O investigador da história

Lucas Figueiredo revisita sua obra, discute jornalismo e história e comenta a longa pesquisa para a biografia de JK
O jornalista Lucas Figueiredo, autor de “O Tiradentes, está trabalhando na biografia de JK
12/01/2026

Nascido em Belo Horizonte (MG), em 1968, Lucas Figueiredo é um dos mais premiados jornalistas brasileiros contemporâneos. Sua obra é reconhecida pela combinação de rigor investigativo e narrativa envolvente. Ao longo de mais de duas décadas, escreveu livros cuja principal marca é a apuração minuciosa de episódios centrais da história política e institucional do Brasil. É autor, entre outros, de Morcegos negros, Ministério do silêncio, Olho por olho e Lugar Nenhum, além da biografia O Tiradentes, dedicada a uma das figuras centrais da história nacional. Seu trabalho já foi reconhecido com prêmios como o Esso, o Vladimir Herzog e o Jabuti. Atualmente, dedica-se à pesquisa e à escrita da biografia de Juscelino Kubitschek, projeto de grande fôlego que será publicado pela Companhia das Letras e ainda sem data definida de lançamento. Nesta entrevista, Figueiredo comenta o andamento da pesquisa, reflete sobre a relação entre jornalismo e história e discute o papel do repórter diante das disputas em torno da memória e do passado brasileiro.

Você está escrevendo a biografia do Juscelino Kubitschek. Em que pé estão as coisas?
A biografia do Juscelino será publicada pela Companhia das Letras. Estou nessa pesquisa desde 2018. É uma pesquisa muito grande: já entrevistei mais de 100 pessoas, já vi arquivos públicos e privados — dezenas e dezenas, nem sei quantos — no Brasil e no exterior. Estou escrevendo agora o primeiro volume. Vão ser, possivelmente, dois ou três volumes. Estou escrevendo o primeiro, mas ainda não tem data de publicação.

• Você sempre foi um repórter investigativo de política. Como se deu esta guinada para a história do Brasil?
O jornalismo no Brasil acabou tendo, sobretudo o jornalismo investigativo, que ir muito atrás da história. Eu comecei assim: sempre cobri essa área de Forças Armadas e ditadura, buscando papéis que provavam questões relacionadas aos mortos e desaparecidos políticos, e isso acaba fazendo com que você esteja mexendo em casos que aconteceram 50 anos atrás, 30 anos atrás. Então, você acaba tendo que ir atrás de uma história que já não é tão recente. Já não é o jornalismo do dia a dia que está cobrindo o Congresso ou alguma coisa desse tipo. Nesse movimento, de os jornalistas cobrirem sobretudo as questões ligadas à ditadura, eles acabaram recuando cada vez mais e foram atrás de entender questões ligadas ao Brasil colonial e coisas bem mais antigas. Eu acabei me enveredando por isso também. Hoje faço as duas coisas: tanto faço cobertura de coisas muito atuais que estão acontecendo agora, como, por exemplo, as questões ligadas ao Bolsonaro, tentativa de golpe, condenação dele, mas também vou mais longe na história com a biografia do Juscelino. O Juscelino nasceu em 1902, então a gente está falando de uma história que já tem mais de 120 anos. Escrevi a biografia do Tiradentes, que é uma história de 300 anos. Contingências da profissão: é assim que funciona.

• Reconheço nos seus livros uma combinação rara entre rigor investigativo e narrativa literária. Como você constrói essa escrita? Há algum método ou rotina específicos para transformar apurações densas em texto fluido e literário?
O que existe é, primeiro, uma pesquisa muito grande, no caso, por exemplo, da biografia do Juscelino. Comecei a pesquisa em 2018, então já tem oito anos que estou debruçado sobre isso. A pesquisa é imensa: começa com material sobretudo de fonte primária, documentos da época, uma procura que é muito grande. Depois, há um rigor muito grande na checagem das informações. E depois vem a escrita, que é uma tentativa. A história real é tão fascinante que, muitas vezes, ela é melhor do que a literatura, do que a ficção. Então, a gente conta essa história usando ferramentas da literatura para torná-la mais agradável, mas são só fatos reais, 100% fatos, sem nenhuma concessão à ficção.

