Poemas de Thaís Campolina

Leia os poemas "ciclo circadiano", "o ovo da serpente", "memória celular de um peixe abissal", "Caronte capturando Lygia"
Ilustrações: Eduardo Mussi
01/01/2026

ciclo circadiano

eu devia correr pelo menos uma hora inteira hoje
mesmo sem qualquer preparo para isso
simplesmente correr agora
como um guepardo com fome
querendo se hidratar em sangue

neste instante
meio-dia e quarenta,
36º C, 18% de umidade
calçar um tênis meia boca e ir
correr a avenida cristiano machado inteira
acertando intuitivamente quando os sinais estarão
fechados para os carros
correr mesmo
sem parar
ignorando os limites de velocidade
percebendo os óculos cavalgando o nariz
os olhos ofuscados pelo fim de todas as bordas
os pés as coxas e as rodas perdendo a definição
belo horizonte ficando para trás em tanto ácido lático
a linha de chegada dos joelhos se aproximando

simplesmente correr
porque em algum lugar
entre meu estômago
e minha bexiga
mora um motor
são 890 cavalos Campolina
coiceando uns aos outros
diante de uma porteira
que nem um rato
conseguiria passar

o ovo da serpente

ouvi dizer que o berro da cigarra é um aviso
debaixo da terra alguém está irritado
mas o solo não pode nos mastigar
não aqui não agora não tão longe
do encontro das placas tectônicas

o que ele faz então é esperar
as ninfas eclodirem em cigarras
para ecoar seu próprio grito
enquanto estuda uma forma
de romper a casca

memória celular de um peixe abissal

à toa e preocupada
exploro minha casa
como se fossem vivos
os móveis e as paredes

um demônio me provoca
e eu respondo oi
entregando que estou
perto da janela da cozinha
cinco segundos depois
curiosa e ávida por um pão
olho direto para o inferno
esperando a vertigem
desse sumidouro

a oxigenação do cérebro
continua a mesma
a pulsação também
meus cotovelos dobrados
esbarram na toalha de mesa
me fazendo sentir na pele
o carinho de um mundo
de farelos esquecidos

nessa voragem
não há tontura
nem taquicardia
eu sei que estou onde deveria estar

usando bons binóculos
frente ao espelho do banheiro
consigo olhar de volta
e me ver a qualquer tempo
caçando no escuro
mais alimento

o abismo sou eu
e ai de mim
se não continuar
a nadar

Caronte capturando Lygia

acordei com a língua estampada por uma longa noite
com os dentes marcando o estofado grosso pelas beiradas

dormir é mastigar a madeira da barca

e voltar

Thaís Campolina

Nasceu em Divinópolis (MG). É autora de eu investigo qualquer coisa sem registro (Crivo, 2021) e do recém-lançado estado febril (Macabéa). Também publicou as plaquetes poéticas noticiosas, línguas soltas e frigideira. Os poemas aqui publicados pertencem ao livro enxame, a ser lançado em 2026.

Rascunho