A disciplina da imaginação

Dalila Teles Veras: “Ler um poema é também um ato político”
Dalila Teles Veras, autora de “Ínsulas”
01/04/2026

Nascida na Ilha da Madeira (Portugal) e radicada no Brasil desde a infância, Dalila Teles Veras transita entre gêneros como o diário, a crônica e o ensaio memorialístico, mantendo na poesia seu eixo central — prática que, como afirma neste Inquérito, integra seu cotidiano e também seu modo de compreender o mundo. À frente da Alpharrabio, editora e espaço cultural que dirige há décadas em Santo André (SP), seus livros mais recentes são Ínsulas, Opções para morrer no espaço e Fuga e urgências.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Logo após a publicação do meu primeiro livro, Lições de tempo, em 1982. Ali estava o convite para um ofício. E assim foi.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
A leitura é minha principal obsessão literária. Com o avançar da idade veio uma espécie de voracidade a concorrer com o tempo e a certeza de que, por mais longa que seja minha vida, não dará para ler, não direi todos os livros que já comprei e virei a comprar, mas sequer aqueles que estão marcados “a ler”.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Poesia. Não consigo me deitar sem antes ler um poema. Leio por puro deleite e por ofício — afinal, é lendo os grandes que me sinto menor, e isso impulsiona a tornar-me melhor. Lendo os menores, vem a ilusão de poder superá-los.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
O presidente Lula leu muito quando esteve recluso. Pelo que sei, biografias e história e ciência política. Hoje, eu recomendaria a ele um livro de poesia que, acredito, aceitaria. Poderia, inclusive, ser um dos meus, afinal, ele é migrante e eu emigrante, o que vem a ser quase a mesma coisa, ambos somos autodidatas e recebemos títulos de doutor(a) honoris causa de universidades federais. Também porque ler um poema é um ato político.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Sou notívaga, e gosto de ler e escrever à noite. Escrevo todos os dias num diário. Prosa quando necessário. Poesia quando acontece. Preciso de ideias que podem surgir de várias formas, principalmente aquelas anotadas nas cadernetas. Sempre tenho uma na bolsa.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Quando jovem, lia em qualquer lugar, conseguia me abstrair do ambiente, mesmo que barulhento, inclusive em ônibus sacolejantes. Hoje, preciso do silêncio, um luxo nestes dias de bombardeios e outras invenções ensurdecedoras.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Considero todos os meus dias produtivos, pois quando não produzo nada de concreto, me dedico a pensar, trabalho imprescindível.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
O próprio processo. Levo, no mínimo, um ano a percorrer o processo da escrita de um livro. Muito mais que o resultado, interesso-me pelos caminhos.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Acreditar que já escreveu o seu melhor.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
A arrogância intelectual.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Na prosa, Maria Valéria Rezende, romancista premiada, aqui e além, mas que possui todas as qualidades para ir além do que já foi, ser mais lida do que já é.

• Um livro imprescindível e um descartável.
O descartável (e foram muitos), por ter sido descartável, não deixou lembrança. O imprescindível, depende muito do momento, mas sempre volto a Orides Fontela, Sophia de Mello Breyner Andresen, Virginia Woolf e Hilda Hilst.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Na poesia, minha principal expressão literária e o gênero que mais leio, a pretensão altissonante.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Todo assunto entra na literatura, na minha também. Basta que se encontre a dicção e a forma do dizer.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Um lugar inóspito na Ilha da Madeira, onde nasci, chamado Curral das Freiras, que está localizado no que seria a cratera do vulcão que, há milênios, deu origem à ilha. Na maioria das vezes a inspiração é apenas uma palavra faísca.

• Quando a inspiração não vem…
Leio, cuido das plantas e fico atenta aos sinais.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Como sou de pouco riso, convidaria alguém que tivesse a capacidade, de forma inteligente, de me fazer rir. Talvez a Hilda Hilst, que é de um finíssimo humor e com quem cheguei a tomar um café, por ocasião de uma entrevista que lhe fiz, e ficou a vontade, não realizada, de tomar mais um.

• O que é um bom leitor?
Todo aquele que se permite sair modificado da leitura.

• O que te dá medo?
A humanidade em claro processo de autodestruição.

• O que te faz feliz?
Mamão papaia com mel, café expresso duplo e um pão na chapa com manteiga, degustados lentamente, logo após acordar e ainda de pijama.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Tenho por hábito duvidar e isso é traduzido no número de cortes que o primeiro rascunho sofre. Certeza de que fiz o meu melhor.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
No momento de escrever, nenhuma. Mas antes, a escolha do que dizer, depois, a forma de o dizer.

• A literatura tem alguma obrigação?
Sim, não trair a língua em que é expressa e dela (a língua)
construir outra forma de dizer.

• Qual o limite da ficção?
Não escrevo ficção, mas como leitora, gosto de perceber a verossimilhança sem limites daquilo que é humano.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Jamais gostei de ser liderada, assim, preferiria perguntar se ele toparia uma conversa entre nós.

• O que você espera da eternidade?
Com o mundo às vésperas da Terceira (e, provavelmente, a última) Guerra Mundial, cada vez mais desacredito nela. Como somos compostos pelo mesmo material das estrelas e o recebemos de mais de um bilhão delas, quando a luz de cada um de nós, por fim, explodir, formaremos outras dalilas, outras marias e joãos, cósmicas, intergalácticas.

Ínsulas
Dalila Teles Veras
Círculo de Poemas
40 págs.
Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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