Argamassa sobre os ossos

Conto inédito de Patrícia Lima
Ilustração: Joana Velozo
01/01/2026

Foi numa tarde de um provável abril que acordei ali: um buraco largo e acidentado que aquecia minhas costas, de certo em razão do sol que desorientava meus olhos recém-abertos. Eu não lembrava como tinha ido parar ali, os músculos das costas doíam muito, sugerindo a violência com que tinha sido lançada na cavidade. Apoiei os punhos na terra e me empurrei para cima. Era, afinal, um buraco raso, de onde não seria de todo trabalhoso sair. Para minha surpresa, meu corpo não respondeu em força. Por mais que eu quisesse — e sentisse meus músculos tentando reagir aos impulsos cerebrais — a massa de ossos mantinha-se fiel ao chão.

Tentei mais algumas vezes o movimento, mas acabei dormindo, tomada por um cansaço irresistível. Quando acordei, o sol já caía. Com o cérebro um pouco mais limpo, pude olhar ao redor e notar que o buraco não era assim tão largo. Observando com mais afinco, as curvas na terra pareciam ter sido feitas exatamente para o meu corpo, uma vez que quase não havia margem de movimento.

O desespero, enfim, bateu. Mas toda vez que o pânico corria à garganta, ao estômago, ao coração, eu dormia — era como se eu não tivesse direito ao grito.

Sonhei com imagens esparsas de uma boca beijando minhas bochechas, depois meus lábios. Era uma mulher que eu conhecia, mas não poderia nomear. Alguém que eu parecia amar, mas que nada me dizia. Senti um vazio absurdo, mesmo com as carícias. Era uma espécie de enfermeira, alguém que cuida sem o intuito de amar, que acaricia apenas pela incumbência do ofício.

Acordei. E dessa vez fiz ainda mais força para sair. Forcei os punhos, os antebraços, coxas, panturrilhas. Nada.

Lá fora, surgiram ruídos abafados — sussurros indistintos, seguidos pelo ronco de um motor. Pelo volume e reverberação, podia ser ônibus ou caminhão. A intensidade das vozes crescia em aparente acordo com o volume do motor, cada vez mais próximo.

Curioso que a memória não me ajudava em relação ao que viera antes ou a reconhecer os personagens que povoavam meus sonhos. Mas seria muito competente em reter o que viria a seguir: um líquido acinzentado e espesso infiltrando-se no buraco. Frio, escorrendo pelas minhas pernas, tronco, espalhando-se pelas costas. Comecei a gritar, vociferar. No desespero imperioso dos músculos, havia esquecido que meu aparato vocal existia e podia me salvar:

— Socorro! Tem gente aqui.

Ninguém respondeu, mas as conversas ficavam mais audíveis:

— É preciso espaço para o novo — ouvi uma voz de homem dizer.

— Essa é nova em folha. Sem ressentimentos ou angústias desnecessárias — dessa vez uma voz feminina, muito parecida com aquela da enfermeira do sonho.

Houve uma pausa, eu gritei:

— Ei, parem de jogar cimento em mim. Tem alguém aqui!

Uma terceira voz entrou na conversa. Aguda e limpa:

— Eu aceito desfilar sobre o novo pavimento.

Som de palmas, risadas descontraídas.

O automóvel apitou, num agudo que, de tempos em tempos, sinalizava um novo despejo da substância. A argamassa descia uniforme, preenchendo o espaço entre minhas pernas, derramando-se sobre antebraços e cotovelos, tornando os membros cada vez mais rígidos. À frente, meu tênis vermelho, apontado para o céu, ia desaparecendo sob a massa cinzenta.

Mais um apito soou. O líquido desceu tomando tórax e cabeça. Senti-o aderir aos cabelos, espalhar-se pelo rosto até não ser mais possível abrir os olhos.

— Tem gente viva aqui! Tem gente viv…

Parei para respirar um instante antes da argamassa selar minha boca. Um gosto salgado na gengiva foi minha última interlocução com o mundo.

Lá de cima, eles continuavam a falar.

— Essa daqui faz as mesmas tarefas, acompanha em passeio, é simpática com amigos e família. Olha como ela caminha tranquila!

— Me parece perfeito — respondeu o homem, já um pouco alheio.

O apito soou três vezes e então o automóvel despejou a última carga de argamassa sobre meus ossos, que enfim compreendiam a extensão absoluta de sua imobilidade.

Patrícia Lima

É autora de A glória dos corpos menores, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2024 na categoria conto. Também publicou O amor é um solo de jazz (Patuá) e organizou a antologia O vazio não está nem quando é silêncio – Vozes femininas na literatura (Mireveja). Formada em Letras, coordena, desde 2017, o clube de leitura bauruense Cevadas Literárias.

Rascunho