Poemas de Philip Levine

Leia os poemas traduzidos "O último turno", "Erva-leiteira", "Voltando pra casa, Detroit, 1968", "Luz das estrelas", "Solando", "14 de fevereiro"
Philip Levine, poeta norte-americano

Tradução: André Caramuru Aubert

The last shift

I had been on my way to work as usual
when the traffic stalled a quarter mile
from the railroad crossing on Grand Blvd.
Then I saw the moon rise above
the packing sheds of the old Packard plant.
The moon at 7:30 in the morning.
And the radio went on playing
the same violins and voices I didn’t
listen to each morning. Back in the alley
the guys in greasy, dark wool jackets
were keeping warm by a little fire
made from fence posts and garage doors
and tossing their empty wine bottles
into the street where they shattered
on the frosted roofs of cars and scattered
like chunks of ice. A police car dozed
across the street, its motor running.
I could see the two of them eating
sugar doughnuts as delicately as two
elderly women and drinking their coffee
from little Styrofoam cups. Soon the kids
would descend from these lightless houses,
gloved and scarved, on their way to school
with tin boxes of sandwiches and cookies.
They would slide on the ice and steal
each other’s foolish hats and laugh
while they still could, their breath
pushing out into the morning air
in little trumpets of steam. I wondered
if anyone would step from the faceless
two-storied house beside me, all of its
rooms torn into view, its connections
and tubing gone, the furniture gone,
the floor ripped up for firewood.
Up ahead I could hear that the train
had stopped, the bells went on ringing
for a minute, the blinking arms of light
went from red to nothing. Around me
the engines began to die, and then
my own went. It was strangely quiet,
another town or maybe another world.
I could feel a deep cold slowly climbing
my legs, which wouldn’t move, my eyes
began to itch and blink on a darkness
I had never seen before. I knew
these tiny glazed pictures — a car hood,
my own speedometer, the steering wheel,
the windshield fogging over — were the last
I’d ever see. These places where I have lived
all the days of my life were giving up
their hold on me and not a moment too soon.

O último turno

Estava eu a caminho do trabalho, como sempre,
quando o tráfego travou a um quarto de milha
do cruzamento da linha férrea com a Grand Boulevard.
Então vi a lua surgir por cima
dos galpões de empacotamento da antiga fábrica da Packard.
A lua às 7:30 da manhã.
E o rádio começou a tocar
os mesmos violinos e vozes que ouço sem ouvir
todas as manhãs. No beco ao lado
uns caras usando casacos de lã gordurosos e escuros
se mantinham aquecidos por uma pequena fogueira
feita com pedaços de cerca e de portas de garagem
e jogando suas garrafas vazias
na rua, onde elas estouravam nas
capotas congeladas dos carros e se espalhavam
como pedaços de gelo. Um carro de polícia, com o
motor ligado, estacionado no meio da rua.
Dava para ver os dois policiais comendo rosquinhas
doces, tão delicadamente como se fossem duas
senhoras, e bebendo seus cafés em
copinhos de isopor. Logo mais as crianças
começariam a descer dessas casas escuras,
com cachecóis e luvas, a caminho da escola,
levando nas lancheiras sanduíches e biscoitos.
Iriam escorregar no gelo e roubar os gorros
ridículos umas das outras e gargalhar
enquanto pudessem, suas respirações
expelindo o ar da manhã em pequenas
trombetas de vapor. Fiquei imaginando
se alguém surgiria do sobrado sem rosto
aqui ao lado, as paredes destruídas, sem
fiações e encanamentos, sem os móveis,
as tábuas do chão arrancadas para fazer fogo.
Lá adiante, pude ouvir, o trem
parou, as campainhas tocam por
um minuto e as luzes piscando passaram
de vermelho a nada. À minha volta
os motores começaram a apagar, até que
o meu pifou também. As coisas ficaram estranhamente
calmas, quem sabe fosse uma outra cidade ou um outro mundo.
Pude sentir um forte frio subindo lentamente
pelas minhas pernas, que não se moviam, e meus
olhos começaram a coçar e a piscar numa escuridão
como eu jamais vira. Eu sabia que
estas pequenas imagens — um capô,
meu próprio velocímetro, o volante,
o para-brisa embaçando — seriam as últimas
que eu jamais veria. Estes lugares onde vivi
todos os dias da minha vida estavam desistindo
de mim, e já não era sem tempo.



