Um texto pueril

Ao infantilizar a linguagem para narrar a rotina de um menino às voltas com ecos da ditadura, Chico Mattoso entrega um romance irregular
Chico Mattoso, autor de “O hipopótamo”. Foto: Renato Parada
01/04/2026

Numa de suas contribuições para o Jornal do Brasil, em fevereiro de 1968, Clarice Lispector comenta, em tom de desabafo, sobre a recente conquista de um prêmio concedido ao seu livro infantil O mistério do coelho pensante. No texto, publicado posteriormente no volume de crônicas A descoberta do mundo, a autora reflete sobre a alcunha de hermética que os críticos da época lhe impunham, classificando de difíceis seus livros para adultos, enquanto suas obras para crianças eram celebradas, facilmente compreendidas. Ela, então, questiona: “Deveria eu escrever para os adultos com as palavras e os sentimentos adequados a uma criança? Não posso falar de igual para igual?”.

Não só pode, como deveria. Escrever para crianças não consiste em se desarmar das técnicas e dos procedimentos aplicados na literatura para adultos, tampouco em promover distorções ou reduções drásticas. Trata-se do mesmo ímpeto de liberdade inventiva, apenas com uma perspectiva adequada, um trabalho de interpretação que dê conta da sensibilidade e dos aspectos do enredo. O autor infantil precisa regular, no espaço lúdico do texto, a linguagem e os mecanismos de significação, de modo a garantir que o discurso seja para todas as idades, que a voz narrativa não decorra de uma escrita simplista, infantilizada. Ou seja, escrever para criança não é escrever como uma criança.

Esse é um dos problemas de O hipopótamo, de Chico Mattoso, mas não é o único. A novela, que por suas características está mais próxima do gênero infantojuvenil, acompanha o dia a dia de Rodrigo, um menino por volta dos dez anos, numa São Paulo de fim dos anos 1980. Filho único de pais separados, mora com a mãe, cumprindo a rotina de casa-escola-casa, tarefas, brinquedos, revistinhas e desenhos animados. Ocasionalmente, o pai vem buscá-lo de Fusca para passar um tempo no sobrado onde reside, cujo pátio tem um paredão contra o qual ele fica chutando uma bola. Lá a tevê fica desligada, mas, pelo menos, tem com quem conversar, anulando, por algumas horas, a falta de companhia, a solidão frequente. Contra o silêncio, ocupa a mente com pensamentos fantasiosos, desejos secretos de ser um super-herói, um craque do futebol.

Há, porém, outros segredos que rondam sua infância e, sem ele se dar conta, explicam o ar sempre congestionado, o verniz pálido que cobre as coisas. Isso tem origem num passado inacessível, mas que o menino entrevê no comportamento instável da mãe, em seu hálito alcoólico, nas cicatrizes escuras que tatuam o braço dela. Quando fala com o pai sobre o novo namorado da mãe, ele revela que o conhece de longa data, da temporada que passaram no Chile. Outras peças sem encaixe surgem de algum comentário fortuito de um parente, de fotos guardadas e de um encontro acidental com “uma antiga companheira de cela”. A verdade implícita é que, antes de ele nascer, seus pais fizeram parte da resistência contra o governo militar, viveram na clandestinidade e tiveram que fugir para o exílio. O país era outro, seus pais eram outros — menos a mãe que, em algum momento, foi sequestrada e torturada, mantendo-se de corpo e alma ainda presa naquele tempo de medo, perseguição e dor.

No fundo do armário
Livros novos e antigos abordaram, com doses certeiras de ternura e agudeza, os traumas da ditadura no ambiente familiar pela perspectiva da criança. De Quando chegar a minha vez, de Giselda Laporta Nicolelis, a Era uma vez um quintal, de Andreia Prestes, a experiência trágica causada pelo regime de repressão, desaparecimento e morte compõe um rasgo nos porta-retratos, um impacto na memória que repercute em sequelas intratáveis no presente. Mattoso, no entanto, opta por manter esses esqueletos bem no fundo do armário, no segundo plano de sua trama, focando no cotidiano prosaico de seu protagonista, constituído de trivialidades do universo infantil. A maioria das cenas se enreda em preocupações como a hierarquia na organização dos bonecos, a avaliação dos colegas da escola entre chatos e bacanas, a inabilidade no futebol, as notas vermelhas na caderneta e as transgressões pueris. Todo o texto é remendado por figuras de linguagem, o que é sempre um risco de deslize na pieguice e no lugar-comum, a exemplo do trecho:

