Marujo ao mar

"O autoconhecimento não passa de uma narrativa que inventamos para dar uma aparência melhor à nossa ruína."
Adriana Lunardi. Foto: Marcia Foletto
01/01/2012

Por Rogério Pereira e Yasmin Taketani

Ao terminar um livro, Adriana Lunardi costuma ser invadida por uma sensação de fracasso. Não que isso seja impedimento para sua literatura. Tampouco é limitadora sua crença no fato de que tudo já foi dito, de que tudo já foi visto. Contra uma sensação e uma crença, e, principalmente, contra a realidade, Adriana oferece um olhar próprio e a tentativa de superar-se na luta sem garantias que é a literatura. Daí surgiu em 1996 As meninas da Torre Helsinque, seu livro de estréia, seguido por Vésperas, outra coletânea de contos, que ficcionaliza os últimos momentos de grandes escritoras como Virginia Woolf e Clarice Lispector. Em 2006, a autora publicou Corpo estranho. Agora, chega a A vendedora de fósforos, romance que nasceu como um conto para então se expandir e investigar a difícil relação entre duas irmãs. Nesta entrevista concedida por e-mail, Adriana Lunardi, nascida em Xaxim (SC), fala sobre seu processo de criação, a imagem do escritor, a técnica como ferramenta para liberdade, o processo de desaprendizado que cada livro exige, a presença do biográfico na ficção e a finitude, tema que perpassa toda sua literatura.

• A finitude parece ser o grande tema de seus livros. Quando percebeu que era sobre isso que queria tratar? A literatura é uma maneira de lutar contra a finitude?
Tenho de assumir: a finitude é “a” questão para mim. Não me refiro só à literatura. Descobri a recorrência do tema à medida que ia escrevendo, primeiro os contos, depois os romances. A consciência da morte despertou em mim ainda quando criança. Fiquei perplexa, muda, ante a descoberta. Olhava para os meus coleguinhas de escola e pensava: em setenta, oitenta anos, estarão todos mortos! Naquela época, acreditava ser um segredo que só eu conhecia. Por outra, acho que a gente só faz certas coisas porque sabe que vai morrer um dia. É o que nos define; explica a relação atrapalhada que temos com o tempo, a fome de emoções, as tolices que fazemos. E como não há racionalidade, progresso tecnológico, deus ou terapia que dê conta, nos evadimos dessa insuportável certeza pela arte. Nos meus livros, o assunto salta sem querer, já quando me pergunto sobre o perfil das personagens — quem são, do que gostam, como se expressam, que tipo de passado possuem. Minha única certeza é quanto à angústia fundamental que elas trazem no peito: a de se saberem mortais. Essa é a mola invisível do drama, a explicação silenciosa para tudo o que fazem.

• Aliás, a finitude é um dos grandes temas da literatura. Como acrescentar algo a um tema tantas vezes abordado?
Ao conhecer as pinturas rupestres de Lascaux, em 1940, o pintor Pablo Picasso teria dito: não fizemos nada de novo desde então. É mais ou menos o que eu penso sobre originalidade. Também gosto desta frase: tudo está na Bíblia — o que falta nela está em Shakespeare, e o que falta em Shakespeare está na Bíblia, inclusive Shakespeare. A busca de originalidade foi a meta de uma escola, uma época, onde um eldorado ainda existia. A nós, habitantes de um mundo pós-tudo, restou da genialidade os ossos, que tratamos de roer com muito gosto. Falo aqui da ironia, o recurso estético que é olhar de novo depois de já termos visto tudo. E dizer coisas desse olhar, não das coisas vistas.

A vendedora de fósforos começou como um texto de ficção na revista piauí. Desde o começo era claro para você que ele deveria ganhar a forma de um romance? Como o livro se desenvolveu?
Ao publicar o conto na piauí, me senti insatisfeita com o resultado. Mas essa reação não queria dizer muita coisa, pois costumo ter a sensação de haver fracassado — de novo — ao concluir uma narrativa, um livro. Naquele ano, durante a Flip, decidi ler o texto em voz alta, para o público, e passei todo o tempo da leitura revisando-o mentalmente. Entendi que tinha feito opções equivocadas, que o final fora apressado. O que eu não sabia, à época, é que havia um romance em formação e que a escrita do conto havia me despertado para o mote. E eu queria mais. A insatisfação me empurrou de volta à personagem que viria a se tornar A vendedora de fósforos. Dediquei-me a encontrar o que veio antes e o que podia acontecer depois, quando ela fosse adulta, e a tentar entender que tipo de pessoa é essa que escreve nas paredes. Passaram-se três anos entre uma coisa e outra.

