Poemas de Raquel Naveira

Leia os poemas "Ipês brancos", "Ipês róseos", "Ipês roxos" e "Ipês amarelos"
Raquel Naveira, autora de “Leque aberto”
01/03/2022

Ipês brancos

Casei-me com um ipê branco,
Suas raízes fincaram-se em meu sexo,
Suas ramagens
Se espalharam pelos meus seios,
Formaram guirlandas
No meu pescoço
E um véu sobre meus ombros.

Penetrei passiva
Num mar de leite
E lavandas.

A noite era de lua,
De bruma
E de glacê.

…

Ipês róseos

Quisera ser um pássaro
Nesta primavera
E voar entre as flores
De um rosa lilás.

Seriam minhas primeiras emoções
De sensualidade e voo
E os galhos gemeriam:
— Amarás!

…

Ipês roxos

O tronco negro
Parece ter sido forjado
Por uma tempestade,
Um estrondo,
Prenúncio de uma revelação,
Cólera e castigo
Sobre o arroxeado fundo.

A escrita
De um alfabeto arcaico
Desenhou esse “s”
Simulando algo concreto
Como uma serpente
Ou um gesto.
Poderia ser o “s”
De “Sabedoria”
Oculto no intelecto vegetal.

…

Ipês amarelos

No campo aberto,
Palitos gigantes,
Imponentes,
Fazem do ipê
Uma escultura esguia.

Há aspirações sem limite
Nessa busca de espaço,
Nesse dinamismo jovem,
Nessas colunas levantadas
A partir da base
Em forma de bacia.

Pelos galhos derramam-se
Ovos quebrados
Como se fossem jarros
Contendo gemas úmidas
E claras de espermas.

As cascas,
Macias e quentes,
São ninhos
Em que se multiplicam
Seres amarelos.

Raquel Naveira

Nasceu em Campo Grande (MS), conhecida como a “cidade dos ipês”, em 1957. Residiu no Rio de Janeiro (RJ) e em São Paulo (SP) onde lecionou na Universidade Santa Úrsula (RJ) e na Faculdade Anchieta (SP). Publicou mais de trinta livros de poesia, ensaios, crônicas, romance e infantojuvenis. O mais recente, de crônicas poéticas, Leque aberto. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo, à Academia de Ciências e Letras de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil.

Rascunho