Tradução e seleção: André Caramuru Aubert
Postcard from Kashmir
Kashmir shrinks into my mailbox,
my home a neat four by six inches.
I always loved neatness. Now I hold
the half-inch Himalayas in my hand.
This is home. And this is the closest
I’ll ever be to home. When I return,
the colors won’t be so brilliant,
the Jhelum’s water so clean,
so ultramarine. My love
so overexposed.
And my memory will be a little
out of focus, in it
a giant negative, black
and white, still undeveloped.
Cartão-postal de Caxemira
A Caxemira encolhida na minha caixa de correio,
minha casa, um retângulo perfeito de 10 por 15 centímetros.
Sempre gostei de tudo em ordem. Agora, seguro
na mão o Himalaia de um centímetro.
Isto aqui é minha casa. É o mais perto
que jamais estarei de casa. Quando eu voltar,
as cores não serão tão vibrantes,
a água do rio Jhelum tão limpa,
tão ultramarina. Meu amor
tão superexposto.
E minha memória estará um pouco
desfocada, nela
um negativo gigante, preto
e branco, ainda não revelado.
…

The Dacca Gauzes
… for a whole year he sought to accumulate the most exquisite Dacca gauzes (Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray)
Those transparent Dacca gauzes
known as woven air, running
water, evening dew:
a dead art now, dead over
a hundred years. “No one
now knows,” my grandmother says,
“what it was to wear
or touch that cloth.” She wore
it once, an heirloom sari from
her mother’s dowry, proved
genuine when it was pulled, all
six yards, through a ring.
Years later when it tore,
many handkerchiefs embroidered
with gold-thread paisleys
were distributed among
the nieces and daughters-in-law.
Those too now lost.
In history we learned: the hands
of weavers were amputated,
the looms of Bengal silenced,
and the cotton shipped raw
by the British to England.
History of little use to her,
my grandmother just says
how the muslins of today
seem so coarse and that only
in autumn, should one wake up
at dawn to pray, can one
feel that same texture again.
One morning, she says, the air
was dew-starched: she pulled
it absently through her ring.
Os tecidos de Daca
…durante um ano inteiro, ele procurou acumular os mais requintados tecidos de Daca (Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray)
Aqueles panos translúcidos de Daca
conhecidos como ar tecido, fazendo
a água correr, o orvalho da noite:
uma arte agora morta, morta há mais de
cem anos. “Ninguém
sabe mais”, diz minha avó,
“como era usar
ou sentir aquele tecido.” Ela o usou
uma vez, um sari do dote
da mãe dela, cuja autenticidade
se comprovou quando o fizeram passar,
e eram seis metros, pelo buraco de um anel.
Anos depois, quando rasgou,
bordaram-se muitos lenços
em padrões de paisleys, com fios dourados
que foram distribuídos
entre as sobrinhas e as noras.
Esses também já não existem.
Na história, aprendemos: as mãos
dos tecelões foram amputadas,
os teares de Bengala, silenciados,
e o algodão, enviado cru
pelos britânicos, para a Inglaterra.
A história pouco serve a ela de lição,
minha avó apenas diz
como as musselinas de hoje
parecem ser grosseiras e que somente
no outono, se alguém acordar
ao amanhecer para rezar, é que poderá
sentir novamente aquela mesma textura.
Certa manhã, ela conta, o ar
estava impregnado de orvalho, ela o puxou,
distraidamente, pelo buraco do anel.
…

