Uma nau a tombar está entre as cenas mais marcantes da Exposição do Mundo Português, de 1940. Ocorrido no primeiro ano da Segunda Guerra, o evento tinha como propósito celebrar a fundação do Estado Português, em 1140, a restauração da Independência, em 1640, e, principalmente, servir como propaganda nacionalista do Estado Novo, então em fase de consolidação. Contudo, o que era para ser símbolo do passado glorioso apropriado pelo regime salazarista virou motivo de constrangimento quando a embarcação adernou pouco tempo após ser lançada ao mar.
O episódio vem à mente na leitura de Morramos ao menos no porto, segundo romance do português Francisco Mota Saraiva. Vencedor do Prêmio José Saramago, em 2024, o livro tem o naufrágio como uma de suas imagens centrais. É recorrente na narrativa a menção a homens moços que perdem a vida nas águas ao embarcar em uma nau catrineta, nome que faz referência ao poema popular recuperado por Almeida Garrett em seu Romanceiro e cancioneiro geral.
Os versos, cuja autoria é desconhecida, narram uma viagem marítima entre Brasil e Portugal. Os eventos tenebrosos vividos pelos tripulantes ecoam não só na morte dos jovens, mas também na epígrafe de Sêneca que abre o romance e serve como inspiração para seu título: “vivemos no meio das vagas/morramos ao menos no porto”. A intertextualidade operada por Saraiva sublinha o movimento dos personagens na obra, pessoas dilaceradas pelos dramas da vida em busca de um porto seguro. No entanto, o romance também diz algo sobre Portugal, pois, como afirmado pelo autor em entrevistas na mídia portuguesa, o retrato de um país é decorrência de quem nele vive. Assim, em Morramos ao menos no porto, Saraiva nos apresenta um Portugal que, tal qual a nau salazarista, está a tombar, sua gente baqueada pelas ondas da vida.
Linguagem própria
O maior feito de Morramos ao menos no porto é a construção de uma dicção particular. O romance narra a história de António, que zela pelo corpo defunto de sua esposa, Silvina, escondido no pequeno apartamento do casal. No decadente edifício, o leitor também é introduzido à vizinha parteira que opera abortos clandestinos e ao sargento achado coronel que persegue meninos no parque.
Membro do júri que agraciou Saraiva com o prêmio Saramago, Adriana Lisboa descreveu a obra como possuindo um estilo próprio, “quase um idioma particular”. A descrição é certeira. Mesmo sendo possível traçar paralelos com autores como António Lobo Antunes, Saraiva desenvolve uma linguagem específica que se recusa a infantilizar seu leitor. No entanto, encarar o desafio proposto pela leitura nem sempre vale a pena. Passagens desinteressantes não são incomuns e o romance oferece pouca percepção original sobre o ser humano e a vida, apesar da matéria eleita.
O primeiro aspecto que chama a atenção na obra é certa circularidade, criada pela repetição de imagens e palavras. A já mencionada nau catrineta exemplifica isso. Entretanto, é o foco em certos vocábulos que se destaca. O sexto capítulo, por exemplo, trabalha o termo “arco”. O arco desenhado pelo corpo do narrador se torna o arco feito por sua urina e também o arco do cateter por baixo da pele. A palavra continua a retornar ao longo do livro, assim como “coser”, “balanço”, “losango” e tantas outras.
Porém, talvez seja “zero” que ganha maior destaque nessa repetição. A própria forma do numeral aponta para a característica de recorrência da narrativa. Ele aparece na senha tirada por meninas em busca do aborto no consultório clandestino, forçadas a retornar outro dia porque
o zero não é vez. Num sistema de senhas, o zero não é vez; e chega ao seis e recomeça porque não cabem mais do que seis no sofá que vai tomando as formas dos ventres assustados. Quem tira o zero, tira a senha outra vez, volta na véspera do dia para ser
E também na busca do filho mais novo do casal pelo apartamento dos pais:
[…] vejo nosso filho lá em baixo, o idiota, às voltas com os números da avenida sem saber que dum lado pares e do outro lado ímpares, a insistir que vivemos no número zero que nem par nem ímpar, não me vê
As moças que tiram a senha zero não saem do lugar, forçadas a repetir o ato, e o rapaz à procura dos pais também não avança em sua busca. Estagnação que na obra parece se estender por toda parte. Menos no enredo, que evolui e ganha contornos intrigantes na introdução do filho e, sobretudo, do desafeto do pai constatado na citação acima.
Saraiva trabalha as relações internas da família com sutileza. Aos poucos, a dinâmica entre pai, mãe e filho é revelada. O motivo da aversão do pai pelo filho surpreende, assim como a descoberta do que ocorreu entre as paredes do apartamento e a causa da morte de Silvina. As informações dadas a gotas pelo autor levam o leitor em direção ao final impactante e inesperado.
Esta estratégia funciona por Saraiva adotar o fluxo de consciência na narração de António. É possível dizer que acompanhamos o declínio do personagem rumo à loucura. Na confusão de sua mente, que salta do presente para o passado, com pensamentos interrompidos, as peças do quebra-cabeça vão gradualmente se juntando e o quadro quebrado da família se fazendo mais nítido.
Saraiva também não hesita no uso de uma descrição que causa ojeriza. Seja na putrefação do corpo de Silvina, na imundície do apartamento deixado às moscas por António, ou nos abortos clandestinos realizados pela vizinha, o autor assalta o leitor com sons e cheiros que destacam aquilo que há de mais medonho na sociedade. Isso inclui o velho sargento que persegue meninos no parque. Nesse sentido, o romance também fala da sociedade portuguesa, cuja podridão, assim como no edifício central do romance, é denunciada pelo que sobe pelos ralos. Em outras palavras, aquilo que está escondido fora de vista não deixa de se revelar no mau cheiro que fica no ar.
Com o Prêmio José Saramago, Saraiva junta-se a um grupo que inclui importantes nomes nas literaturas contemporâneas de língua portuguesa. Entre vencedores passados estão os brasileiros Adriana Lisboa, Andréa del Fuego e Julián Fuks; os portugueses José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe; assim como o angolano Ondjaki, entre outros — nomes relevantes no cenário literário de seus respectivos países. Com dois romances lançados e dois prêmios conquistados até agora (Aqui onde canto e ardo, seu primeiro romance, venceu o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís em 2023), o futuro de Francisco Mota Saraiva parece promissor. Poderíamos até dizer que no turbulento mar que é o meio literário, sua nau está a navegar com segurança, sem naufrágio à vista.