Mulheres de Calama
Durante a ditadura chilena, que durou dezassete longos anos, foram mais de quarenta mil as vítimas de Pinochet, entre desaparecidos, executados, assassinados, raptados, presos e torturados. Houve pessoas, vivas ou depois de mortas, que foram ensacadas e presas a carris de caminhos-de-ferro e lançadas ao mar, na expectativa de esconder os corpos. Outras foram enterradas no deserto de Atacama.
Situado no Norte do Chile, este deserto tem a particularidade de ser um dos melhores lugares do mundo para a observação astronómica, graças à combinação de céus limpos, clima extremamente seco, baixa poluição luminosa e elevada altitude. Essas condições minimizam a interferência atmosférica e garantem uma visibilidade clara e constante do céu, o que atrai telescópios de instituições científicas de todo o mundo, para realizar observações precisas de estrelas e galáxias distantes.
Como uma claraboia, o céu do deserto de Atacama é uma janela especialmente translúcida para o Cosmos. Que se vê, então, através de todos aqueles telescópios dos observatórios do deserto? Vê-se o passado. É o lugar da Terra de onde se vê mais passado. É fascinante olhar para as estrelas e ficar a saber o que aconteceu milhares de milhões de anos antes. Tocar um passado absurdo com o olhar. Muitas das estrelas que vemos já não existem. Existem para nós, que as observamos, mas são, na verdade, um passado tenaz, resistente ao tempo, que se imiscui no presente como se não fosse pretérito há milhões de anos. Se alguma civilização noutro planeta pudesse observar-nos através de um poderosíssimo telescópio, ver-nos-ia daqui a milhões de anos a ser o que somos agora. A distância é uma forma de eternidade, caso o Universo seja infinito: todas as histórias serão contadas enquanto houver luz para as transportar.
Tendemos a acreditar que a visão de tantas estrelas revela a nossa insignificância. Blaise Pascal escreveu: “Que é o Homem na Natureza? Um nada em comparação com o infinito, um tudo em face do nada, um intermediário entre o nada e o tudo”. Independentemente da sensação que cada um possa ter ao observar o céu, é importante lembrar que o cérebro humano tem mais conexões de sinapses do que o número de galáxias existentes no Universo. Um pequeno pedaço de tecido do cérebro, do tamanho de um grão de areia, tem mil milhões de sinapses.
A importância das coisas não reside nelas, e não há ciência que meça isso. São as pessoas — e outros seres vivos — que atribuem maior ou menor importância ao que as rodeia ou ao que lhes é inato. Nenhuma quantidade de estrelas nos acusa de irrelevância, somos nós, a olhar para elas, que podemos sentir essa irrelevância, da mesma maneira que, ao olharmos para o lado, podemos encontrar alguém cuja importância ou relevância seja — para nós — maior do que a soma de todas as estrelas.
Enquanto uns olham para o céu, outros olham para a terra. As mulheres de Calama, uma localidade do deserto de Atacama, observam a areia, revolvem-na, sondam-na, são mulheres que andam há décadas à procura de partes dos corpos dos seus familiares que foram atirados para o esquecimento do deserto pelos algozes da ditadura. No documentário Nostalgia da luz (2010), do realizador chileno Patricio Guzmán, uma mulher conta quando descobriu o pé do irmão no deserto e como isso foi, para ela, um reencontro. Porque desenterrar aqueles ossos é uma forma de palpabilidade que adia a morte absoluta, a morte em que a pessoa que amamos foi esquecida. Esta procura é a recusa do olvido, do nada, e cada osso que se encontra, uma prova tangível de um amor irredutível.
Um filho executado pela ditadura, um irmão assassinado, um pai torturado até à morte emergem aos poucos do deserto, um osso de cada vez, um dente de cada vez, num processo de reencontro. Não se trata da confirmação da sentença bíblica “és pó e ao pó retornarás”, mas sim de um retorno: és pó, mas do pó regressarás.
Vestígios do amor vão reaparecendo para montar o puzzle do luto.
Não é apenas entre o céu e o ser humano que observamos uma estranha desproporção, é também nas silhuetas destas mulheres recortadas na paisagem, exaustas, expostas à inclemência do clima, com uma pá na mão, à procura dos ossos de um irmão, de um filho, de uma mãe, que deparamos com o abismo entre o nada e a alma humana, epicamente resistente, a lutar contra a efemeridade. O deserto parece assim uma manifestação do sofrimento, do vazio interior, que a privação do amor confere: a mãe que perde o filho viverá sempre nesse deserto imenso, esteja onde estiver, uma figura imponderável — tímida, se comparada com o céu estrelado — a escavar com uma pá o solo estéril da esperança, encarnando uma dimensão inigualável pelas maiores galáxias e estruturas cósmicas ou superestruturas que existam ou possam vir a ser descobertas. O infinito da dor é sempre incomparavelmente maior do que o Universo. Sim, em matemática existem diferentes infinitos. Este, o da perda, bem como o do amor (faces da mesma moeda), é absoluto.
A imagem a reter é esta:
O deserto na sua extensão avassaladora, o céu com milhares de milhões de anos e, na areia, a aparente fragilidade do amor, o amor armado com uma simples pá, para tentar desenterrar uma conclusão.
Olhar para as estrelas permite orientação espacial e temporal, permite navegar, caminhar com um sentido. Mas estas mulheres olham para o chão. A sua orientação, o seu sentido, encontra-se na areia, onde nem sequer a pegada dura, mas onde esperam encontrar os ossos do amor.
Saber é diferente de aceitar, dizem as mulheres de Calama. São as novas Antígonas, pois enfrentaram a ditadura e querem sepultar os seus mortos.
Saber não é o mesmo que aceitar.