Vacating an apartment
1.
Efficient as Fate,
each eye a storm trooper,
the cleaners wipe my smile
with Comet fingers
and tear the plaster
off my suicide note.
They learn everything
from the walls’ eloquent tongues.
Now, quick as genocide,
they powder my ghost for a cinnamon jar.
They burn my posters
(India and Heaven in flames),
whitewash my voicestains,
make everything new,
clean as Death.
2.
When the landlord brings new tenants,
even Memory is a stranger.
The woman, her womb solid with the future,
instructs her husband’s eyes
to clutch insurance policies.
They ignore my love affair with the furniture,
the corner table that memorized
my crossed-out lines.
Oh, she’s beautiful,
a hard-nippled Madonna.
The landlord gives them my autopsy;
they sign the lease.
The room is beating with bottled infants,
and I’ve stopped beating.
I’m moving out holding tombstones in my hands.
Deixando um apartamento
1.
Eficientes como o Destino,
cada olho um soldado de tropa de assalto,
faxineiros limpam meu sorriso
com dedos de Cometa
e arrancam o reboco
do meu bilhete de suicídio.
Eles ficam sabendo de tudo
com as línguas tagarelas das paredes.
Agora, rápidos como um genocídio,
jogam o pó do meu espírito num jarro de canela.
Queimam meus pôsteres
(a Índia e o Paraíso em chamas),
apagam meus pigarros,
deixando tudo novo em folha,
tão limpo quanto a Morte.
2.
Quando o proprietário traz novos inquilinos,
até a Memória se torna uma estranha.
A mulher, o ventre sólido de futuro,
instrui os olhos do marido
para se aferrar às apólices de seguro.
Ignoram meu caso de amor com os móveis,
a mesa de canto que memorizou
meus versos rabiscados.
Oh, ela é linda,
uma Madona de mamilos rijos.
O proprietário entrega a eles minha autópsia;
eles assinam o contrato de aluguel.
O quarto está cheio de bebês com mamadeiras,
e eu parei de bater.
Saio daqui levando lápides nas mãos.
…

Ghazal
Pale hands I loved beside the Shalimar (Laurence Hope)
Where are you now? Who lies beneath your spell tonight
before you agonize him in farewell tonight?
Pale hands that once loved me beside the Shalimar:
Whom else from rapture’s road will you expect tonight?
Those “Fabrics of Casmere—” “to make Me Beautiful—”
“Trinket”—to gem—“Me to adorn—How—tell”—tonight?
I beg for haven: Prisons, let open your gates—
A refugee from Belief seeks a cell tonight.
Executioners near the woman at the window.
Damn you, Elijah, I’ll bless Jezebel tonight.
Lord, cried out the idols, Don’t let us be broken,
Only we can convert the infidels tonight.
Has God’s vintage loneliness turned to vinegar?
He’s poured rust into the Sacred Well tonight.
In the heart’s veined temple all statues have been smashed.
No priest in saffron’s left to toll its knell tonight.
He’s freed some fire from ice, in pity for Heaven;
he’s left open—for God—the doors of Hell tonight.
And I, Shahid, only am escaped to tell thee—
God sobs in my arms. Call me Ishmael tonight.
Ghazal
Mãos pálidas que eu amei ao lado do parque Shalimar (Laurence Hope)
Onde você está agora? Quem jaz sob seu feitiço esta noite
antes que você o torture em sua despedida esta noite?
Mãos pálidas que um dia me amaram perto do Shalimar:
Quem mais da estrada do êxtase você espera esta noite?
Aqueles “Tecidos da Caxemira —” “para que eu fique bela—”
“Berloque”— para reluzir — “Para me adornar — como? — diga” — esta noite?
Imploro por um abrigo: Prisões, abram seus portões —
Um refugiado da Crença procura por uma cela esta noite.
Carrascos junto à mulher na janela.
Maldito seja tu, Elias, pois abençoarei Jezebel esta noite.
Senhor, clamaram os ídolos, Não permita que nos destruam,
Pois só nós poderemos converter os infiéis esta noite.
Terá a solidão ancestral de Deus se transformado em vinagre?
Ele, que jogou ferrugem no Poço Sagrado esta noite.
No templo venoso do coração, quebraram-se todas as estátuas.
Nenhum sacerdote de vestes açafrão restou para soar os sinos esta noite.
Ele libertou do gelo algum fogo, em piedade pelo Céu;
ele deixou abertas — para Deus — as portas do Inferno esta noite.
E eu, Shahid, sou o único que escapou para poder contar a ti —
Deus soluça em meus braços. Chamai-me Ismael esta noite.