Ao participar de uma oficina de criação literária, a narradora quase que imediatamente refuta a experiência: “A fórmula do texto perfeito fora descoberta, mas ela é sempre enganosa em sua frieza. Não é a ordem, tonto, o ponto de partida. Para criar, é preciso ir ao nada, nonada. Um lugar que você não conhece”. Como equilibrar a técnica de escrita com a emoção? Até que ponto é possível controlar a idéia inicial de um romance e seu desenvolvimento?
Nesse nosso negócio não existem garantias. Há muitos órgãos envolvidos — estômago, cérebro, coração — para tudo fazer sentido o tempo inteiro. Para piorar, temos um idioma indolente, que à primeira frase se mostra feito de material inflexível. E não nos enganemos: sem gramática — de que lamentaremos não ter sido amigos de infância — não há sistema nervoso que se sustente. Além da Poética de Aristóteles de cor, é necessário, para segurar tanto batimento cardíaco, a influência nefasta dos fantasmas de seus autores preferidos. E a angústia enorme de não ter lido o que é de lei para um escritor. A fé na técnica é o que garantirá a liberdade para explorar o desconhecido, o inominado, o lodo de onde virá a força da história. Um romance, claro, é melhor quando escrito por necessidade, porque não se pode deixar de escrevê-lo. Já tive a experiência de elaborar uma história do início ao fim, criar o ambiente para escrevê-la, e ao final de quarenta páginas deletar tudo. Percebi que estava escrevendo só com o cerebelo; os pulmões tinham ficado de fora. Ia escrever um desses livros que são assim, interessantes, mas excessivamente domesticados. Então voltei ao meu começo: não é o que eu já sei, o que está entendido, que me move. O meu ponto de partida é o medo do desconhecido. É claro que a escrita de um romance pede planejamento. Elaboro uma espécie de súmula em que prevejo o que acontecerá até a metade da história. Só então começo a escrever. O plano existe, naturalmente, para ser desrespeitado. A vendedora de fósforos, por exemplo, teve a forma decidida bem no início. Mesmo o capítulo do castigo foi escrito na ordem. Mas o final, escrevi lá pelo meio. Coisa que nunca tinha acontecido.

• As oficinas de criação se tornaram populares no meio literário nos últimos anos. Qual a importância delas para aqueles que desejam dedicar-se à escrita?
O candidato a escritor pode poupar algum tempo se aprender umas técnicas simples, porém fundamentais na hora da tela em branco. Para começar, deve saber que escrever não é apenas expressar-se — pelo menos não dá para contar só com isso. São tantas as escolhas ao se narrar uma história que, quanto mais a gente souber de Aristóteles, mais firmemente poderá decidir. Parece evidente o momento de iniciar e terminar um capítulo, escolher o narrador para o que se vai contar, a quem e por que essa história está sendo contada. São charadas assim que a gente precisa matar desde o início. Portanto, o jovem autor descobre que escrever é também um ofício (não como os outros: melhor) e, como tal, exige um conhecimento que anos de tradição tornaram pacífico. As oficinas estão aí para isso: ensinam a dominar o formão e o cinzel, teorizam tudo sobre as propriedades da pedra de onde deverá sair a figura de um cavalo. Agora, se é o Michelangelo que está manuseando a ferramenta é outra coisa, outro será o cavalo.

O uso de elementos biográficos na ficção acaba gerando certa confusão por parte dos leitores, que muitas vezes não distinguem narrador, personagem e escritor. Há na sua ficção um limite para o uso de elementos biográficos? Existe um limite para a sua ficção?
Tendo a achar que o leitor aprecia a confusão entre o ficcional e o biográfico; se sente mais participativo ao ter margem de suspeição de que a história que está lendo foi vivida pelo autor. Parte disso vem de nossa relação problemática com a verdade, especialmente em nossa cultura ibérica, católica, onde simular é pecado. É como se o autobiográfico acrescentasse uma função exemplar à literatura, por isso o apreço maior pela coisa vivida do que à coisa simplesmente imaginada. Nesse caso, temos que usar o disfarce, o drible, o despiste para parecer que é verdade o que estamos escrevendo. Mesmo quando se afirma tratar-se de um texto de ficção, o leitor procura fantasmas nas entrelinhas, lê entrevistas do autor e toma emprestado delas as razões e motivos de ele escrever o que escreve. De minha parte, eu jogo o jogo. O importante é conseguir o efeito de verdade que o texto produz. Assim, ao ter certas garantias “documentais”, o leitor relaxa, deixa-se levar por aquilo que ele atribui como sendo a parte ficcionalizada da escrita. No que, claro, pode estar bem enganado. Em Vésperas, lidei diretamente com essas falsas garantias: em geral, o que se lê como ficção é pura biografia, e vice-versa.

