem parar, até que ela volte.

A vida não é justa
Andréa Pachá
Intrínseca
224 págs.
Rascunho

O Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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