Não venderei

Leia o poema inédito "Não venderei"
Ilustração: Ana Elisa Granziera
01/04/2026

Comigo pedra não é pedra,
pedra é cada uma de minhas perdas,
pedra é a lembrança ainda intacta.

Eis comigo nas paredes
o meu casamento,
os nascimentos das crias,
três gerações, o divórcio.

Vocês não enxergam
os meus fantasmas?
Sequer condeno, fantasmas
são pessoais e intransferíveis.
Não despejarei as assombrações de amor,
elas não têm onde dormir.

Não venha pedir que me desapegue,
não venha sugerir que vire a página
e comece nova história.
Só saio daqui morta.

Familiares desejam
me convencer da seriedade
dos próprios problemas,
como se eu não
me conhecesse o suficiente.
Que o custo de manutenção
da casa é caro,
que é perigoso estar desacompanhada,
que é uma residência enorme para limpar,
que posso cair e me machucar sem socorro.
Que não tenho idade para consertar
a bomba d’água que enche o porão,
que não tenho idade para anoitecer no portão.
Desde quando a o excesso de idade é acusação?

As mesmas desculpas
para qualquer existência
no céu ou no inferno.

Pelo menos, estou no chão,
presa ao chão,
enraizada no chão.
Não dependo de eletricidade
para abrir e fechar a porta.
Não há escadas entre a rua
e a minha cama.

Não me tornarei refém
de síndico e zelador.
Não seguirei regras
de condomínio.
Não pedirei que ninguém
baixe a música
e me devolva a paz.
Não é não,
não venderei a casa.

Não adesivarei as janelas
com telefones desconhecidos.
Não desistirei de mim.
Não aguentarei até onde deu,
como a maioria faz.

Onde mexerei na terra?
Onde estenderei as roupas?
Onde as redes de pescar livros?
Onde colocarei a biblioteca?
Onde cumprimentarei os vizinhos
que passam pela minha varanda?
Onde a liberdade de passear
de pijama pelas árvores?
Onde? Num cubículo aéreo?
Não fui criada para morar em cabines
de helicóptero e aviões de concreto.
Minha vista é de mim mesma.
Não invento segredos para ser importante.

Sou rasa, rasteira,
chapa do fogão a lenha.
Meus chapéus são as panelas
pregadas na cozinha,
meu vestido é o caule do vento.

Como filha do interior,
eu sinto a chuva vindo nos ossos,
anuncio as visitas com os talheres caindo.

Eu me contento com um tanque de pedra
e os prendedores de madeira.
O pouco é muito para quem nunca
precisou de mais nada.

Fabrício Carpinejar

Nasceu em Caxias do Sul (RS), em 1972. Sua obra, que transita da poesia à crônica, do infantojuvenil ao jornalismo literário, é composta por mais de 50 livros, com cerca de 1 milhão de exemplares vendidos. Já venceu mais de 20 prêmios literários, incluindo duas edições do Jabuti. Escreve crônicas diárias para o jornal Zero Hora (Porto Alegre) e semanais para O Tempo (Belo Horizonte).

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