Remember how unimportant
they seemed, growing loosely
in the open fields we crossed
on the way to school. We
would carve wooden swords
and slash at the luscious trunks
until the white milk started
and then flowed. Then we’d
go on to the long day after
day of the History of History
or the tables of numbers and order
as the clock slowly paid
out the moments. The windows
went dark first with rain
and then snow, and then the days,
then the years ran together and not
one mattered more than
another, and not one mattered.

Two days ago I walked
the empty woods, bent over,
crunching through oak leaves,
asking myself questions
without answers. From somewhere
a froth of seeds drifted by touched
with gold in the last light
of a lost day, going with
the wind as they always did.


Lembra quão insignificantes
elas pareciam, crescendo espalhadas
pelas campinas que atravessávamos
a caminho da escola. Nós
fazíamos espadas de madeira
e golpeávamos os apetitosos caules
até que o leite branco brotasse
e começasse a escorrer. Então
seguíamos para os longos dias após
dias da História da História
ou das tabelas de ordens e números
enquanto o relógio lentamente
cumpria seu papel. As janelas
escureciam primeiro com a chuva,
depois com a neve, e então os dias,
e então os anos correram juntos
e nenhum contou mais que
o outro, e nenhum contou.

Dois dias atrás eu caminhei
pelos bosques vazios, me curvei,
pisoteando as folhas de carvalho,
fazendo a mim mesmo perguntas
sem ter respostas. De algum lugar,
à deriva, um punhado de sementes, tocado
pelo dourado da derradeira luz
de um dia que se foi, indo,
como sempre, com o vento.


Coming home, Detroit, 1968

A winter Tuesday, the city pouring fire,
Ford Rouge sulfurs the sun, Cadillac, Lincoln,
Chevy gray. The fat stacks
of breweries hold their tongues. Rags,
papers, hands, the stems of birches
dirtied with words.
Near the freeway
you stop and wonder what came off,
recall the snowstorm where you lost it all,
the wolverine, the northern bear, the wolf
caught out, ice and steel raining
from the foundries in a shower
of human breath. On sleds in the false sun
the new material rests. One brown child
stares and stares into your frozen eyes
until the lights change and you go
forward to work. The charred faces, the eyes
boarded up, the rubble of innards, the cry
of wet smoke hanging in your throat,
the twisted river stopped at the color of iron.
We burn this city every day.

Voltando pra casa, Detroit, 1968

Uma terça-feira de inverno, a cidade jorrando fogo,
a Ford Rouge cobrindo de enxofre o sol, Cadillac, Lincoln,
a cinzenta Chevy. Os gordos montes das
cervejarias seguram línguas. Trapos,
papéis, mãos, a fumaça da madeira das bétulas
sujas de palavras.
Perto da autoestrada
você para e pensa no que foi que deu aquilo,
relembra a tempestade de neve na qual perdeu tudo,
o carcaju, o urso do norte, o lobo
eliminados, a chuva de gelo e metal
das fundições num aguaceiro de
hálito humano. Em trenós sob o fingido sol
repousa a matéria-prima. Uma criança, marrom
encara e encara os seus olhos congelados
até que as luzes mudem e você siga em frente
para o trabalho. Os rostos chamuscados, os olhos
lá dentro, das entranhas os escombros, o grito
da fumaça úmida preso na garganta,
o rio dividido que estancou diante da cor do ferro.
Todos os dias nós queimamos esta cidade.



My father stands in the warm evening
on the porch of my first house.
I am four years old and growing tired.
I see his head among the stars,
the glow of his cigarette, redder
than the summer moon riding
low over the old neighborhood. We
are alone, and he asks me if I am happy.
“Are you happy?” I cannot answer.
I do not really understand the word,
and the voice, my father’s voice, is not
his voice, but somehow thick and choked,
a voice I have not heard before, but
heard often since. He bends and passes
a thumb beneath each of my eyes.
The cigarette is gone, but I can smell
the tiredness that hangs on his breath.
He has found nothing, and he smiles
and holds my head with both his hands.
Then he lifts me to his shoulder,
and now I too am there among the stars,
as tall as he. Are you happy? I say.
He nods in answer, Yes!, oh yes! oh yes!
And in that new voice he says nothing,
holding my head tight against his head,
his eyes closed up against the starlight,
as though those tiny blinking eyes
of light might find a tall, gaunt child
holding his child against the promises
of autumn, until the boy slept
never to waken up in that world again.

