Cláudia Vera Feliz Natal

Trecho do romance inédito de Mariana Salomão Carrara
Ilustração: Denise Gonçalves
01/04/2026

1.
Prolegômenos: Feliz Natal

1.1
Cheguei a Feliz Natal depois de um voo e mais sete horas de estrada ladeada por contínua e indiscernível paisagem de soja e milho. Apesar do tempo de curso de formação, eu não mandara meu carro vir de São Paulo a tempo, então fiz a viagem de carona com o promotor de justiça de Feliz Natal, que já naquela mandatória convivência entre quatro portas revelou-me o que ele seria por todos os próximos dias do ano, um sujeitinho assíduo e confinante, tão presente quanto intragável, que promoveria qualquer coisa menos justiça. Mas também não chegava a ser má pessoa, pois lhe faltava caráter para a vileza, perdia-se em assuntos diminutos e pensava pouco além de duas dezenas de brocardos e sabedorias, e eu passaria um ano procurando um motivo justo para odiá-lo abertamente, mas ele me ofereceria no máximo seu raciocínio rasteiro, que restringia qualquer detalhe da legislação à sua mais absoluta literalidade, à beleza simples da letra da lei, o que de modo algum o legitimaria como meu grande inimigo, pelo contrário, seguiria sendo, então, meu exímio colega, que me trazia de volta das férias uma bebida de aeroporto e um ímã. Além de tudo lhe faltava queixo.

Para fins de sigilo vamos chamá-lo Dúzio, que é um nome inexistente, como deveria ser o próprio Dúzio, e um nome que, se existisse, lhe cairia muito bem. Cheguei a Feliz Natal e de pronto percebi que Dúzio seria minha única companhia sempre que eu não tivesse êxito em manter minha solidão, e até seus hábitos e decisões no único self-service que frequentaríamos me deixariam consternado — lembro-me agora da cuidadosa manufatura de uma cama de alface sob o feijão. Como a justiça tem seus descaminhos, o promotor viria a conquistar sua promoção para outro local muito antes de mim.

Posso adiantar que a substituição de Dúzio apenas me revelou que os Dúzios de minha vida seriam repostos por tantos outros elementos genéricos formatados para operar a justiça, e sempre que formos genéricos o bastante seremos grandes amigos como são as crianças em hotéis, a imensa afinidade de quem desabou no mesmo destino geográfico, com o mesmo tédio, compartilhando essa condição de transitórios e alienígenas, idênticos em sua soberba cultural — no caso a nossa, a dos funcionários do alto escalão da justiça deslocados para cidades como Feliz Natal, não a soberba das crianças nos hotéis, embora ali também haja certa bufonaria imodesta que igualmente as une em sólidas amizades de verão.

Foi assim, já com todas essas primeiras impressões formando-se incipientes, mas buliçosas, em minha cabeça, que fui conduzido pela zelosa serventia até minha primeira audiência. Vossa Excelência, acaso esteja disposto a comover-se com esta defesa, haverá de notar, junto comigo — pois também apenas agora analiso os tropeços das minhas emoções judiciais e as atribuo adequadamente a cada episódio —, haverá, pois, de notar que foi essa primeira audiência que deixou talhada em meu ofício a tendência à ponderação extrema, se é que pode haver extremismo na ponderação.

O fórum de Feliz Natal fica numa rua coberta de terra, e tenta remeter a uma espécie de casarão caribenho. Diante da fachada há duas unidades de coqueiro sobreviventes a altas temperaturas, que despontam muito eretas — nunca sentiram a força de uma brisa — sob o céu amplo, e um orelhão com adesivos antigos de acompanhantes. Nesse primeiro dia, já no começo da audiência, um ruído insistente no telhado dificultava minha concentração, eram pequenos passos tumultuados, uma infestação de ratos no forro.

Achei que fosse excepcional e interrompi minha fala aguardando o silêncio, comecei a entender que eram pombas, um farfalhar de asas, mas todos me olharam confusos, como se somente eu estivesse imerso naquele aviário. No meio de todo o voejo começou um canto caótico de pássaros, sem que qualquer dos presentes se perturbasse. Acabei aceitando a insistência das prováveis maritacas que, desprovidas da ampla oferta de prédios e telhados de São Paulo, não tinham muito para onde variar seus voos e gritos.

Nesse cenário e com essa sonoplastia, ingenuamente perguntei se havia possibilidade de acordo,

— Só se ele devolver a vida da minha mãe!

uma das partes respondeu, e sua súbita voz e o tom da frase me fizeram sentir que estava num filme dublado. Os pássaros se agitaram ainda mais. Tratava-se de um acidente na estrada em que o réu vinha pela curva fechada e, na direção contrária, vinha o autor na curva mais aberta — só se enxergariam quando chegasse cada um à sua curva. Um dos veículos invadiu a pista do outro, e o que vinha pela curva aberta foi lançado contra o guarda-corpo, causando a morte da mãe do motorista. Caía uma tempestade que inclusive veio a provocar desabamentos graves na cidade.

O que vinha pela curva aberta entrou com a ação pedindo os danos morais pela morte da mãe, alegando que o outro viera em velocidade inadequada para a estrada molhada e sem visibilidade, e invadira a pista ao fazer a curva. O outro negou veementemente, e por seu turno pediu também danos morais, já que quebrou as duas pernas de forma grave e, mesmo após um ano e meio de fisioterapia, não voltara a caminhar sem apoios. Informava que foi surpreendido, na curva, com o veículo do autor invadindo a contramão, sendo o choque imediato.

