Tempo de sobra

“Campo de sangue”, da portuguesa Dulce Maria Cardoso, condena os desocupados à loucura
Dulce Maria Cardoso, autora de “Campo de sangue”
01/09/2005

Todo mundo já ouviu, no auge do desespero provocado pela certeza de que não há solução para os problemas, que o tempo é o melhor remédio. Remédio esquisito, porque supõe que o que nos devora é o mesmo que vai nos salvar. Outras afirmações da sabedoria popular não têm relação direta com o sofrimento, mas com o melhor emprego do tempo. “Cabeça vazia, oficina do diabo…” — a oficina só se pode montar na cabeça das pessoas porque presenteamos o demônio com tempo de sobra. Voltamos ao sofrimento se considerarmos que as artimanhas do coisa-ruim não deveriam provocar prazer em quem lhe aluga espaço. Pelo menos é o que imagina quem profere a sentença, do alto da sua agenda lotada.

“Ô, fulano, vá procurar o que fazer.Vá ver se eu tô lá na esquina.” São outras representações para a necessidade de se dar funcionalidade ao tempo. A vagabundagem foi condenada quando as sociedades elevaram o paradigma do trabalho, do progresso e do lucro. A partir do século 17, a exclusão que encerraria, por exemplo, a loucura, em instituições totais, também excluiria do convívio social mais amplo os vagabundos, libertinos e portadores de doenças venéreas, cuja convivência, segundo Michel Foucault, estabeleceu um parentesco com culpas morais e sociais que ainda não se teria rompido.

Esbanjar tempo é a heresia do mundo superocupado que sabe bem representar os perigos da dissipação. Em Campo de sangue, romance da portuguesa Dulce Maria Cardoso — publicado em Portugal em 2002 e laureado com o Grande Prémio Acontece de Romance  —, o tempo mal gasto é “material perigoso nas mãos de quem não o sabe utilizar” (pág. 29). Essa relação é oferecida facilmente ao leitor pela insistência com que o narrador afirma esse perigo e pelo fato de o romance fraturar o presente da narrativa com os antecedentes de um crime brutal para o qual são chamadas a testemunhar quatro mulheres que têm em comum apenas um homem. Assim, a mãe, a senhoria, a ex-mulher e a rapariga grávida esperam em uma saleta desconfortável, ao longo de todo o texto, para dividir, com avaliadores das condições mentais do homem que cometeu um assassinato, a sua ignorância a respeito do crime.

A mãe, com seu rosário, reza esquecida de qualquer amor pelo filho; a senhoria da pensão onde ele vivia, satisfeita pela exposição midiática com que o crime favoreceu a engorda de uma indenização, desvela-se no batom vermelho desmaiado que lhe vaza pela boca e pelos dentes; Eva (os leitores poderiam ter se beneficiado com um nome de primeira esposa menos óbvio) parece incomodada com o pouco prestígio que seu muito dinheiro tinha para poder passar à frente das outras no depoimento e a rapariga, paixão tardia deflagrada por um equívoco. Todas contra a mais jovem, que empina “a barriga volumosa (…) exagerada num corpo tão miúdo” (pág. 14). A cada capítulo de espera dessas mulheres, com as quais se assenta o leitor, saturado de referências bíblicas, o passado, a narração de encontros com elas.

Sobre o equívoco, talvez ele, mais que o tempo tão insistentemente danado no texto, seja a força motriz do crime. Em um dos rasgos do passado, quando o homem esperava Eva para receber os presentes do segundo casamento dela, cheques assinados, roupas novas, cartão e dinheiro, ele vê uma jovem. O homem vivia do dinheiro do marido de Eva porque havia desistido dos empregos que não fossem ficcionais. O encontro com a ex se deu, como outros, em um lugar recuado, pois ele e Eva “portavam-se como amantes” (pág. 15). Depois de se despedirem, violando a regra da clandestinidade com um beijo na boca em público, o homem saiu a caminhar e viu uma adolescente que estava na praia com a família. Ainda na companhia de Eva, tinha visto a mesma jovem aos beijos com o dono da esplanada. Só depois, porém, o homem parou a repará-la. Eva o tinha surpreendido a olhar para a jovem e tinha desnudado o ridículo da sua situação. “Tenho é pena de ti” (pág. 23). Assim, precavido, procurava disfarçar a excitação causada pela contemplação do corpo mal coberto com um biquíni cor de mel, pelo pezinho que sustinha uma corrente com um coração e pelo louro dos cabelos.

