Se o contrário do amor é o ódio — sentimento que ainda gira em torno do outro e carrega a mesma intensidade da paixão —, qual seria, então, o oposto da paixão?
E se a paixão é um feitiço, Despaixão, livro de estreia de Paula Lopes Ferreira, é o relato de quando esse feitiço se quebra e do longo caminho até conseguir sair da órbita que ele impõe, especialmente a mulheres.
O termo inventado pela autora nomeia um processo que o dicionário não contempla. O “desapaixonar” pode até existir na língua, mas não dá conta da travessia que o livro narra: da paixão ao ódio, ambos centrados no outro; do amor ao medo; da desilusão ao desespero, até o rompimento final do encanto. Despaixão descreve, assim, o esforço de entender o que escapa à razão e de romper com uma espiral ancestral de violência.
Logo no início, um aviso dos editores:
O livro que você tem em mãos foi escrito por uma vítima da violência real, mas dissimulada e persistente, que costuma sufocar milhões de mulheres.
A narradora fala a partir de um corpo em pedaços, de uma mente confusa e de um coração exausto. Tenta reunir o que sobrou de uma relação abusiva — anos de violências físicas e emocionais, explícitas e veladas. Um casamento que, pouco a pouco, se tornou prisão:
Não satisfeito em dominar a parte financeira da minha vida, ele queria muito mais. Queria minha alma, queria a minha força, queria a minha inteligência.
Não é preciso muito para reconhecer ali situações que ainda fazem parte de tantos relacionamentos entre homens e mulheres. Quase toda mulher, em maior ou menor grau, pode se reconhecer nessa voz marcada pela manipulação, pela subjugação, pela resistência. É um relato íntimo, mas comum a tantas de nós.
Com uma escrita fragmentada e vertiginosa, alternando cenas reais com imagens impossíveis, e uma voz que oscila entre a lucidez e o delírio, Paula Lopes Ferreira constrói um romance autobiográfico que utiliza a linguagem e a estética para dizer o indizível — para trazer à tona o que está embaralhado na memória, para narrar o que precisa ser narrado, mas que a razão, sozinha, não encontra meios nem palavras:
De nada serve o que vivo, sequer sei o que contar, pouco entendo essa experiência.
Pela escrita, Paula elabora a violência doméstica — pessoal e coletiva — em uma sociedade que a naturaliza e silencia. Pela ficção, encena o desejo de vingança, a inversão de papéis: em uma passagem irreal e surpreendente, coloca a mulher no lugar de dominação e goza com a eliminação de seu algoz.
O livro é o espelho de um processo de catarse: a materialização, em palavras, de um processo físico e mental, por meio do gesto criativo.
Não sei reconstituir com precisão os seus atos, que foram transformando tudo em destroços. Também não sei explicar como pude me manter sempre tão integralmente passiva.
Quem vive uma relação abusiva vive uma batalha contra o medo — contra o impulso desesperado de, após cada novo episódio de violência, buscar o alívio de seguir aguentando, só mais uma vez. Porque buscar a calmaria depois da tormenta, mesmo sabendo que outras piores virão, é um impulso humano. Mas o alívio imediato não liberta: é preciso atravessar o deserto, suportar a travessia, para que uma nova vida seja possível.
Ao pedir ajuda à mãe, a narradora se depara com outra realidade comum: a negação por parte da mulher que deveria lhe estender a mão. O conselho é “aguente até o fim”:
Sem rede de apoio e em novas condições extremas, vi o pior de minha família. Além da dor, eles prejudicaram e atrapalharam, em exagero, o processo inelutável e necessário da minha separação.
Em meio ao inferno familiar, a chegada de uma nova vida: uma menina. Delicadeza, suavidade, promessa. O universo lúdico da infância como refúgio, algo fora de si pelo que lutar:
Ao brincar com a minha filha, fagulhas novas resplandeciam e suscitavam maior criatividade e esperança de que, embora eu tivesse pego o caminho errado, na estrada haveria uma paisagem bonita e uma placa luminosa sinalizando a próxima saída.
É no amor pela filha que a narradora encontra, ao mesmo tempo, medo e esperança. Medo de lutar e perder a guarda, medo de que a menina repita o ciclo ancestral de violências. Esperança de encontrar forças para sair dali, para garantir que ela tenha um destino diferente das que vieram antes.
Se a paixão é cega, o caminho que a narradora encontra para retomar a visão é olhar para dentro. O turbilhão de pensamentos desordenados de uma mente tão destroçada quanto o corpo só começa a encontrar alguma ordem quando ela fecha os olhos, se recolhe, silencia — pela ioga, pela escuta de si. Nesse movimento interior, ela cria um caminho de volta: recolhe os restos, se reorganiza, segue.
Entre a mãe e a filha, ela ocupa o ponto de ruptura. O lugar de quem pode, enfim, interromper o ciclo. Despaixão é o nome dessa luta — íntima, coletiva, ancestral — por romper o feitiço.