Sentiu que se ele, então, tivesse podido escolher ou sonhar sua morte, esta é a morte que teria escolhido ou sonhado.
Jorge Luis Borges, O sul
No quarto não havia mais que a cama e uma cadeira, ambas já quase boiando, quando rente à janela passou rolando o boi morto; e tudo finalmente fez sentido porque tudo era exatamente como no poema: as águas muito turvas, os destroços por toda a parte, o boi enorme, descomedido — e eu, no meio de tudo aquilo, já a meio submergido, dividido, subdividido.
*
“O que você está lendo?”, eu te perguntei, e você, querendo se livrar o mais rapidamente possível de um estranho pronto a estorvar a tua viagem, respondeu, desafiadora, “Opus 10 — por acaso já leu?”.
E para a tua surpresa, o que eu faço em seguida não é me intimidar nem te deixar em paz com teu livro de poesia e tua viagem solitária de ônibus, mas te dizer, com uma espontaneidade para a qual você não tinha nenhuma defesa (como teria me confessado mais tarde, se houvesse mais tarde), “tem exatamente a minha idade: vinte anos — viemos os dois ao mundo na primavera de 1952”.
E antes que você diga qualquer coisa — o que, dá para perceber, está a ponto de fazer, não só porque, assim como eu, também nasceu em 1952, mas porque sempre celebrou o fato de ter nascido no ano de publicação do livro preferido do teu poeta preferido —, eu acrescento: “Que o corpo, esse vai com o boi morto”.
E quando você olha de novo pra mim, com um olhar já inteiramente transformado e que de desafiador não tem mais nada, e está prestes a dizer alguma coisa que eu intuo será sobre o livro ou o poema ou o autor do livro e do poema, eu sei, assim como eu sei que você sabe, que aquele primeiro diálogo, naquele ônibus que se arrasta, trôpego, a caminho do Araguaia, é o começo de alguma coisa muito importante — que coisa, exatamente, nem eu nem você sabemos direito, sabemos apenas que, seja lá o que for, ecoará para sempre aquele diálogo e aquele verso: Que o corpo, esse vai com o boi morto.
E o que de fato viria depois disso seriam coisas incríveis, porque tudo conduz a isso, porque temos os dois vinte anos, porque somos jovens e ávidos e descomedidamente líricos e (você, bem mais do que eu) idealistas, mas também porque é 1972 e estamos no Brasil e tem tanta coisa acontecendo no Brasil em 1972, para você, então, nem se fala, no Rio, de onde você vem, e para onde vai voltar, está tomando corpo o que em alguns anos vão chamar de poesia marginal e você, como irá me contar quando o ônibus estiver passando por Planalmira, está metida de cabeça nessa história, acabou inclusive de publicar um livrinho mimeografado, e quando voltar do Araguaia é isso o que vai fazer, você me diz, concluir o curso de letras, entrar para o mestrado, começar o quanto antes a dar aula — e depois disso escrever, escrever, escrever.
E tudo isso você vai me contando pelo caminho, à medida que o ônibus sacoleja e avança e vão passando cidades e povoados cujos nomes você vai anotando num caderninho — Cocalzinho, Mombaço, Santa Felicidade, Cachoeira, Assunção, Barro Alto, Cancela, Buiuiu, Novo Destino, Uruaçu, Nova Esperança, Estrela do Norte, Porangatu, Linda Vista, Talismã, Alvorada, Novo Acordo, Gurupi, Aliança, Crixás, Santa Rita, Nova Rosalândia, Paraíso, Cercadinho, Miranorte, Morro Perdido, Rio dos Bois. “Vou escrever um livro só com os nomes dessas cidades”, você diz, sorrindo. “Um conto para cada nome de cidade, imagina só: — Quando se mudou para Rio dos Bois, assim que se aposentou, o homem, de quem ninguém ali nunca soube nada, e que uma vez apenas tinha passado por lá, já fazia quase cinquenta anos, tinha uma única coisa em mente… — Bom começo, não acha?”
E eu não acho nada, porque a única coisa que eu consigo fazer é sentir a tua presença e isso, a rigor, não se qualifica como fazer coisa alguma, antes o contrário. Me deixar levar — é isso o que eu sinto vontade de fazer, do jeito que alguém se deixa levar pelas águas do rio, que é de fato como eu me sinto agora, sendo levado por um rio, teu rio, você.
E quando chegamos em Guaraí e você me diz, abruptamente, É aqui que eu fico — sem me dizer, é claro, que teu destino na verdade é outro e não fica em Guaraí mas em Conceição do Araguaia, porque é lá que te esperam teus companheiros e também, antes deles, teus algozes, embora eu só vá saber disso muito tempo depois, quando finalmente, vendo uma foto 3×4 tua, eu também descubro o teu nome verdadeiro e o que você estava fazendo naquele ônibus a caminho do Araguaia, e que do teu corpo ninguém soube nem jamais saberá o que foi feito —, o que eu sinto é vontade de vomitar, só isso, por que eu ainda não sei.
E te digo adeus sem dizer mais nada, porque eu não sei o que dizer, nem o que sentir, nem o que fazer. Adeus. Adeus.
E quando eu chegar em Altamira, sem ter visto a estrada, a floresta, a chuva, o lamaceiro, as pontes, os rios e os bois e as cidades e os nomes das cidades, tudo passando por mim como se fosse eu que estivesse parado, para sempre parado e perdido, as coisas, elas sim, passando à minha frente, a estrada, a floresta, a chuva, o lamaceiro, as pontes, os rios, os bois, as cidades e os nomes das cidades — Itupiranga, Cajazeiras, Divinópolis, Novo Repartimento, Maracajú, Eldorado, Pacajá, Bom Jardim, Anapu, Itamaracá, Vitória, São Vicente, Leonardo da Vinci — eu terei certeza (como eu certamente teria te confessado mais tarde, se houvesse mais tarde) que tudo a partir de agora será um longo depois, e que não há nada que eu possa fazer a respeito disso. Adeus. Adeus.
E então eu me lembro da história e penso que nem tudo está perdido. “Minha história”, eu me digo, “minha história!”: Quando se mudou para Rio dos Bois, assim que se aposentou, o homem, de quem ninguém ali nunca soube nada, e que uma vez apenas tinha passado por lá, 50 anos atrás, tinha uma única coisa em mente…
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No quarto não há mais que a cama e uma cadeira, ambas já quase encostando no teto, e tudo finalmente faz sentido porque tudo é exatamente como está escrito: as águas muito turvas, os destroços por toda a parte, o boi enorme, descomedido — e eu, no meio de tudo aquilo, já inteiramente submergido, nem dividido, nem subdividido: que da alma ninguém sabe o que será feito, mas o corpo — esse vai com o boi morto!