Toda a precaução, entretanto, deita-se por terra quando o homem se sente surpreendido pelo olhar dos pais da adolescente e, desviando-se do sítio em que ficava muito perto da família, sem prestar atenção à areia por onde caminhava descalço, pisa em cheio numa garrafa de vidro quebrada. Quem se apresenta a socorrê-lo é justamente a família da moça. No caminho para o hospital, ainda o desejo de olhar para trás, para o banco em que, velada pela mãe, senta em silêncio a menina, e a vergonha de mostrar o pé com imensas unhas sujas, esquecidas de tesoura. Dias depois, já restabelecido, o homem inicia a sua busca pela adolescente, corre toda a cidade, dirige-se ao camping em que a família passava férias quando os conheceu, e nada. Na verdade, a busca só se encerra quando o homem encontra uma “atriz” para a sua ficção de amor, outra moça loira, com ar desleixado, criança por pentear, que aceita as condições da representação.

No momento em que ele aceita o simulacro, quando o equívoco vira verdade, o homem se vê tomado pelo delírio que aos poucos põe em risco a integridade de suas mentiras inofensivas e cotidianas. Sim, o homem mentia a todos equilibradamente: à senhoria, que o julgava contador em uma grande empresa (e, para sustentar isso, ele era cumpridor dos horários comerciais); à mãe, que também o julgava bem empregado e a quem ele representava o papel de bom filho, a quem visitava em seu aniversário, carregado com presentes que ela desgostava; a Eva, que julgava que ele precisava dela; e à rapariga, simulacro da outra, para quem ele era um louco manso.

A mentira é uma opção consciente dentro da rede de ficções que marca as nossas práticas sociais. “Tenha um bom dia, como vai?” Nós transformamos “ficções sociais constantemente em fatos e os [vivemos] como tais, sem que o senso comum sequer desconfie desta situação” (Heidrun Krieger Olinto, em Literatura e cultura). A pergunta de Iser — “por que os seres humanos precisam de ficções?” — motivou a Teoria do Efeito Estético e evidenciou uma disposição humana básica que não se encerra nos estudos literários (João Cezar de Castro Rocha, em Literatura e cultura).

As mentiras do homem de Campo de sangue para a sua senhoria respondem aos ditames da ficcionalidade da própria pensão, simulacro de um lar para abandonados em geral, aposentados, loucos, pobres e outros hóspedes transitórios, espaço ameaçado de demolição. Em comum com as outras mentiras para Eva, para a mãe e para tantas pessoas, havia a opção consciente do personagem por atender ao que era esperado dele; o que não pode ser vivido como verdade, sê-lo-á como mentira. Quando elabora suas narrativas, o personagem atua em mundos que agitam a sua rotina de tempo dissipado e, às vezes, é feliz.

A paixão exige novas ficções, precisa de cenário — uma casa nova com tapete à entrada, e gestos largos de palco — passeios de mãos dadas e longos beijos sem discrição. As velhas mentiras brandas, feitas para agradar, de um tempo sem amor, se vêem assim em perigo. Como equilibrá-las? Sem nova argumentação, só, pois a moça cansa de um amor tão excessivo, o homem descobre a agressividade e o crime. Não pode vencer a busca, não pode achar a moça, mas pode tentar anular o poder daqueles que testemunham o seu fracasso real. Ameaça Eva, machuca seu braço, grita com a senhoria e se compraz com seu novo papel, a ficção do super-homem que perdeu Raskolnikov (de Crime e castigo) até a sua redenção, e que não pôde salvar Carolino e Sofia (de Aparição).

De volta à pensão, depois de mais uma procura infrutífera pela jovem, o homem a vê na sala de tevê da pensão. Ele a vê sem que ela lá estivesse, pois sentada na sala estava outro simulacro, uma jovem vizinha que aguardava a chegada dos repórteres que fariam uma matéria sobre a demolição de prédios antigos no bairro — “Aproximei-me, mas ela fez que não me reconheceu, faz sempre a mesma coisa (…) aproximei-me dela e percebi que ia fugir-me outra vez (…), foi então que lhe pedi o coração (…), eu chamei-a com jeitinho e ela veio, tinha escondido a faca (…). Ela assustou-se (…) não sei como não conheci mais cedo o medo que sou capaz de provocar, todos me olham doutra forma, sempre quis ser respeitado” (pág. 258). No depoimento da senhoria, ela afirmara que um pouco antes de conseguirem segurar o assassino, já era então tarde demais para a vítima, o homem, sem direito a um nome, ainda estava sobre o corpo da moça com a mão no peito aberto a procurar qualquer coisa que desse significado ao seu nada.

