A angústia da espera

"O ano do nirvana", de Walther Moreira Santos, apresenta várias contradições que permeiam nossa sociedade e nossas artes
Walther Moreira Santos, autor de “O ano do nirvana”
01/03/2026

“A coisa errada comigo é que estou sempre atenta.” A frase inicial de O ano do nirvana, do pernambucano Walther Moreira Santos, diz muito sobre a protagonista do romance. Laura é uma funcionária pública que enfrenta diversas situações conflituosas: tem crises existenciais diante do trabalho arranjado pelo tio corrupto, deseja terminar o relacionamento com o namorado e ainda precisa lidar com as investidas diárias de um vizinho sinistro.

O acalento vem das conversas profundas e bem-humoradas com um desconhecido, que mais tarde se torna um amigo. Nesses momentos, durante o fim da noite, à beira da praia, Laura é mais autêntica, mais livre, mais ela mesma.

Por meio de diálogos precisos, a ágil narrativa ambientada no Recife do fim da década de 1990 traz personagens cativantes e reflexões profundas sobre um país que parece sempre esperar muito do futuro.

Com O ano do nirvana, Walther Moreira Santos venceu o Prêmio Kindle de Literatura. Antes disso, recebeu outros prêmios, como o Mindlin e o Cepe. “Sou um autor periférico, vivendo no interior de Pernambuco, sem laços com ninguém do mercado editorial, em um país reconhecido por não dar acesso. Sem os concursos literários, eu seria um autor inédito até hoje”, disse.

Ao longo desta entrevista concedida por e-mail, Moreira Santos aborda o seu processo de escrita, fala a respeito da angústia que sente diante do mar, da influência das redes sociais na literatura e comemora o sucesso internacional do cinema pernambucano.

 • Embora tenha sido publicado apenas em 2025, O ano do nirvanafoi escrito na década de 1990. Por que o livro ficou tanto tempo engavetado?
Originalmente, O ano do nirvana era um livro erótico, com 48 capítulos, mas nunca soube o que fazer com ele; com o tempo, o livro foi destoando cada vez mais do que fui publicando ao longo dos anos, como os romances Um certo rumor de asas e O ciclista. Minha amiga, a escritora Liliane Prata, que leu o original, me aconselhou a salvar pelo menos os diálogos; e é basicamente o que fiz, daí ficamos com essa edição com 17 capítulos, cerca de trinta por cento do original.

• A versão atual é muito diferente da que foi escrita nos anos 1990?
Em tese, não é. Porque os personagens estão lá, como também a atmosfera de um país suspenso na incerteza.

• Desde as primeiras frases do romance, torna-se perceptível que a protagonista Laura se sente muito culpada, inclusive por ser burguesa. Qual o papel da culpa e do discurso demagógico na narrativa?
Em maior ou menor grau, a culpa, assim como a raiva, está no nosso DNA — em virtude do nosso passado escravocrata e autoritário, talvez, que, até hoje, está muito mal resolvido.

• A personagem também atravessa outras crises, como a infelicidade no relacionamento amoroso e a convicção de que o cargo como funcionária pública só foi obtido por conta da influência de seu tio, um senador corrupto. Por outro lado, ao menos no princípio, ela não se mostra disposta a abrir mão da vida que leva. Essas contradições internas estavam presentes na personagem desde que começou a construí-la?
Ah, sim, a personagem é uma encruzilhada de várias contradições que permeiam nossa sociedade, nossas artes e boa parte de nossa academia.

• Os encontros semanais, à beira da praia, entre Laura e um desconhecido representam a fuga da personagem de sua vida normal? Qual é a importância do contraste social existente entre os personagens (uma burguesa e um garoto de programa que leva uma vida longe de luxos) para a construção da relação entre eles?
Na década de 1990, eu costumava sair à noite de quinta a domingo, de modo que os personagens foram construídos a partir de pessoas que conheci de fato; O ano do nirvana é um livro mais anotado do que escrito, ou seja; ele foi se compondo a partir de frases que eu ouvi quando era estudante na UFPE [Universidade Federal de Pernambuco], de frases que ouvi percorrendo bares. Na dinâmica da noite, pelo menos na década de 1990, esse distanciamento entre classes sociais, às vezes, desaparecia. Muito embora pensar relações entre classes sociais nunca tenha sido uma decisão consciente.

