Poemas de Hart Crane

Leia os poemas traduzidos "Esquecimento", "Exílio", "Canteiro de samambaias", "Para a Terra" e "As cartas de amor de minha avó"
Ilustrações: Marcelo Frazão
01/03/2026

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Forgetfulness

Forgetfulness is like a song
That, freed from beat and measure, wanders.
Forgetfulness is like a bird whose wings are reconciled,
Outspread and motionless, —
A bird that coasts the wind unwearyingly.

Forgetfulness is rain at night,
Or an old house in a forest, — or a child.
Forgetfulness is white, — white as a blasted tree,
And it may stun the sybil into prophecy,
Or bury the Gods.

I can remember much forgetfulness.

Esquecimento

O esquecimento é como uma canção
Que, livre de ritmo e compasso, vagueia.

O esquecimento é como um pássaro cujas asas estão em paz,
Abertas e imóveis, —
Um pássaro que plana ao sabor do vento.

O esquecimento é a chuva à noite,
Ou uma velha casa na floresta, — ou uma criança.

O esquecimento é branco, — branco como uma árvore destroçada,
E pode atordoar a sibila a ponto de profetizar,
Ou sepultar os deuses.

Eu me lembro de muitos esquecimentos.

Exile
(after the Chinese)

My hands have not touched pleasure since your hands, —
No, — nor my lips freed laughter since ‘farewell’,
And with the day, distance again expands
Voiceless between us, as an uncoiled shell.

Yet, love endures, though starving and alone.
A dove’s wings clung about my heart each night
With surging gentleness, and the blue stone
Set in the tryst-ring has but worn more bright.

Exílio
(depois dos chineses)

Minhas mãos não tocaram o prazer desde as suas mãos, —
Não, — nem meus lábios libertaram o riso desde o “adeus”,
E com o dia, a distância novamente se expande
Silenciosa entre nós, como uma concha aberta.

Contudo, o amor perdura, embora faminto e solitário.
As asas de uma pomba abraçam meu coração todas as noites
Com uma ternura arrebatadora, e mesmo desgastada, a pedra azul
No anel de noivado brilha ainda mais que antes.

The fernery

The lights that travel on her spectacles
Seldom, now, meet a mirror in her eyes.
But turning, as you may chance to lift a shad
Beside her and her fernery, is to follow
The zigzags fast around dry lips composed
To darkness through a wreath of sudden pain.

— So, while fresh sunlight splinters humid green
I have known myself a nephew to confusions
That sometimes take up residence and reign
In crowns less grey — Oh merciless tidy hair!

Canteiro de samambaias

As luzes que viajam pelos óculos que ela usa
Raramente, agora, se deparam com um reflexo nos olhos dela.
Mas ao virar-se, como se por acaso uma sombra surgisse
Ao lado dela e de seu jardim de samambaias, é ir atrás
Dos ziguezagues ligeiros ao redor dos lábios secos
Feitos para a escuridão através de uma grinalda de dor.

— E, então, enquanto a luz fresca do sol estilhaça o verde úmido
Eu me reconheço como o sobrinho das confusões
Que às vezes se instalam e reinam em coroas
Menos grisalhas — ó cabelos impiedosamente arrumados!

To Earth

Be earnest, Earth, — and kind.
This flower that opened in the storm
Has fallen with the after-hush.
Be earnest, Earth, — and kind.

Para a Terra

Seja sincera, Terra, — e gentil.
Esta flor que se abriu na tempestade
Caiu com o silêncio que se seguiu.
Seja sincera, Terra, — e gentil.

My grandmother’s love letters

There are no stars tonight
But those of memory.
Yet how much room for memory there is
In the loose girdle of soft rain.

There is even room enough
For the letters of my mother’s mother,
Elizabeth,
That have been pressed so long
Into a comer of the roof
That they are brown and soft,
And liable to melt as snow.

Over the greatness of such space
Steps must be gentle.
It is all hung by an invisible white hair.
It trembles as birch limbs webbing the air.

And I ask myself:

“Are your fingers long enough to play
Old keys that are but echoes:
Is the silence strong enough
To carry back the music to its source
And back to you again
As though to her?”

Yet I would lead my grandmother by the hand
Through much of what she would not understand;
And so I stumble. And the rain continues on the roof
With such a sound of gently pitying laughter.

As cartas de amor de minha avó

Não há estrelas esta noite
A não ser as da memória.
Ainda assim a memória ocupa espaço
Na leve camada de chuva suave.

Há espaço suficiente até mesmo
Para as cartas da mãe da minha mãe,
Elizabeth,
Que ficaram prensadas por tanto tempo
Num canto do telhado
Que estão desbotadas e moles,
A ponto de derreter como neve.

Os passos devem ser suaves
Sobre a imensidão de tal espaço.
Pois tudo está suspenso por um invisível fio de cabelo branco.
Vibrando como galhos de bétula entrelaçando o ar.

E eu me pergunto:

“Serão meus dedos compridos o bastante, para tocar
Velhas teclas que não passam de ecos?
Será o silêncio forte o bastante
Para levar a música para o lugar de onde veio
De volta para mim
Como se fosse para ela?”

Ainda assim eu levaria minha avó pela mão
Por muito do que ela não entenderia;
E assim eu tropeço. A chuva continua no telhado
Com um som de riso piedoso e suave.

Hart Crane
Viveu apenas 32 anos [ele nasceu em 1899, em Garrettsville, Ohio (EUA), e morreu em 1933], tempo suficiente para que se tornasse um dos poetas mais amados de sua geração. Sua morte, por suicídio (ao se jogar do navio que o levava do México para os Estados Unidos), tornou-se, por si só, um evento icônico no mundo das letras. Ora tido como surrealista, ora como neorromântico, Crane era admirado por gente como William Carlos Williams, Derek Walcott, Tennessee Williams, e. e. cummings, Allen Ginsberg e até mesmo Vinicius de Moraes, que escreveu, em 1953, um poema sobre a morte de Crane chamado O poeta Hart Crane suicida-se no mar.
André Caramuru Aubert

Nasceu em 1961, São Paulo (SP). É historiador formado pela USP, editor, tradutor e escritor. Autor de Outubro/DezembroA vida nas montanhasCemitérios, Exílio, entre outros.

Rascunho