• À página 124, a narradora de A vendedora de fósforos diz que “a literatura sempre há de perder para a realidade”. Você concorda com esta afirmação? Ou a literatura, de alguma maneira, pode dar conta da realidade?
Parafraseando a canção, não há guarda-chuvas contra a realidade. Ela é uma construção de onde caem tijolos que, de vez em quando, nos atingem. No entanto, dá para fugir dela. Em grande parte do tempo, vivemos na nossa imaginação, fazendo leituras da realidade, tornando-a pior ou melhor do que ela se apresenta. E quanto mais recursos possuirmos, melhor versão teremos para o que nos acontece. A arte é, para mim, o maior dos recursos. Muita gente encontra isso na religião, nas drogas, no conhecimento. Em comum, há o mesmo desejo de evasão, de um sentido ainda que provisório, pois a consciência total nos destruiria.

Enquanto alguns escritores tratam o ato da escrita como um processo extremamente doloroso, outros afirmam justamente o contrário, classificando-o como um processo de cura, terapêutico. Até que ponto a literatura pode ser um espaço de terapia para o escritor e o leitor?
Quando criança, eu passava os dias desenhando. Meus cadernos tinham mais figuras de sol, casinhas e árvores, do que letras. Nunca mais senti a mesma facilidade, a fluência com que aquilo acontecia. Desenhar me punha no lugar certo. Eu tinha uma gratificação que jamais pude encontrar em outra atividade. Um dia, fui visitar um médico que, ao invés de examinar a minha garganta, me mandou — surpresa — desenhar. Durante algum tempo, minha mãe tomava os desenhos e levava para o doutor. Tudo virou sintoma, dali em diante. Minhas paisagens com cerquinhas, meus rios de ocupar a página inteira diziam coisas horríveis a meu respeito. Parei, então, de desenhar o óbvio. E aí o médico não decifrou mais nada. Criatividade é isso. Você encontra nela a saúde enquanto todos procuram a sua doença. Depois comecei a ler, às vezes para buscar respostas, às vezes para fugir delas. Dito isso, a arte parece ocupar duas instâncias limítrofes: como superar-se e como matar tempo. Eu faço as duas coisas, às vezes juntas.

Na epígrafe de A vendedora de fósforos lê-se: “Escreverei as lembranças de minha irmã para falar de mim com mais verdade”. Ao escrever, ainda que tratando de temas que não são seus ou criando personagens que não são Adriana Lunardi, você acaba se conhecendo melhor? Há algo em sua vida que exerça um papel tão definidor quanto o que a irmã da narradora possui?
Não tenho tanta fé no autoconhecimento. A gente briga para ser o que é e, quando consegue, se dá conta de que tudo podia ter sido diferente. É da natureza menos letrada o desejo e, se sabe, queremos só o que não temos. Assim, o autoconhecimento não passa de uma narrativa que inventamos para dar uma aparência melhor à nossa ruína. Claro que precisamos de regras para nós mesmos, o processo civilizatório é feito assim, e eu quero me safar do obscurantismo. Mas certamente não é para isso que escrevo. Ao contrário, tenho mais a esconder do que a encontrar. Deve ser da idade. Falando nisso, muito tempo, pouco tempo, me definem.