• Embora sejam praticamente desconhecidos no começo do livro, Laura e o amigo falam com cumplicidade e profundidade sobre vários assuntos. Há um interesse de ambos em discutir a condição humana, mas os personagens abordam esses tópicos de forma leve e bem-humorada. Como percebeu que o humor funcionaria em uma narrativa que também contempla muitos momentos melancólicos?
O João Silvério Trevisan, que foi um dos jurados do Prêmio Kindle, escreveu que o livro é cheio de “uma melancolia ácida”; mas sabe que só quando li isso me dei conta? A Clarice Lispector dizia que ela não era uma escritora, era, sim, uma “sentidora”; eu digo a mesma coisa. Eu não penso muito naquilo que estou escrevendo, eu sigo o fluxo das personagens e permito que elas sejam. Por outro lado, nossa sociedade é violência e medo, mas também é carnaval.

• A melancolia, aliás, está muito associada à contemplação do mar em algumas cenas. Quando decidiu que o mar seria um elemento importante para o romance?
O mar me angustia muito mais que a morte. Agora imagine estar diante do mar à meia-noite, completamente abandonado, em uma das cidades mais violentas do mundo. Não há como ficar indiferente a isso.

• General Rabelo é um personagem bastante interessante: um militar da reserva, galanteador, meio atrapalhado e platonicamente apaixonado por Laura. Ao mesmo tempo, é autoritário e capaz de cometer atrocidades. Ele é um retrato de muitos generais do nosso país?
Infelizmente, sim; e nossa história recente mostra isso; mas também é uma metáfora de um autoritarismo que permeia toda nossa sociedade e a torna uma das mais violentas do mundo. Como Jung escreveu, aquilo que não trazemos para o consciente, acabamos vivenciando como destino. É preciso desconstruir essa ideia de que somos um povo amistoso, fraterno etc. Todas as estatísticas provam que isso é uma mentira.

• Quando questionado pelo amigo sobre por que lia tanto, Laura responde que é “porque procuramos uma palavra mágica, uma frase perfeita, algo que dê sentido à vida”. E você? Por que lê tanto?
Qual é uma das grandes injustiças enfrentadas por quem escreve? É que a ficção precisa fazer sentido, mas a vida não precisa fazer sentido. E essa busca por um sentido é uma das muitas motivações da leitura, e que acaba sendo a da literatura também.

• Embora tenha sido escrito nos anos 1990, O ano do nirvanaacompanha a atual tendência de romances mais curtos. Acredita que o tamanho de uma obra literária se tornou uma preocupação para o autor contemporâneo?
Reduzi O ano do nirvana por uma questão conceitual; o autor não deve se preocupar com isso, um texto deve durar aquilo que precisa dizer: um verso, um conto, uma novela, um romance, pouco importa. Pessoalmente, sou um leitor onívoro: leio com prazer textos longos e curtos. No momento, estou entre as 912 páginas de As benevolentes, do Jonathan Littell.

• O escritor Raimundo Carrero afirma, na quarta capa de O ano do nirvana, que “raramente se encontra no Brasil um escritor com tanta obsessão e certeza”. Atualmente, quais são as suas obsessões? E as suas certezas?
Minha obsessão é escrever algo significativo e depois abrir uma pensão na Tailândia; a certeza é que isso provavelmente nunca irá acontecer. Talvez nenhuma das duas coisas.

• Com dezenas de obras publicadas, você soma importantes prêmios literários, com destaque para o José Mindlin de Literatura (O ciclista), o Cepe (Arquiteturas de vento rrio) e, mais recentemente, o Kindle (O ano do nirvana). Qual é a importância dos prêmios literários para um autor?
Sou um autor periférico, vivendo no interior de Pernambuco, sem laços com ninguém do mercado editorial, em um país reconhecido por não dar acesso. Sem os concursos literários, eu seria um autor inédito até hoje. O ciclista, por exemplo, foi resultado de um prêmio literário da própria Autêntica, uma casa editorial que amo, mas, mesmo assim, nunca mais consegui publicar por lá. A Orides Fontela falava sobre isso: não importa o talento que você tenha, parece que no Brasil algumas barreiras são intransponíveis.

