Poemas de Máirtin Ó Direáin

Leia os poemas traduzidos "Minha arte", "Encontrarei consolo", "O sorriso irônico", "O segredo das mulheres" e "A essência não está nos vivos"
Ilustrações: Marcelo Frazão
01/01/2026

My Craft

It’s all patience—my craft.
I’m like a fisherman
Waiting for a trout.
Easier to catch
A fish by the fin
Than a poem
When the tide is ebbing.
I’m like someone
Who has missed his chance,
And come away with nothing.
Where did they go—hook,
Line and sinker, my bait and rod?
Where did I lose my catch?
Between two shores
Are the fish I want,
Between two traditions
My chance slipped past.

Minha arte

É essencialmente paciência — a minha arte.
Sou como um pescador
À espera de uma truta.

É mais fácil agarrar
Um peixe pela barbatana
Do que um poema
Na maré vazante.

Sou como alguém
Que perdeu a chance,
E saiu de mãos vazias.

Para onde será que foram — anzol,
Linha e chumbo, isca e minha vara?
Onde foi que perdi minha presa?

Entre duas margens
Estão os peixes que quero,
E entre duas tradições
Perdi minha chance

 

I will find solace

I will find solace
For a short time only
Among my people
In a sea-girt island,
Walking the shore
Morning and evening
Monday to Saturday
In my western-homeland.

I will find solace
For a short time only
Among my people,
For what vexes the heart,
From a troubled mind,
From soured solitude,
From wounding talk,
In my western homeland.

Encontrarei consolo

Encontrarei consolo
Por bem pouco tempo
Junto ao meu povo
Numa ilha rodeada de mar,
Caminhando pela praia
De manhã e de noite
De segunda a sábado
Em minha terra natal.

Encontrarei consolo
Por bem pouco tempo
Junto ao meu povo,
Para o que aflige o coração,
De uma mente perturbada,
Da solidão amarga,
De conversas que ferem,
Em minha terra natal.

The smirk

That yellow, dried-up skull in the shrine
In the church beside the Boyne
Didn’t wipe that smirk from your mouth,
But I wanted to ask
What brought you there
Since I judged a skull no cause for laughter,
And I thought to myself you’d been born too late
For if you’d lived when Herod was king,
You would have brought the Saint’s head in
With a smile on your lips.

O sorriso irônico

Aquele crânio amarelo e ressecado no sacrário
Da igreja às margens do rio Boyne
Não apagou o sorriso irônico da sua boca,
Mas eu queria te perguntar
O que o levou até lá
Pois julguei que um crânio não é motivo para riso,
E pensei aqui comigo que você nasceu muito tarde
Se tivesse vivido quando Herodes era rei,
Teria trazido consigo a cabeça do Santo
Com um sorriso em seus lábios.

The women’s secret

Nearly every Sunday evening
There they were by the fire,
The women with their shawls
Wrapped about their heads.
There was always tea
On such occasions,
And they passed a sup around
From one to another.

The talk started,
The nudge and the whisper,
Elbow on knee emphasizing the words;
I used to be ordered out on the roads,
Not to be inside wolfing each word,
I’d be healthier out in the air
Like the rest of the lads.

I left in the end,
Blushing and hurt
But I wish I had stayed:
When I think of it now
Who knows what secret lore
Unknown to any man alive
I’d have snatched from the women
Ranged round a fire,
Drinking tea
With their shawls on their heads?

O segredo das mulheres

Quase todos os domingos à tarde,
Lá estavam elas junto à lareira,
As mulheres com seus xales
Enrolados na cabeça.
Sempre havia chá
Naquelas noites,
E elas iam passando as xícaras
Uma para as outras

A conversa começava,
Cutucadas e sussurros,
Cotovelos nos joelhos enfatizando palavras;
Eu costumava ser mandado para a rua,
Para não ficar lá dentro deglutindo cada palavra,
Seria mais saudável lá fora, ao ar livre,
Com o resto dos garotos.

E eu acabava saindo,
Envergonhado e magoado,
Mas gostaria de ter ficado:
Quando agora penso nisso,
Quem sabe que segredos
Desconhecidos por qualquer homem
Eu teria arrancado das mulheres
Em volta da lareira,
Tomando chá
Com seus xales na cabeça?

The essence is not in the living

When fire and drink were a shelter
From the blast of the cold night
You were a compact bundle of sensuousness–
The warmth of the fire before you,
The cheering wine at your side;
But you were still intent on your interests
In spite of fire, drink and warmth,
But you were not the essence of an island
Nor any of the group who were with you.

The old lord on the wall
With his formal paunch,
And his good lady facing him
With her formal bust,
Have been captured in two portraits
Unliving and unchanged
For three hundred years and more—
Those two are the essence of an island,
As are stone rock and strand
In the cold midnight.

Unliving things slip
Away from life and leave it:
Was it thus
The island left my poem,
Or did you notice?

A essência não está nos vivos

Quando o fogo e a bebida eram abrigo
Para o sopro da noite fria
Você era um pequeno feixe de sensualidade —
O calor do fogo à sua frente,
O vinho reconfortante ao seu lado;
Mas você ficava pensando nas suas coisas
Apesar do fogo, do vinho e do aconchego,
Você não era a essência de uma ilha
Nem o eram aquelas pessoas com você.

O velho senhor na parede
Com uma respeitável pança,
E sua senhora a encará-lo
Com um respeitável busto,
Foram capturados em dois retratos
Inanimados e sem se alterar
Por mais de trezentos anos —
Esses dois sim é que são a essência de uma ilha,
Assim como o são a rocha e a praia
Numa fria meia-noite.

Coisas inanimadas escapam
Da vida e a deixam para trás:
Será que foi assim,
E a ilha deixou meu poema,
Ou você percebeu?

Máirtin Ó Direáin
Nasceu na pequena Inishmore, nas ilhas irlandesas de Aran, em 1910. Cresceu numa comunidade falante de gaélico, de modo que o inglês, aprendido na escola, foi sua segunda língua. Aos 28 anos, quando se mudou para Dublin, Ó Direáin começou a escrever poemas, e logo chamou a atenção de leitores e de outros poetas. Ele é considerado um dos pais fundadores da moderna poesia irlandesa. Faleceu em 1988. Os poemas desta seleção, originalmente escritos em gaélico, foram traduzidos do inglês.
André Caramuru Aubert

Nasceu em 1961, São Paulo (SP). É historiador formado pela USP, editor, tradutor e escritor. Autor de Outubro/DezembroA vida nas montanhasCemitérios, Exílio, entre outros.

Rascunho