Luz das estrelas

Meu pai numa tarde quente
na varanda da minha primeira casa.
Tenho quatro anos de idade e ficando cansado.
Vejo a cabeça dele entre as estrelas,
o brilho de seu cigarro, mais vermelho
que a lua de verão, que passa por
cima da velha vizinhança. Estamos
só nós dois, ele me pergunta se estou feliz.
“Você está feliz?” Não consigo responder.
Não compreendo realmente a palavra,
e a voz, a voz de meu pai, não é a voz
dele, parece um pouco grossa e abafada,
uma voz que eu não ouvira antes, mas
que ouviria com frequência depois. Ele se inclina e
passa o polegar por cada uma de minhas pálpebras.
O cigarro se foi, mas posso sentir o cheiro
de cansaço que sai de sua respiração.
Ele nada encontrou, então sorri
e aperta minha cabeça com as mãos.
Agora me ergue até seus ombros,
e eu também estou entre as estrelas,
tão alto quanto ele. Você está feliz?, eu digo.
Ele mexe a cabeça e reponde, Sim!, ah, sim! ah sim!
E naquela nova voz ele nada mais diz,
mantendo minha cabeça bem apertada contra a dele,
seus olhos cerrados contra o céu estrelado,
como se aqueles pequeninos olhos de luzes cintilantes
pudessem encontrar a criança alta e magra
segurando sua própria criança diante das promessas
do outono, até que o garoto dormisse,
para nunca mais mais acordar naquele mundo.



My mother tells me she dreamed
of John Coltrane, a young Trane
playing his music with such joy
and contained energy and rage
she could not hold back her tears.
And sitting awake now, her hands
crossed in her lap, the tears start
in her blind eyes. The TV set
behind her is gray, expressionless.
It is late, the neighbors quiet,
even the city — Los Angeles — quiet.
I have driven for hours down 99,
over the Grapevine into heaven
to be here. I place my left hand
on her shoulder, and she smiles.
What a world, a mother and son
finding solace in California
just where we were told it would
be, among the palm trees and all-
night supermarkets pushing orange
back-lighted oranges at 2 A.M.
“He was alone,” she says, and does
not say, just as I am, “soloing.”
What a world, a great man half
her age comes to my mother
in sleep to give her the gift
of song, which — shaking the tears
away — she passes on to me, for now
I can hear the music of the world
in the silence and that word:
soloing. What a world — when I
arrived the great bowl of mountains
was hidden in a cloud of exhaust,
the sea spread out like a carpet
of oil, the roses I had brought
from Fresno browned on the seat
beside me, and I could have
turned back and lost the music.


Minha mãe me conta que sonhou
com John Coltrane, um Trane jovem,
tocando sua música com tanta alegria
e tamanha energia e fúria que
ela não pôde conter as lágrimas.
E agora, acordada e sentada, as mãos
cruzadas sobre o colo, as lágrimas voltam
aos seus olhos cegos. Atrás dela, o
aparelho de TV está cinza e sem vida.
É tarde, os vizinhos estão quietos, e
até a cidade — Los Angeles — está quieta.
Dirigi por horas pela rodovia 99, subindo
o desfiladeiro Grapevine até o céu para
estar aqui. Coloco minha mão esquerda
sobre seu ombro e ela sorri.
Que mundo, mãe e filho
encontrando paz na Califórnia,
bem onde nos disseram que haveria,
entre palmeiras e supermercados
24 horas que anunciam laranjas
com luz alaranjada às 2 da manhã.
“Ele estava sozinho”, ela diz, sem
dizer, como eu, “solando”.
Que mundo, um grande homem com
metade da idade de minha mãe vindo até ela,
durante o sono, para lhe dar de presente
uma canção, a qual — limpando as lágrimas —
ela transmite a mim, porque agora
eu posso ouvir a música do mundo
em silêncio, e aquela palavra:
solando. Que mundo — o grande maciço
de montanhas, escondido em fumaça
de poluição quando cheguei, o mar
esparramado como um carpete
de óleo, as rosas que trouxe
de Fresno brilhando no assento
de trás, e eu poderia ter
dado a volta e perdido a música.