• Como é a sua relação com o meio literário?
Eu tenho uma relação afetiva com meus pares. Leio todo mundo e guardo cartas da Hilda Hilst, João Gilberto Noll, João Anzanello Carrascoza, Altair Martins e de tanta gente boa. Um dia, publico tudo.

• Desde que publicou O ciclista, em 2008, seu livro mais prestigiado, o que mudou na maneira de se fazer literatura no país?
As redes sociais. O ciclista, por exemplo, ganhou o prêmio Cidade de Curitiba, um concurso literário com uma única edição que teve o Cristovão Tezza como jurado, mas quem sabe disso? Hoje, com as redes sociais, tudo pode ter um alcance maior. O problema é que quantidade se tornou sinônimo não só de qualidade, como também de oportunidade. Já há editoras que só publicam textos de quem tem X seguidores. Daí o único modo de romper com essa lógica infame é o concurso literário.

Quando O ciclistafoi lançado, Mário Fernando Lins Filho declarou que “desde Caio Fernando Abreu não surgia um escritor que tratasse as relações humanas com tamanha verve, sentimento e compaixão”. Esse tipo de comparação é um estímulo ou uma armadilha?
Uma armadilha. Sempre.

• Hoje, o escritor se tornou uma espécie de celebridade? Em quais aspectos a atual relação entre leitores e autores é positiva? Em quais é negativa?
Gosto da ideia de um autor ou influencer com milhões de seguidores tendo o livro como mensagem. Por que não? Recentemente, o Rodrigo de Lorenzi, que é um excelente influencer de Curitiba, com mais de 190 mil seguidores no Instagram, fez uma postagem com O ano do nirvana e automaticamente várias pessoas me adicionaram. Tornar a leitura algo pop é muito positivo para construirmos uma nação leitora. E não importa o que surgir como modismo, nesse meio tempo. A boa literatura sempre irá prevalecer. A Record acaba de reimprimir novas e belíssimas edições de Graciliano Ramos Ernest Hemingway. De modo geral, a boa literatura vende menos, mas se impõe ao longo do tempo.

• A presença nas redes sociais tornou-se indispensável para um autor? Como você lida com isso?
Meu sonho era ter como superpoder ser invisível. Um aluno meu de 10 anos me disse que era um sonho idiota, porque “quando morrer todo mundo vai virar fantasma e ficar invisível, então é melhor ser rico do que ser invisível”. Ele deve estar certo. Eu não tenho uma atuação ativa nas redes, mas posso aprender. Eu quero aprender.

• Você também trabalha como ilustrador. O interesse pela ilustração surgiu antes ou depois do interesse pela escrita literária? Em quais aspectos as duas atividades se aproximam? Em quais se distanciam?
Somos um país de guetos. Daí escrever e ilustrar para a infância faz com que muita gente torça o nariz para minha literatura para adultos. Se você for um poeta com cinco livros lançados e surgir com um romance, irá perder o respeito dos poetas e dos romancistas. Mas não abro mão dessa trincheira da infância, porque é do sucesso dela que teremos um leitor na vida adulta. Tenho ótimos livros para a infância. O aeroclube, por uma editora de Curitiba e já na décima edição, irá permanecer. Já minha literatura para os adultos, não sei.

• Como pernambucano, o que sente ao ver o cinema de Kleber Mendonça Filho ganhar o mundo?
Na verdade, nossa tradição no cinema já dura 100 anos. A filha do advogado, filmado em Recife, é de 1926. O Kleber está levando esse estandarte. Ele e toda a equipe merecem todos os prêmios. Aquarius, de 2016, teria ido tão longe quanto O agente secreto, não fosse a perseguição que sofreu. Então, você veja: estamos sempre voltando ao tema do autoritarismo velado ou declarado e de como ele paira sobre nós, como uma ameaça real e constante, e impede nossa felicidade.

O ano do nirvana
Walther Moreira Santos
José Olympio
112 págs.
Bruno Inácio

É jornalista e escritor. Autor de Desprazeres existenciais em colapso (contos) e Desemprego e outras heresias (romance)

Rascunho