• O Brasil vive ciclos recorrentes de opacidade institucional, desinformação e reescrita interessada da própria história. Qual deveria ser, hoje, o papel do jornalista-historiador? E qual o grau de responsabilidade que você sente ao trabalhar com temas tão sensíveis?
Existe uma continuidade. Os problemas que a gente vê hoje são problemas que estão sendo rolados aí, em alguns casos, há dezenas de anos, em outros casos, centenas de anos. Então, o Brasil precisa olhar para trás para resolver os seus problemas de hoje. No caso, por exemplo, do Bolsonaro, isso é claríssimo. O Bolsonaro é fruto de como o Brasil nunca conseguiu enquadrar as Forças Armadas. Eu não estou falando isso nem da época da ditadura, mas desde a fundação da República, no século 19 ainda. Então, a gente é obrigado a ir fundo na história para poder entender os problemas do Brasil de hoje.

• A sua obra lida diretamente com zonas de sombra do Estado brasileiro — serviços secretos, corrupção sistêmica, violência política. Olhando para o presente, que continuidades e rupturas você percebe entre o Brasil que investigou nos seus primeiros livros e o Brasil de agora?
Neste momento em que a desinformação é uma praga mundial, com efeitos catastróficos sobre a humanidade, sobre a vida das pessoas, eu acho que o jornalismo se volta para a sua origem, que é apurar bem uma história e contar bem essa história para o público. Não tem mistério. Não tem que inventar a roda. Se a gente fizer o jornalismo arroz com feijão — que apura bem e conta bem a história — já é um ótimo serviço para a humanidade.

• Vários de seus livros estão esgotados e fora de catálogo — o que é um absurdo! Tem perspectiva de reedição?
Eu acho que, se procurar, ainda encontra meus livros todos por aí. Tem que peneirar, mas é possível achar. Os livros que hoje não estão com editora nenhuma são Ministério do silêncio, O operador, Boa ventura! e Morcegos negros. Estou conversando com as editoras e espero relançar esses quatro livros em breve por outras casas.

• Há algum tempo, você está radicado em Lisboa. Antes, você morou na Suíça. Está com saudades da sua Belo Horizonte? Por que decidiu sair do Brasil?
A gente sai de Belo Horizonte, mas Belo Horizonte não sai da gente nunca. Sempre continuo indo aí, gosto muito da cidade, tenho um carinho imenso por ela. Já estou fora tem 12 anos, mas continuo sendo Belo Horizonte da gema. Eu saí do Brasil para passar, na verdade, dois anos fora, e já está fazendo 12, mas a vida é assim. Ela vai levando a gente sem a gente planejar muito as coisas.

• Depois da biografia de Juscelino, há outro grande projeto no horizonte? Alguma figura histórica, episódio ou período que você considera “incontornável” e que ainda pretende enfrentar?
Estou tão envolvido com essa biografia do Juscelino. Vão ser, possivelmente, ao final da história — sendo dois ou três volumes — mais ou menos umas 1.200 a 1.400 páginas de livro. Então, agora, só consigo pensar em JK. Amanheço e anoiteço debruçado na vida do Juscelino e devo continuar assim pelo menos mais um ou dois anos. Então, realmente, não consigo pensar no que vem depois disso ainda.

Afonso Borges

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1962. É gestor cultural, escritor e jornalista. Criou, em 1986, o projeto Sempre um Papo; em 2012, o Fliaraxá, em 2021, o Flitabira, em 2023, o Fliparacatu e, em 2024, o Flipetrópolis. Tem seis livros publicados, entre eles, Tardes brancas (contos, Autêntica, 2024) e o infantil O menino, o assovio e a encruzilhada (Nós, 2022). Como radialista mantém, há 27 anos, o podcast Mondolivro, na Alvorada FM.

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