• De que maneira você se aproximou dos livros, o que a levou a se tornar uma leitora?
Os livros sempre estiveram presentes; a leitura era um hábito lá em casa. Cada um tinha a sua coleção, a sua pequena biblioteca. A estante do meu pai era a minha preferida. De José de Alencar a Erico Verissimo, passando por Balzac, José Cândido de Carvalho, Machado, Zola, eu sabia de cor o nome dos autores que iria ler quando crescesse. Meu irmão tinha um baú de quadrinhos de super-heróis e meu tio nos abastecia de mais quadrinhos. Como nasci em uma cidade pequena, a televisão chegou tarde, quando eu tinha lido boa parte do repertório infantil: Andersen, Irmãos Grimm, Júlio Verne, Mônica, revista Disneylândia, Recreio, toda a Disney, mais alguns exemplares da coleção Disquinho.

• E como foi sua passagem de leitora para escritora? Em que momento passou a se enxergar como escritora?
Só há bem pouco tempo passei a me denominar escritora, a entender que aquele desajuste, aquela sensação de não ter nenhum objetivo na vida, tinham um nome, formavam uma identidade. Foi preciso rolar muita lágrima até eu sair desse armário. Larguei a faculdade de Engenharia Florestal, estudei Comunicação, viajei, casei, tive alguns empregos, publiquei o meu primeiro livro, mudei de cidade, publiquei o meu segundo livro, e aí comecei a relaxar, a entender que a palavra escritor não é um título nobiliárquico, mas a definição mais exata para o que eu faço, onde dou o meu melhor. Já comecei até a preencher as fichas de hotel no espaço reservado à profissão sem achar que é uma fraude.

E quanto ao processo de afastar sombras e influências para encontrar uma voz própria?
Nunca foi muito forte a minha angústia da influência. Lembro de escolher alguns caminhos antes mesmo de escrever as primeiras histórias. Para começar, decidi afastar a tentação do texto abstrato. Escrever é contar uma história; tinha de haver, portanto, uma narrativa no que eu fosse criar. E enxugar ao máximo os adjetivos. A praga do Hemingway ainda fazia escola nos anos 80 e tive a péssima idéia de adotar o realismo. Felizmente, ao ler mais e melhor, entendi o meu equívoco e segui, confiante, o curso da minha própria letra.

Adriana Lunardi. Foto: Marcia Foletto

• A narradora de A vendedora de fósforos diz à página 109: “Um bom médico ele, mas péssimo leitor”. O que caracteriza um bom leitor?
A imaginação. Com ela, o leitor se forma sozinho, sem necessitar de nenhuma especialização ou conselho quanto ao que deve ler.

Quais eram suas ilusões a respeito do ofício de escritora no início da carreira e que vieram a desabar?
Não sou um tipo romântico. Por temperamento, e também graças a uma excêntrica pedagogia familiar, tenho tendência a fantasiar mais a catástrofe do que o final feliz. Se algo pode dar errado, tenha certeza que dará, uma voz costuma soprar no meu ouvido. É bem verdade que, durante a juventude, eu levava essa canção trágica mais a sério. O alívio veio após um período de análise e do embate mesmo da vida. A primeira me ensinou a não temer o ridículo, a desconfiar da música em meu ouvido; a segunda me ensinou a rir, e a apreciar mesmo os piores uivos. É claro que quando estou criando só ouço o canto da sereia. Viro um marujo tolo, que se joga ao mar achando que vai alcançar qualquer coisa. Mas aí já não sou eu quem escuta, nem aquele que mergulha.

A crítica tem apontado A vendedora de fósforos como aquele no qual você teria alcançado a excelência em sua literatura. De que modo acredita ter progredido em sua escrita?
Parece-me uma gentileza essa sua afirmação; agradeço, vivo de gentilezas, como disse a personagem de um filme. O fato é que alguma crítica presta atenção no que eu escrevo. Os estudos de literatura contemporânea nas universidades estão longe de concordar, contudo, quanto aos nomes que estão produzindo a chamada literatura da nossa época. Há atualmente uma tensão entre a crítica e a produção literária, o que me parece um sinal de que, mesmo em agonia, algo se move. Feita a ressalva, posso responder à sua pergunta. Sinto que progresso não é uma palavra justa para descrever a produção de um autor. Cada livro pede para ser escrito à sua maneira. Repetir é a morte para quem cria. De modo que aprender a escrever um livro é um conhecimento necessário apenas e exclusivamente para aquele livro. O próximo, para que exista, exigirá um desaprendizado do anterior. Será como pôr no papel as suas primeiras frases de novo, ou escrever as suas últimas palavras, aquelas pelas quais você morreria.