February 14th

Awakening at dawn thirty-
six years ago, I see
the lifting of her eyelids
welcome me home. I can
recall her long arms en-
circling me, and I reach
out until the moment slides
into all the forgotten hours.
All the rest of our lives
the tree outside that window
groans in the wind. In other
rooms we’ll hear other houses
mutter and won’t care, and
go on hearing and not
caring until our names
merge with the wind. One
room, bare, uncurtained,
in a city long ago lost,
goes with us into the wide
measureless light. A tune
goes with us too. Hear
it in the little weirs
collecting winter waters,
in the drops of frozen rain
ticking from the eaves to
pool in the tiny valleys
of their making. Six weeks,
and the wide world is green.

14 de fevereiro

Despertando na aurora há trinta
e seis anos, percebi o
movimento das pálpebras dela
dar-me boas-vindas. Consigo
me lembrar de seus longos braços me en-
volvendo, e volto até
onde aquele momento se perde
em meio a todas as horas que esquecemos.
Por todo o resto de nossas vidas,
a árvore do lado de fora da janela
gemeu com o vento. Nos outros
aposentos nós ouvíamos outras casas
resmungar e não ligávamos,
seguíamos ouvindo e não
ligando até que nossos nomes
se misturassem ao vento. Um
quarto, vazio, sem cortinas,
numa cidade que há muito se foi,
segue conosco para dentro da grande
e imensurável luz. E uma música também
segue conosco. Ela é ouvida
nos pequenos açudes
que armazenam as águas do inverno,
nas gotas de chuva gelada
que pingam, nos minúsculos vales
em que foram gestadas, dos beirais
para as poças. Seis semanas,
e o imenso mundo, verde.


Let me begin again

Let me begin again as a speck
of dust caught in the night winds
sweeping out to sea. Let me begin
this time knowing the world is
salt water and dark clouds, the world
is grinding and sighing all night, and dawn
comes slowly and changes nothing. Let
me go back to land after a lifetime
of going nowhere. This time lodged
in the feathers of some scavenging gull
white above the black ship that docks
and broods upon the oily waters of
your harbor. This leaking freighter
has brought a hold full of hayforks
from Spain, great jeroboams of dark
Algerian wine and quill pens that can’t
write English. The sailors have stumbled
off toward the bars or the bright houses.
The captain closes his log and falls asleep.
1/10’28. Tonight I shall enter my life
after being at sea for ages, quietly,
in a hospital named for an automobile.
The one child of millions of children
who has flown alone by the stars
above the black wastes of moonless waters
that stretched forever, who has turned
golden in the full sun of a new day.
A tiny wise child who this time will love
his life because it is like no other.

Deixe-me recomeçar

Deixe-me recomeçar como um grão
de areia pego pelos ventos noturnos
que varrem tudo para o mar. Deixe-me recomeçar,
agora sabendo que o mundo é
água salgada e nuvens escuras, um mundo que se
encharcou e suspirou ao longo da noite, com a aurora
chegando lentamente e sem nada alterar. Deixe-me
voltar para a terra depois de toda uma vida
sem ir a lugar algum. Desta vez alojado
nas penas de alguma gaivota branca
sobre os barcos negros que se abrigam
e meditam nas águas oleosas de
sua baía. Este cargueiro todo furado
trouxe um carregamento repleto de ancinhos
da Espanha, de grandes garrafas de vinho
escuro argelino e de canetas bicos de pena que
não conseguem escrever em inglês. Marinheiros
foram tropeçando rumo aos bares ou às casas cintilantes.
O capitão fecha o diário de bordo e cai no sono.
1/10 de 28. Hoje à noite vou entrar em minha vida
depois de estar no mar por anos, serenamente,
em um hospital com nome de automóvel.
Aquela criança entre milhões de crianças
que voou sozinha sob as estrelas e acima
dos resíduos negros das águas sem lua,
eternamente ampliados, e que ficou
dourada sob o sol na plenitude de um novo dia.
Uma criancinha esperta, que desta vez vai amar
sua vida, porque como ela não há nenhuma.



