Um gosto pela vida

"Ojiichan", novo romance de Oscar Nakasato, explora com delicadeza dias nem tão felizes
Oscar Nakasato, autor de “Ojiichan” Foto: Gilvan C. Borges
01/04/2025

Há mais de cem anos imigrantes japoneses começaram a chegar ao Brasil. A presença de indivíduos dessa etnia é marcante no país, e ainda assim é relativamente escassa sua representação na literatura brasileira. Algumas dessas narrativas focalizam aspectos do âmbito privado da vida do imigrante, compondo um quadro íntimo da vida de personagens marcados pela diferença cultural. Nihonjin (2012), de Oscar Nakasato, reeditado recentemente, conta a vinda de Hideo Inabata de Kobe para São Paulo no princípio do século passado, homem cioso de sua nacionalidade e fiel ao imperador. Narrado pelo neto, o embate entre visões de mundo e o dilaceramento das tradições dão o tom desse romance, cuja visão estabelece uma espécie de balanço geracional diante de inúmeros choques culturais. Como a expectativa da personagem Kimie de ver neve nas lavouras de café do interior de São Paulo.

Em Ojiichan, novo romance de Nakasato, a estranheza de falar outra língua e pertencer a uma cultura distinta pode se estender a um elemento que igualmente estabelece fronteiras entre os indivíduos: a velhice. Nakasato segue investigando a identidade de sujeitos marcados pelo deslocamento geográfico e simbólico. Eles vivenciam a cultura japonesa em inúmeros aspectos, seja nos hábitos mais banais do cotidiano, como a alimentação, ou na linguagem, a exemplo das palavras para designar relações de parentesco (ojiichan significa avô), cultivando um modo específico de estabelecer relações com o mundo ao redor.

Esse é precisamente um dos méritos da narrativa, o ponto de cruzamento entre certa “alma oriental” — referida por Cora Rónai na orelha do livro — e a sensibilidade do protagonista da trama, que nos conquista aos poucos, por suas qualidades e dilemas. Aos setenta anos recém-completados, Satoshi acaba de entrar na aposentadoria compulsória, depois de trinta anos ensinando biologia em uma escola pública:

Queria seguir lecionando para levantar todos os dias às seis horas, tomar o ônibus a duas quadras de sua casa e saber que teria um dia de trabalho pela frente.

Casado com Kimiko, precisa enfrentar a nova condição e também o adoecimento da esposa, que sofre com uma progressiva perda da memória. Acontecimentos na vida familiar, que incluem um filho vivendo há duas décadas no Japão e uma tragédia com a filha no Brasil, concorrem para trazer a melancolia que se espalha por suas páginas. Em função de problemas financeiros, o casal se muda para um apartamento diminuto no condomínio Arvoredo, em um bairro distante da casa em que viviam. Nem diante das piores adversidades Satoshi se vitimiza. Perdas e decepções são sentidas sempre em tom menor, mas nem por isso menos doídas.

Coisas simples
Quem assistiu ao filme Dias perfeitos (2023) deve apreciar a sutileza de muitas passagens desta narrativa, que também explora os dias nem tão felizes de uma existência pontuada pelo gosto das coisas simples. Ao final do belo filme de Wim Wenders projeta-se uma imagem associada à palavra komorebi, termo japonês para designar o brilho da luz e da sombra criado pelas folhas ao vento, algo que existe uma única vez e logo se extingue. A existência de um vocábulo específico para essas breves cintilações confirma seu lugar e importância na cultura japonesa. A dedicação de Satoshi ao mundo vegetal, assim como Hirayama, o protagonista de Wim Wenders, também fala do desejo de exercitar formas de conexão com tudo o que é vivo. Podar, regar, adubar e ver brotar a vida é algo caro a Satoshi, homem de hábitos estoicos que por vezes se relaciona melhor com a natureza do que com os próprios familiares.