Vésperas foi publicado na França e em Portugal, entre outros países, e Corpo estranho está sendo traduzido para o francês. No entanto, sua inserção no mercado editorial estrangeiro parece ser uma exceção. Considerando que muitos bons livros brasileiros não conseguem espaço nesse mercado, a que você creditaria a boa acolhida de seus títulos no exterior? Falta algo à nossa literatura para que ela ganhe suas próprias estantes em livrarias estrangeiras?
O mercado editorial americano dita o que vai ser lido no mundo, simples assim. E a esse mercado falta curiosidade. Tudo o que fuja ao realismo é considerado exigente demais para o leitor, a menos que a obra contenha cenas extravagantes da felicidade à brasileira, junto ao relato antropológico de nossa pobreza terceiro-mundista. Falta a esses editores disposição para ler, de fato, o que escrevemos. Os EUA demoraram cem anos para mencionar o nome de Machado de Assis, reconhecê-lo como gênio. Hello! Fazemos parte da tradição literária ocidental; nossos autores são netos e bisnetos de imigrantes que aportaram aqui por força ou por vontade, e que constituíram uma nação que é a cara do mundo de hoje. Por que não havíamos de ter uma literatura que expressasse tudo isso? Os próprios agentes literários falam da dificuldade em vender os nossos livros por já não possuírem aquela “cor local” que, na verdade, não foi o que produziu nem os nossos melhores romances, nem os nossos maiores autores.

Você não possui conta no Twitter mas está presente no Facebook com o perfil da personagem de A vendedora de fósforos. Apesar de servir para aproximar leitor e autor e ser um meio de divulgação, o foco na internet não estaria passando muito mais à questão do escritor como celebridade?
No Brasil atual ninguém se tornou celebridade pelos livros que escreveu, à exceção de Paulo Coelho. No mais, os autores que merecem essa tarja têm carreiras na mídia, o ninho do fenômeno cultural de que falamos. São jornalistas, comunicadores, cronistas; gente que desenvolve uma profissão paralela à de escrever livros. O que me parece é que se espera dos escritores uma resistência à banalização da imagem, uma postura crítica ao espetáculo, como se a quem escreve fosse feio ostentar a vaidade. Do modo mais grosseiro, acaba pairando sobre o autor midiático a suspeição de que, se ele é exibido, será porque sua obra não possui qualidade, o que é uma arrematada bobagem. Esse desejo por publicidade não é um juízo que deva se aplicar a toda uma categoria. Há autores que entendem ser um dever brigar pelo mínimo espaço onde possam dizer quem são e o que fazem, enquanto mostram a capa do livro recém-lançado. Outros são tímidos, reservados, almejam a privacidade. Além disso, por maior exposição que um escritor consiga, nada irá se comparar ao tempo de exibição e especulação em torno da vida de um artista de tevê, mesmo de segunda linha.

• É fato que a leitura de ficção não está no centro das atividades culturais das famílias brasileiras. Portanto, na maioria das vezes, a formação dos leitores fica sob responsabilidade do Estado — atualmente, o grande cliente do mercado editorial. Se o Estado, quase sempre, não está preparado para formar leitores, levando-se em conta a fragilidade da escola pública, quais os caminhos possíveis para se aumentar o índice de leitura no Brasil?
Não há uma resposta fácil para isso. E diante de temas mais populares, como inclusão digital, o debate quanto ao acesso ao livro parece um tema bizantino, passadiço, alimentado por uma pequena parcela da população que luta pela sobrevivência de seus próprios interesses. Acho, por isso, um equívoco reduzir-se o livro a um capital cultural, que passa a ser desejado só porque estão criadas as condições para adquiri-lo. Ora, o livro é resultado de séculos de civilização, dos valores desta civilização. Cada ato de leitura põe a funcionar no indivíduo aquilo que temos de melhor como espécie: imaginação, inteligência, capacidade de simbolizar. Ninguém pensa nem constrói uma opinião própria se não explorar em si mesmo tal capacidade, e gerações inteiras no Brasil cresceram sem essa experiência. Gente cujo contato com a ficção se dá através da televisão. Uma cultura, portanto, não letrada, que com o advento das novas tecnologias passará à leitura (se passar), sem ter tido o livro como objeto de transição. Os bárbaros tecnicizados, no dizer de Oswald de Andrade. É uma obrigação governamental, sim, garantir o acesso ao livro. Temo, porém, que é até aí que conseguimos chegar com a política: criar números. Um número maior de bibliotecas e de exemplares disponíveis. Dali em diante, é com a subjetividade, território onde as estatísticas não têm a menor importância. Não nos iludamos. O leitor será sempre uma exceção, uma bela exceção, mas pela qual todo esse sistema deve existir e funcionar a plena carga.