After the storm of his dying,
after the phone calls and letters
stopped, after the sudden outbursts
of tears, seizures that came on me
without warning and left me ashamed,
after those passed, he entered my dreams
one June morning, young and slender
again, in the leather jacket and jeans.
Yes, of course he was dead! He waved
it away, smiling. It was nothing
to worry about, it was just life,
he said, laughing now at the joke.
Restless, he paced the room, raising
his arms in a gesture of disgust
or surrender, and shook his head
back and forth. We were in a place
I didn’t know, a second-floor
apartment somewhere in Brooklyn
or Detroit. A row of poplars
lashed with rain was keening, wind
bowed, outside the high rear windows
before which like a dancer he
slowly sank to the same bare wood floor,
head downcast. All my life I’ve been
waiting for them, those I needed,
to come back, and now I could feel
him slipping away. I could hear
the day breaking in on our lives
just as he placed one hand in mine
and looked up, his dark eyes open
wide, accepting. Yes, it had stormed.
When I rose to open the shutters
the street was black with rain, the sky
above the trees a perfect blue,
the city still. All day I searched
shopwindows, record bins, bookstores,
even a Greek bakery for a hint
of what I can’t say. Late afternoon
I gave up and crossed the great bridge
toward home, the traffic groaning
below me. Ahead the city spread
out, my neighborhood thick with trees,
below them wharves and warehouses
solid and brooding. And above
the same sky, blue, expressionless
as always, without the least sign
of the arched rainbow of his faith.


Após a tormenta da morte dele,
depois que cessaram os telefonemas e as
cartas, depois das explosões repentinas de
lágrimas, de apreensões que se abateram
sem aviso, me enchendo de envergonha,
depois que aquilo passou, ele entrou em meus sonhos,
numa madrugada de junho, jovem e delgado como
antes, de jeans e jaqueta de couro.
Sim, é óbvio, ele estava morto! E acenou,
sorrindo. Aquilo não era algo com
que se preocupar, era apenas a vida,
ele disse, rindo da piada.
Inquieto, caminhou pela sala, erguendo
os braços num gesto de desgosto ou
aceitação, e agitou a cabeça para frente
e para trás. Estávamos num lugar que
eu não conhecia, um apartamento no segundo
andar no Brooklyn ou em
Detroit. Uma fileira de álamos pranteava,
golpeada pela chuva e curvada pelo
vento, do lado de lá dos janelões de trás,
diante dos quais, como um dançarino, ele
lentamente submergiu no piso de madeira,
de cabeça baixa. Por toda a minha vida eu
esperei que eles voltassem, aqueles de
quem precisei, e agora podia senti-lo
indo embora. Eu podia ouvir
o dia irrompendo em nossas vidas,
ele punha sua mão sobre a minha
e olhava para cima, seus olhos escuros
bem abertos, conformado. Sim, houve uma tormenta.
Quando me levantei para abrir as persianas,
a rua estava negra de chuva, o céu
sobre as árvores, um perfeito azul,
a cidade, descansando. Por todo o dia
procurei em vitrines, estantes de discos, livrarias,
até mesmo em uma padaria grega, por um sinal
de algo que não sei definir. No fim da tarde
eu desisti e atravessei a grande ponte
a caminho de casa, o tráfego gemendo
debaixo de mim. Adiante, a cidade esparramada,
em meu bairro muitas árvores,
sob as quais os depósitos e os ancoradouros,
sólidos e serenos. E, acima, o mesmo
céu de sempre, azul e inexpressivo,
sem o menor sinal do abobadado
do arco-íris de sua fé.

Philip Levine (1928-2015)
Ficou conhecido como o poeta da classe operária da indústria automobilística de Detroit, definição que não faz justiça ao grande poeta lírico que ele foi. Nascido na então capital mundial do automóvel, filho e irmão de operários das grandes montadoras, atividade por um tempo exercida também por ele, seria natural que essa temática tivesse um papel central em sua poesia. Mas, como se verá na breve seleção a seguir, Philip Levine foi muito além, mesmo quando falava daquele opressivo universo da Detroit onde nasceu e cresceu. Ele recebeu, entre outros prêmios, o Pulitzer e National Book Award.
André Caramuru Aubert

Nasceu em 1961, São Paulo (SP). É historiador formado pela USP, editor, tradutor e escritor. Autor de Outubro/DezembroA vida nas montanhas e Cemitérios, entre outros.