Uma tumba no meio da selva

Em "Noite negra", Pilar Quintana volta ao Pacífico colombiano e transforma selva, solidão e ameaça em uma prisão construída dentro da mente da protagonista
Pilar Quintana, autora de “Noite negra “. Foto: Carlos Zárrate
01/10/2026

Noite negra, romance mais recente da colombiana Pilar Quintana publicado no Brasil, é repleto de referências a livros e músicas. Numa delas, a salsa Las tumbas, de Ismael Rivera, é mencionada no momento em que a protagonista, Rosa, conhece seu futuro companheiro, Gene. Apesar de breve, a menção à canção exemplifica como a obra é um passo adiante na criação do universo ficcional de Quintana.

No romance, a autora retorna ao Pacífico colombiano, espaço primário de sua ficção. Nele também estão ambientados A cachorra (Intrínseca, 2020) e parte de Os abismos (Intrínseca, 2022). No entanto, o projeto literário de Quintana não adquire densidade só pelo espaço compartilhado. É principalmente por meio da intertextualidade entre as obras que a autora desenvolve sua literatura. Neste caso, Rosa e Gene são mencionados na história de Damaris em A cachorra e os três aparecem em La rumba, son, palo muerdo, conto protagonizado pelo casal já idoso.

O título incomum é retirado do refrão de Las tumbas, a corruptela gerada pelo ouvido estrangeiro de Gene. Las tumbas son pa los muertos. A canção persegue o irlandês ao longo de todo o conto e, em Noite negra, marca o início de sua relação com Rosa. Uma fina ironia compreendida pelo leitor inteirado do final de La rumba, son, palo muerdo.

Nesse sentido, com Noite negra, os contornos da literatura de Quintana ganham maior nitidez, com suas temáticas e estratégias tornando-se mais explícitas. Na obra, Rosa abandona sua vida na cidade para construir uma casa na selva com Gene. Quando seu companheiro precisa viajar, a protagonista vê-se abandonada, tendo de encarar sozinha o horror da floresta e dos homens à sua volta. O resultado é um thriller psicológico em que o terror maior está no enfrentamento de si mesma.

Estrutura
A tensão narrativa de Noite negra é gerada por dois aspectos centrais: espaço e tempo. A caracterização da selva a converte em personagem. Dos ruídos incessantes aos bichos hostis e às plantas que ferem a carne, a floresta compartilha o protagonismo da trama com Rosa e serve como um de seus antagonistas. Por mais que a mulher avance contra a floresta, o ambiente a repele, afastando-se de qualquer ideal idílico.

O perigo máximo é representado pela noite negra. Quando a lua “vai embora de vez”, a escuridão do céu é completa e “não dá para ver as ilhas nem o mar, nem nada”. Contudo, Quintana é perspicaz. A autora entende que a potência narrativa maior não está na noite negra em si, mas na antecipação de sua chegada. Dessa maneira, o livro é dividido em quatro capítulos, cada um dedicado aos dias anteriores à lua nova. A colombiana intensifica o suspense ao vincular o momento à expectativa do retorno de Gene. Já nas páginas iniciais, estabelece-se que a noite negra e o contato do companheiro ausente devem ocorrer na quarta-feira, data do último capítulo. Logo, Rosa e o leitor avançam no livro à espera da escuridão e do telefonema que confirmará se a protagonista foi ou não abandonada na selva.

Se a estrutura geral do romance funciona, ainda há problemas no corpo do texto. Em Noite negra, a conhecida concisão de Quintana cede espaço para uma escrita marcada pelo excesso de símiles. A fluidez da leitura é comprometida por uma experiência em que se torna raro não se deparar com alguma comparação ao longo da narrativa. Só nas primeiras quatro páginas, lemos que lanchas rodeiam o canal “como formigas em torno de uma bala gigante”; a suspeita de Rosa “se espalha como uma mancha de tinta em uma folha de papel antes imaculada”; um estampido sacode a natureza “como tiros de metralhadora”; o ritmo do aguaceiro é monótono “como crianças entediadas passando as contas de um ábaco”; e o mundo aterrorizante parece “como que tomado por forças ocultas”. Se considerarmos outros conectivos, os exemplos são ainda mais numerosos.

