Um dia qualquer

Conto inédito de Adriano Espíndola Santos
Ilustração: Italo Amatti
01/02/2026

Silvana me colocou numa situação muito difícil, sabendo ela que tenho autismo e não me dou com essas coisas de relacionamento social. E o pior é que essa minha irmã é muito dependente de mim. Ela me fez passar o Natal na casa do seu namorado. Um namoro de poucos meses. E me levou sem sobreaviso. “Vamos, maninho, eles vão gostar muito de você!” E mais algumas demandas, que não valem a pena colocar no papel. Eu estava disposto a passar o Natal em canto nenhum. Depois que perdi meus pais, não tem mais graça. Quando minha mãe era a anfitriã, a matriarca de toda uma família de retirantes, que tinha se estabelecido na capital, era, para mim, a melhor parte do ano, quando todos se reuniam em profunda comunhão; tios bêbados contumazes se regeneravam, assim como as tias fofoqueiras — pelo que eu saiba. E a casa de mainha era uma bênção, parecia uma galinha que colocava todos debaixo de suas asas; nunca vi lugar igual a esse. Voltando ao Natal deste ano, o que tenho a dizer é que saímos no aperreio, em ares de perder o canto do Glória. Silvana passou muito tempo para se arrumar, e ainda se achava feia. Andava e chorava, chorava e andava. “Assim tu vai perder a tua maquiagem, menina”, disse eu. Quando chegamos ao destino, me surpreendi com o tamanho da casa; era pequena, mal podia nos suportar. Na porta estava Tobias, o namoradinho de Silvana. Puxou-a logo para dançar uma música eletrônica, um negócio horroroso. Aí, pelo visto, ele não teria dado fé de mim. Fiquei pelos cantos, querendo me tornar invisível, para não participar daquela depravação. Uma prima de Tobias veio puxar conversa. Disse ela que era tempo ótimo para dançar, festejar, e me chamou para acompanhá-la ao pátio de danças, na frente da casa. Não tinham, pelo visto, qualquer respeito aos sacramentos divinos, às questões essenciais da igreja. Já que o namorico também precisava da minha aprovação, estava a um triz de não o aprovar, quando Tobias veio e me deu um abraço arrochado, como se fosse eu um de sua família. “Eu não sabia que você era o tão conhecido Silas, irmão da Silvana, me dê um abraço aqui! Olhe, aqui vocês estão em casa. A festa é até o amanhecer. Vai desculpando alguma coisa, mas somos de uma família muito festiva!” Com vinte minutos, uma múmia saiu de seu sarcófago e veio pedir para baixar o som — era a mãe de Tobias —, que iríamos rezar. Ela não tinha voz. Todo mundo tentava se concentrar para ouvi-la, mas era em vão. Silvana pulou e disse que eu era da igreja e que sabia de todos os dizeres natalinos. Pois fui eu que puxei a fala ao menino Jesus, expliquei-lhes sobre o nascimento e a importância do dia. Fui interrompido por Tobias, que pulou para dizer que a reza estava feita e que podíamos agora curtir a festa, em nome do “menino jesus”. Dava para ver a cara de vergonha da Silvana, mas entrou logo, logo, no ritmo. Fui abafado nas orações para o rito de Natal, com grande tristeza. Esperei mais um tempo e saí à francesa. Se depender de mim, Silvana não namora mais.

Adriano Espíndola Santos

Nasceu em Fortaleza (CE). Romancista e contista, é autor, entre outros, de Flor no caos (2018), O ano em que tudo começou (2021), Em mim, a clausura e o motim (2022) e Amparo secreto (2024). É mestre em direito e especialista em revisão de textos e em escrita literária. Vive na capital cearense.

Rascunho