Como são os intervalos entre a escrita de um livro e outro? Eles são dedicados mais à “superação” do livro recém-publicado ou à busca do livro seguinte?
Em média, fico dois ou três anos escrevendo um livro, portanto algo divertido tem de vibrar nessa rotina. Após a publicação, vem a fase de “detox”, quando me descontamino do modo de narrar e das personagens do livro recém-publicado. Durante esse período, não consigo dizer nada sem desconfiar do que estou dizendo. A sintaxe torna-se uma construção complicada, que me incapacita de escrever um mero bilhete. Torno-me irritadiça, acho que a minha existência não tem mais uma função. Depois, retomo o gosto da escrita e começo a ter idéias. Se tudo der certo, uma delas há de virar o próximo romance a ser escrito.

A narradora de A vendedora de fósforos afirma que “os livros duplicam o mundo”. Que tipo de mundo a sua literatura pretende duplicar?
A biblioteca, antes de tudo. Que um livro leve a outro, e este por sua vez faça o mesmo, criando uma possibilidade infinita de combinações para o leitor. O mundo é a biblioteca, disse o último sábio da Terra. Eu acredito.

Adriana Lunardi. Foto: Marcia Foletto

Vésperas poderia narrar os últimos momentos de escritores — homens e mulheres — interessantes ou importantes para você. No entanto, você optou por retratar apenas escritoras. Há alguma característica própria da literatura feminina que lhe atrai?
Em Vésperas, minhas personagens representam alguns dos maiores escritores da história da literatura mundial, independentemente do critério de gênero. Foram esses autores — ou autoras — que mais exerceram influência sobre a minha formação, e não me refiro tão somente à formação da escritora, mas do meu modo de ver e atuar no mundo. Não vejo características tipicamente femininas na escrita. Acho que a tentativa de distinção diz mais de política do que de literatura. O fato de mais mulheres publicarem seus livros acrescentou à literatura uma subjetividade pouco conhecida até o século 19. Tudo passou a ser visto com outros olhos; não se trata porém de uma questão de sintaxe ou de preferência temática. É novo porque mudou a mentalidade. Ninguém estava acostumado à autoria feminina. J. K. Rowling assinava com iniciais para esconder a sua identidade. Voltou atrás, porque já estava falando para uma geração para quem essas coisas não têm mais importância, espero.

A vida de um leitor talvez possa ser dividida em etapas relativas aos livros que as marcaram. Qual livro marca a atual etapa de sua vida?
O livro escrito agora, com as tintas do nosso tempo. Tenho tido muitas alegrias com a literatura brasileira que, ao contrário do que se diz, reencontrou o vigor de nossos melhores momentos. É claro que tenho lá o meu gosto, mas acima dele reconheço exultante uma biblioteca toda nova, e tão variada que me custa listar.

O que a levaria a crer ter fracassado como escritora? Ou a escrita é um fracasso em si, como a brincadeira de perseguir a própria sombra, em que a impossibilidade de alcançá-la já nos define perdedores?
O livro escrito fica sempre menor do que o esperado. Os bons propósitos iniciais e o engenho que imaginei ter empregado revelam-se pífios. Terá uma cegueira me atacado durante a escrita? Como então não pude perceber tantas falhas? A leitura de um original é uma desilusão aguda, chama à depressão. O resultado parece a sombra do que devia ter sido. Levo tempo para juntar os caquinhos da auto-estima. Aos poucos vou rindo desse drama e transfiro a esperança ao próximo livro. Será o meu melhor, juro.

A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma. O autor tem muitas, entre as quais escrever o melhor que ele pode, sempre. As editoras devem ter leitores qualificados em seus quadros, o livreiro não pode perder a sensibilidade literária nem esquecer o porquê do negócio do livro, as bibliotecas devem estar atualizadas, os leitores bem alimentados, e é obrigatório haver uma luz de cabeceira na cama de cada quarto.

LEIA RESENHA DE A VENDEDORA DE FÓSFOROS.

Yasmin Taketani

É jornalista.

Rascunho