Mente aprisionada
Em sua fala na Feira do Livro de 2026, Quintana afirmou que mulheres vivem “como animais de presa na savana africana”. Para elas, é necessário estar sempre alerta porque a ameaça pode vir de qualquer lado. Em Noite negra, ao conceber uma protagonista abandonada na floresta numa casa sem portas, a autora converte esse medo em matéria literária.

Mais do que a selva, os vizinhos são um perigo iminente para Rosa. Com a ausência de Gene, a personagem percebe que o comportamento dos homens à sua volta muda. Eles agora ultrapassam limites antes respeitados. Desse modo, a imaginação do que esses sujeitos são capazes de fazer com a chegada da escuridão inflama a narrativa e gera seus maiores picos de tensão.

Imaginar é verbo principal aqui. Apesar de todos os riscos externos, o romance é sobre o que se passa na cabeça de Rosa. Sozinha, a personagem é forçada a confrontar seu passado. Com saltos temporais, a obra apresenta ao leitor a infância e a juventude da protagonista como forma de explicar suas motivações. Tal dinâmica revela, inclusive, outra ironia intertextual: a caracterização de Rosa idosa em La rumba, son, palo muerdo é marcadamente similar à de sua avó com demência em Noite negra.

A relação entre a demência da avó e o possível futuro desvario de Rosa já idosa é relevante porque, em grande medida, Noite negra trata de uma mente que se esvai. Com o passar dos dias, a paranoia se instala na protagonista e, sem ninguém mais para confirmar suas percepções, a linha entre imaginação e realidade na narrativa esmaece.

Visões e linguagem
Infelizmente, Quintana não adota uma linguagem que represente a perturbação mental de Rosa. Exemplo disso são as descrições das visões da personagem. Ao longo do livro, a protagonista é assaltada por imagens pavorosas, entre elas o corpo morto de sua galinha favorita, a jararaca pronta para dar o bote e Gene na cama com outra mulher. Apesar de as visões surgirem repentinamente, Quintana não as emprega na criação de uma linguagem correspondente ao estado emocional de Rosa.

Pelo contrário, a autora adota uma escrita lúcida, carregada de frases explicativas como “Está se afastando quando lhe vem à mente a terrível visão de Amparo morta”, “… ao levantar a tampa da mala ela tem uma visão dele com uma equatoriana” ou “Imagina-o com a gringa”. Às vezes, o narrador é ainda mais direto, repetindo integralmente afirmações do tipo “há outra visão que a persegue” e “essa é outra visão que a persegue”. E, quando a mente de Rosa se esfuma, Quintana não hesita em mostrar as cartas ao leitor: “Paranoica, veste a bata do dia anterior…”.

Na cena em que Rosa e Gene se conhecem ao som de Las tumbas, o narrador afirma que a protagonista sentia que a música teria sido escrita para ela. De fato, não há como não pensar na personagem de Quintana quando Rivera canta: “Cuando yo saldré, de esta prisión/ Que me tortura, me tortura mi corazón/ Si sigo aquí, enloqueceré”. No caso, a prisão enlouquecedora de Rosa é sua própria mente, convertida numa tumba que a engole no meio da selva.

Noite negra
Pilar Quintana
Trad.: Elisa Menezes
Companhia das Letras
208 págs.
Pilar Quintana
Nasceu em Cali (Colômbia), em 1972. É autora de um livro de contos e seis romances, entre os quais se destaca A cachorra, traduzido para mais de vinte línguas, indicada ao Dublin Literary Award, finalista do Premio Nacional de Novela e do National Book Award e ganhador do Premio Biblioteca de Narrativa Colombiana, do English PEN Translates Award e do LiBeraturpreis. Os abismos, também traduzido para diversos idiomas e finalista do National Book Award, conquistou em 2021 o Prêmio Alfaguara de Romance.
Allysson Casais

É doutor em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense. Publicou o ensaio Dois anos infindos: o brasileiro como estrangeiro na ficção de Luiz Ruffato (Urutau, 2025)

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