Batida só, de Giovana Madalosso, foi um dos destaques da literatura brasileira em 2025. A autora já é conhecida por obras como A teta racional, coletânea de contos finalista do Prêmio Biblioteca Nacional; Tudo pode ser roubado, eleito melhor romance pelo Prêmio Manuel de Boaventura (Portugal); e Suíte Tóquio, finalista do Prêmio Jabuti e indicado ao Dublin Literary Award 2025.
Neste novo romance, a protagonista Maria João descobre uma arritmia após ser atacada por dois homens na rua e desmaiar. A doença no coração desencadeia uma série de transformações: uma rotina mais amena no trabalho como jornalista, uma mudança temporária de casa e novidades nos vínculos afetivos. É uma história sobre a consciência da morte e como viver a partir dela. Também sobre escolher no que acreditar em momentos de crise e a impossibilidade de escapar das próprias emoções.
Histórias que se estruturam a partir de uma virada de chave como essa — a percepção inevitável da morte trazida por alguma doença grave — frequentemente caem em um resultado já bastante explorado em outras produções artísticas: o personagem muda de comportamento ao aprender a distinguir, com mais rigor, o que realmente importa. Em geral, essa mudança vem acompanhada de um final edificante.
Maria João, a personagem central, até dialoga um pouco com esse padrão — ela de fato repensa seus caminhos e atitudes —, mas dá uns passos a mais. Não se trata apenas de revisar a vida: ela começa a questionar suas certezas e assume o risco de participar de novas experiências.
Depois do diagnóstico, vem a recomendação médica: Maria João precisaria perceber os momentos em que o coração palpita de maneira incomum e evitar fortes emoções por alguns meses. Missão complicada para uma jornalista — profissão naturalmente estressante —, que ainda precisa lidar com um namorado problemático e pais igualmente trabalhosos.
Há uma beleza nas reflexões que a protagonista faz sobre a impossibilidade de evitar emoções, de saber exatamente quais são as situações nocivas para o seu órgão fragilizado.
Quantas coisas uma pessoa sente em vinte e quatro horas? Eu não podia nem imaginar a exaustão de sopesar emoções por todo um dia, por toda uma semana, por três meses.
Na tentativa de evitar conflitos, Maria João isola-se em uma pequena cidade, onde está a antiga casa de sua avó. Lá, reencontra Sara, colega de infância e mãe de Nico, um menino de 10 anos que também lida com uma doença grave. O crescimento dessa amiga ao longo da trama e a amizade que a protagonista desenvolve com a criança ajudam a destacar Batida só como um dos melhores livros da autora. Conversas e momentos cheios de sensibilidade entre os três tornam difícil não se emocionar com a leitura.
Inicialmente, a presença impositiva de Sara incomoda Maria João. Mas a amiga passa de uma pessoa aparentemente inconveniente para uma líder fundamental no grupo. Terminamos a leitura rendidos ao seu amor pelo filho e à sua capacidade de manter-se em pé, com as ferramentas que tem, diante de um cenário tão pesado.
Essa relação só pode ser construída porque Maria João aceita acompanhá-los em uma viagem para um lugar que promete um tipo de tratamento espiritual — destino incondizente com o seu ateísmo convicto. Mas percebe-se que a protagonista passa a vivenciar a jornada por outros motivos, que estão além de uma chance de cura não convencional: talvez buscar uma emoção qualquer, testar o que um coração debilitado ainda consegue sentir.
A confiança de Sara na parceria que iria nascer entre duas mulheres tão diferentes estava certa: junto com Nico, elas formam um time na pequena cidade. Compartilham tempo, angústias, dúvidas com relação ao futuro e à eficácia dos tratamentos.
Giovana Madalosso revelou em entrevistas que a ideia para Batida só apareceu em meio ao tratamento de saúde de um familiar. A peregrinação entre médicos e o confronto com a vulnerabilidade a motivaram a escrever sobre vida e morte. E, principalmente, refletir sobre como não morrer ainda em vida —por medo de sentir, experimentar e se aventurar. A urgência dos acontecimentos provocou a autora a escrever sobre o tema, assim como uma doença grave nos puxa para o mundo real: não há nada mais importante a ser feito do que olhar para isso.
Ali, atrás da funcionária de cabelos ensebados que vendia as fichas, havia um cartaz: NÃO DEIXEM DE VIVER. Assim, em caixa-alta, como a gritar para os clientes. Então é isso, pensei, pegando a ficha e cruzando a pista até o bar. Enquanto muitos — até compreensivelmente — estavam entrevados em casa, aquela turma tinha escolhido viver. Com dor, com pino, com atadura, com prótese, com fezes. E aquilo era bonito. Tão bonito que me deu ainda mais vontade de me curar para seguir sofrendo a vida.
A escritora contou com ajuda de um médico para construir o personagem Nico, que tem um linfoma. O mistério acerca da crença do garoto nos tratamentos indicados e na cura, e a sua clareza com relação a todos os movimentos da mãe e à realidade que o cerca dão uma densidade bonita de se ver em personagens crianças. O drama da história é grande, mas Nico é ainda maior.
Fiquei surpresa. Por acaso você…não acredita em Deus?
De repente seu olhar envelheceu: Ele que não acredita em mim. Depois baixou o rosto e prosseguiu: Deus acredita mais em qualquer menino da minha escola do que em mim. E nem é que eu não acredito nele. Só não acredito do jeito que a minha mãe acredita.
Apesar do tema, a protagonista consegue oferecer alguns momentos cômicos e leves. Acima de tudo, ela percebe que a fé não é algo que uma pessoa conquista da noite para o dia, que a presença ou a ausência da fé em cada um depende, ao que parece, de uma vocação. Uma vocação que ela não tem, embora deseje — por empatia com o sofrimento de seus dois amigos.
Batida só é uma obra que vai interessar quem busca ler algo sobre dificuldade em manter a esperança, lidar com emoções e com o medo da morte. Também pode interessar a quem lê literatura atento à construção de personagens e seu desenvolvimento, à habilidade de sustentar com sensibilidade um tema que atinge a todos nós. O livro também parece questionar um comportamento habitual na nossa época, que é fugir com todas as forças de assumir qualquer sentimento que seja. Maria João nos convida a pensar se vale, de fato, viver uma vida sem emoções.