Na oitiva da passageira do veículo do requerido, senti-a emocionada e aturdida. Na ocasião do acidente estava tensa com a tormenta, no depoimento deixou escapar que sugerira ao marido que encostasse até que a chuva diminuísse, mas de toda forma era um trecho sem acostamento, o barulho foi absurdo,

— Eu nunca tinha escutado um som assim. E veio o barulho sem a gente poder ver o que foi, de tanta água no vidro.

Os motoristas deram seu depoimento pessoal. Foram ambos efusivos na culpabilização do outro, igualmente convictos, eu vinha muito rente ao guarda-corpo, não tinha como invadir a outra pista, minha mãe estava dormindo,

— Minha mãe nem soube que morreu!

Foi esta a frase que encerrou o depoimento, minha mãe nem soube que morreu, e isso era mais um motivo de revolta, a mãe que morreu incauta, não teve tempo de olhar os faróis de seu algoz, de rever num segundo sua vida, o motorista sentiu falta do grito da mãe. No outro carro houve o grito da passageira, no seu não, porque mataram uma mãe que não estava alerta.

A questão é que o laudo pericial foi inconclusivo. Não satisfeito, o autor pagou por mais um laudo pericial, também inconclusivo. Os dois veículos pareciam vir à mesma velocidade, o choque jogou cada carro para um lado, não havendo marcas de frenagem. O segundo laudo chega a culpar ambos os motoristas pela imprudência de dirigir sob um temporal inédito naquela região, de modo que eu poderia condenar aquele que tivesse as relações mais estreitas com latifúndios de soja, pois seria o que mais teria contribuído para as mudanças climáticas e os temporais extremos.

Colhidos e registrados todos os depoimentos, reiteradas as manifestações, ficaram os dois homens e seus advogados com os olhos fixos em mim, havia também os olhos da escrevente, que já preparara o arquivo sentença e o cursor piscava à minha frente, eu não estava pronto para focar e ignorar a barafunda das aves do telhado, era a minha primeira decisão, e já era inteira uma indecisão. Questionei meu percurso, meus estudos, minha ousadia de tentar a carreira em qualquer região do país, longe de amigos que não fossem as crianças-dúzio nos hotéis das férias, longe da minha mãe, que diferentemente da mãe do autor estava viva e eu veria pouquíssimo, questionei meu voo de São Paulo com a mala apertada de ternos incompatíveis com as temperaturas de Feliz Natal, o Dúzio dirigindo enquanto descrevia a altura das ondas de alguma praia estrangeira em que passara as férias enquanto era a repetição da soja que ondulava nas janelas em ilusão de ótica.

Na sentença, expus que foi impossível aos peritos concluir qual veículo escapou de sua pista, e que devido à tempestade qualquer dos dois pode ter se desviado um pouco da rota esperada, estando a pista altamente deslizante, e que, portanto, sendo ambas as partes vítimas do acaso, arcariam cada uma com as consequências nefastas dessa tragédia, sem que qualquer dos dois motoristas pudesse ser com segurança considerado culpado.

Os advogados, satisfeitos, aliviados depois de temerem esse que seria o resultado mais aleatório de suas disputas, cumprimentaram-se e saíram, um deles levou consigo o réu, que mancava talvez mais intensamente para fins de ilustração desse meu filme dublado.

O autor permaneceu sozinho em seu lugar à mesa, olhando fixo para a janela. Seus olhos começaram a alagar e eu me animei, pensei que com isto eu sabia lidar, emoções, um profissional totalmente apto a lidar com as emoções, era um de meus orgulhos, baixei de meu posto e sentei-me ao seu lado, disse-lhe algum consolo vão sobre a perda da mãe, emendei na verdade de que nem sempre há um culpado nos desígnios da morte, e que o dinheiro no fundo não aliviaria, e imediatamente pensei que eu já me tornara Dúzio e seus aforismos, e então ele me olhou inteiro tomado pelo choro, não é isso, Excelência, doutor. Não é isso, ele falou,

— É que eu achei que o processo ia me dizer, que o técnico ia examinar e ia saber se fui eu que invadi a contramão, ou se foi ele que escorregou pra cá, eu ia sair com esse papel aqui na mão e ia saber, mas eu vou continuar sem saber nada, porque se o senhor não sabe, quem é que vai saber.

Acabado o expediente, fui me afastando do fórum enquanto olhava para o mapa no celular — eu devia andar até a avenida Maravilha, que desembocava na praça da Bíblia, era esse meu novo território —, quando o som dos pássaros me lembrou de olhar para o telhado. Araras, esse tempo todo o que eu ouvia eram dezenas de araras majestosas. Então talvez fosse possível amar aquele lugar.

Mariana Salomão Carrara

Nasceu em São Paulo (SP), em 1986. É escritora e defensora pública. Publicou os romances Se deus me chamar não vou, É sempre a hora da nossa morte amém (ambos indicados ao Jabuti), Não fossem as sílabas do sábado e A árvore mais sozinha do mundo (ambos vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura). Em 2025, lançou o infantil Sabor paciência. O romance Cláudia Vera Feliz Natal será lançado em breve pela Todavia.

Rascunho