O caso tem grande repercussão. No exato momento do crime, havia jornalistas na pensão. “Depois de vários meses de investigação concluiu-se que o alegado homicida e a vítima do crime da pensão da avenida tinham um relacionamento amoroso há alguns anos” — nos jornais, a mentira em pele de verdade, a ficção que dá sentido aos apetites dos leitores de manchetes. Em nosso tempo, mais real que o objeto, a mercadoria ou o crime, só a imagem que ordena o desejo (Eugênio Bucci, em Civilização e Barbárie).

Falsa pista ou representação literária de um juízo, o perigo do tempo dissipado pelo personagem é o que mais ameaça o romance. “O tempo continuava à espera dele, ainda podia escolher tudo, ainda não tinha esbanjado o futuro” (pág. 96). O narrador é penetra na festa sem graça de aniversário da mãe e emite, neste e em outros exemplos que podem ser recolhidos ao longo do texto, julgamentos que têm a ver com a funcionalidade do tempo. “Tinha tempo para não se esquecer de nada, do número de telefone do hospital em que Eva trabalhava, inutilidades que lhe ocupavam a cabeça e o ajudavam a passar os dias” (pág. 122). O tempo de sobra aqui só é ocupado em “inutilidades”, é quase a celebração dos perigos da oficina onde o diabo se assanha…

No romance, a voz narrativa compartilha espaço com o pensamento dos personagens, em pleno discurso indireto-livre. Este procedimento dividiria o peso do juízo do narrador com os “atores”, como no trecho “a pobreza é uma doença difícil de curar a partir de certa idade” (pág. 120), em que a voz do narrador poderia bem representar o pensamento de Eva. Entretanto, só de forma demiúrgica o homem poderia fazer um dueto com o narrador quando ele insiste em que “o tempo por gastar é realmente perigoso”, muito antes da desgraça do primeiro.

Campo de sangue condena o vagabundo à loucura e ao assassínio. O romance representa literariamente a exclusão do homem que não se mantém, que não procura trabalho, que mente para todo mundo, que se apaixona por adolescentes, que se equivoca e que é ridículo aos outros. Mas não era suficiente, o desconcerto viraria crime. Campo de sangue representa talvez a nossa prisão, a impossibilidade de viver como se quer, de dizer o que vem na telha, de amar quem o olhar escolher e de ser ridículo muitas vezes.

Filipe Flexa, no Jornal do Brasil, escrever ter sentido na escrita de Campo de sangue um sabor de Saramago. Eu não. Para além de parágrafos, vírgulas e frases finais, há uma voz que não se aproveita do senso comum para transformá-lo. A voz narrativa do romance de Dulce pode representar os valores do senso comum, e esta é outra possibilidade de atribuir um significado menos preconceituoso a tantos juízos, dividindo seu peso com uma coletividade. Mas se não subverte o repetido, endossa-o?

Internado no hospício, o homem pode descobrir um dia diferente, quem sabe (lembremo-nos do mesmo Raskolnikov já citado): “Tem sono. Fecha os olhos. Adormece sem esperar que a aranha mate a mosca. Amanhã é outro dia e com sorte um dia diferente” (pág. 264); “naquela noite sentia-se incapaz de pensar demasiado, de concentrar o pensamento num objeto qualquer, de resolver um problema com conhecimento de causa. Só experimentava sensações, a vida substituíra o raciocínio” (Crime e Castigo). No espaço de exclusão do delírio que para se valer precisa subscrever a periculosidade da loucura, a possibilidade de um dia diferente é, apesar de tudo, uma bela imagem.

Mas se o tempo de sobra é motivo de vergonha hoje, para quem amarga o desemprego ou para quem tem de mostrar serviço para os vigias de cartão de ponto, há rasuras… A malandragem já se riu do esforço e, no seu tempo livre, só de namoros feito, apresentou as alternativas — é ruim da cabeça ou doente do pé.

Campo de sangue
Dulce Maria Cardoso
Companhia das Letras
272 págs.
Marcella Lopes Guimarães

Professora Associada II de História Medieval na UFPR, membro permanente do PPGHIS/UFPR, Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 do CNPq. Escritora e criadora do blog Literistorias.

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