Para alguém tão conectado aos ciclos da existência e às sucessivas mudanças que a compõem, o que seria envelhecer? “Um homem está velho quando não consideram mais a sua opinião”, afirma ao saber que a filha Cecília cortara a antiga jabuticabeira plantada por ele no quintal de casa. Testemunha da vida familiar há décadas, a árvore causava muita sujeira, argumenta ela, que também trocara os móveis da sala sem consultá-lo. Cecília está cega diante do que de fato importa para o pai. Decide por ele, em vez de ouvir sua opinião.

Como anuncia o próprio título, Satoshi é um ojiichan para quem as netas adolescentes, no Japão, dizem sentir saudades sem qualquer convicção. O sentido da palavra lhes escapa inteiramente; elas apenas repetem algo que o pai sopra em seus ouvidos na intenção de conferir alguma emoção à conversa desbotada pelo telefone. A saudade não cintila ali, porque não há vínculo efetivo, como aquele inventado pelo personagem ao plantar novas mudas no pátio cinzento do lugar.

A desatenção do mundo
Ojiichan se ocupa da jornada de descoberta de como prosseguir a despeito do olhar de desatenção que o mundo devolve a alguns de nós. Sobretudo quando se trata de pessoas que não se encaixam mais nas atividades de trabalhar, produzir ou mesmo se reproduzir. O romance indaga o que esperar da existência quando a maior parte das expectativas já foram cumpridas. Para além desse questionamento, Nakasato chama a atenção para a contradição desse homem atento a outras formas de vida, mas incapaz de interagir com a esposa quando se agravam suas condições do mal de Alzheimer. Ela é um embaraço, e aqui a suposta paciência oriental inexiste. Para tanto, Satoshi contrata a cuidadora Akemi, que compartilha a origem cultural e se insere de modo positivo na dinâmica familiar.

Na nova morada, o protagonista passa a acompanhar a vida dos vizinhos, tentando imaginá-los a partir dos recortes vistos de sua janela: uma senhora borda, um casal de dois homens passa o dia fora de casa, outra mulher assiste televisão a maior parte do tempo. Trata-se, em larga medida, de solidões justapostas em meio a pequenos encontros em função de algum gosto comum. Como aquele surgido com Altair, leitor entusiasmado de romances, o que adiciona ao livro uma camada inusitada, já que as obras consumidas pelo vizinho são de autores brasileiros, em bela homenagem a Milton Hatoum e Raduan Nassar. O imaginário pujante de um certo oriente árabe dos escritores confronta o oriente nipônico de Nakasato, marcado pela contenção e alguma rigidez. Satoshi não consegue chorar e não sabe pedir desculpas aos familiares quando necessário, ao mesmo tempo que estabelece delicados vínculos com pessoas como Estela, a solitária vizinha que, por medo de morrer só, combina com ele um código para avisar todos os dias que está viva, pendurando um lencinho verde na janela.

O condomínio Arvoredo é essa espécie de microcosmo em que sujeitos solitários se esbarram e por vezes estabelecem conexões reais. Para que isso aconteça, é preciso uma atitude disposta a enxergar a vida em suas mínimas manifestações. Nesse sentido, a estrangeiridade de Satoshi se coloca também (mas não só) como uma forma de estar diante das coisas, lançando sobre elas um olhar capaz de estranhar o que se apresenta como familiar e banal. Em um mundo que vocifera o tempo todo, o romance de Nakasato escolhe o sussurro, modo sutil de expressar a beleza de onde menos se espera.

Ojiichan
Oscar Nakasato
Fósforo
168 págs.
Nihonjin
Oscar Nakasato
Fósforo
144 págs.
Oscar Nakasato
Neto de japoneses, Oscar Nakasato nasceu em Maringá (PR), em 1963. Doutor em literatura brasileira, é professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. O romance Nihonjin recebeu o prêmio Benvirá de Literatura em 2011 e o Jabuti em 2012.
Stefania Chiarelli
 É doutora em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e professora associada de Literatura Brasileira na UFF. Publicou o ensaio Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum e coorganizou coletâneas sobre literatura brasileira contemporânea. Sua publicação mais recente é Partilhar a língua – leituras do contemporâneo (7Letras, 2022).
Rascunho