A finitude perde as bordas
As pupilas atentamente lentas. Reencontro
o sabor de ser criatura
exposta à linguagem, à materialidade
impalpável da
linguagem. Que transforma
minhas feridas — fazendo brotar fluidos
inesperados. A
liquidez da existência:
um fundo gozo
difuso.
Às vezes, a finitude
perde
as bordas. É quando uma alegria
se inaugura. E
nem o tempo (nem
o
tempo) a comporta.
…………….
A força do informe
Não há régua nem rédea para
a corrosão da
cautela; ser feliz é uma tempestade
sutil, que
— rosnando ou retinindo —
carrega
o que cruzar seu caminho:
traumas e tréguas, decisões
e delírios
: nada digere (muito
menos
encobre) a força
do informe.
…………….
Só há sabor no que passa
Só há sabor no que passa;
o paladar
estanca sem mudança — e por isso a
língua
atiça anomalias. Condensando
a atenção: o calor (não
cala, o
calor) desperta
a dança.
Ou prepara as iscas.
Enquanto — puxada pela
poeira
— a paixão se levanta. Cada
dia mais
perigosa porque
fronteiriça: aprender
com
a terra é nunca
aceitar coisas
completas.