Rodrigo é tomado por uma leveza nova, uma tranquilidade que não nasce de estacas firmemente fincadas no pensamento, mas, ao contrário, da ausência premeditada de controle, como um fliperama que não precisa de ficha ou um morro gramado e infinito onde é possível deslizar para sempre sobre um pedaço de papelão.

Há ainda um esforço constante de caracterizar o período em que se passa a história, recorrendo a referências dos anos 1980 (literalmente) a cada página. O caso é que o uso dessa memorabilia carece de um propósito, de um contexto que justifique sua inclusão, ao invés de ser meramente empilhada no texto. Desse modo, fica evidente a intenção do autor de apelar para a nostalgia na construção de seu painel imagético, não confiando na capacidade de fazer sentir e lembrar dos movimentos naturais da trama na apreensão da leitura. A certa altura, o menino pega uma sacolinha plástica e ela é da Varig, notadamente pelo efeito evocativo. Um colega lhe oferece um doce e não é um chocolate, mas um Chokito. O garçom tem a fisionomia do Casagrande. O homem deformado parece o personagem dos Goonies. Por quê? Porque sim, porque o enredo precisa ser circunscrito pelo olhar da criança da época, convertendo a relação do significado textual com o contexto em algo simplório, infantilizado.

Quando chegam as férias escolares, Rodrigo e a mãe viajam a Porto Alegre, para passar as festas de fim de ano na casa dos avós. Lá o protagonista presencia a mãe ser soterrada pelo pânico ao visualizar um velho dentro do mercado. Meses depois, ao retornar sozinho ao local, o menino topa com o desconhecido e decide tomar para si o mistério, descobrir quem é o responsável por aquela reação desconcertante. Nesse terço final, a história decanta dos eflúvios da ingenuidade e ganha arranque nos desdobramentos da investigação que alude aos livros com tons detetivescos da coleção Vaga-lume. O fluxo narrativo acelera, a realidade se expande e as tensões internas do personagem se transferem para seu comportamento atrevido, conduzindo-o a rumos sombrios que resultam numa experiência de amadurecimento e, finalmente, o enredo estabelece o prometido paralelo entre drama pessoal e histórico.

Numa outra crônica publicada quatro anos depois, em que exalta a grandeza humana e criativa de Erico Verissimo, Clarice Lispector defende que, apesar de considerar pobre a literatura infantil feita no Brasil, o autor gaúcho deveria seguir investindo no gênero, pois as crianças precisam “livrar-se do Superman, do Batman”. No livro de Mattoso, o personagem se imagina o Homem-Aranha, saltando de marquises, escalando arranha-céus, balançando em suas teias sobre a cidade. Então, surge uma ameaça monstruosa e ele percebe que não pode detê-la, que em breve será aniquilado, suspirando de alívio ao se dar conta de que tudo não passou de um sonho. No universo dos super-heróis e na literatura, entender os desafios e calcular a rota para o sucesso dependem da maneira como se lida com a missão. Às vezes, imaginar demais pode ser o pior inimigo.

O hipopótamo
Chico Mattoso
Todavia
96 págs.
Chico Mattoso
É autor dos romances Longe de Ramiro (Editora 34) e Nunca vai embora (Companhia das Letras). Mestre em Escrita Dramática pela Northwestern University (EUA), foi roteirista de séries como Pico da neblina (HBO Max) e Encantado’s (Globo).
Sérgio Tavares

Nasceu em 1978. É autor de Cavala, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, publicado em Portugal com o título Equação sobre o abismo. Também publicou Queda da própria altura, antologia finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Alguns dos seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Escreve sobre literatura brasileira e hispano-americana para jornais e revistas, além de editar o site A Nova Crítica.

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