Sob a pele da cidade

Em "Gaiolas de concreto armado", Paula Novais combina luto, pandemia, violência e milícia numa trama que expõe as fissuras ocultas da paisagem carioca
Paula Novais, autora de “Gaiolas de concreto armado” Foto: Robert Carraco
01/10/2026

A pandemia de covid-19 foi um divisor de águas no mundo. No Brasil, em seu período mais letal, chegou a registrar 4.249 mortes em 24 horas, em abril de 2021. Até 8 de setembro de 2025, o país acumulava 716.626 vítimas do vírus. Esses números apontam para um acontecimento que ainda gera consequências físicas, psicológicas e sociais, entre elas o luto. A perda, aqui, afeta tanto o indivíduo quanto o coletivo, e cabe à literatura tentar, de algum modo, elaborar e revisitar esse período nefasto sob outras perspectivas.

Como aponta Helena Katz, no ensaio O que lateja na palavra pandemia, o próprio uso da palavra “pandemia” universaliza os efeitos clínicos da doença, mas deixa de lado toda uma rede de desigualdades raciais, econômicas e culturais dos lugares em que ela atingiu seu ápice de mortalidade. Para a autora, essa relação imbricada e, por vezes, díspar entre o global e o local faz parte da forma como a globalização e o sistema capitalista administram esses acontecimentos: universaliza-se para que demandas das microrrelações caiam no esquecimento. Contudo, existem sujeitos que questionam essas engrenagens por múltiplos meios.

Assim, entre os lançamentos recentes da literatura brasileira contemporânea, encontra-se um romance ambientado no período da pandemia de covid-19, da aplicação das vacinas e da reabertura de determinados serviços.

Luto e violência
Gaiolas de concreto armado, romance de Paula Novais, gira em torno de Nerissa, protagonista que vive no Rio de Janeiro, é nordestina de nascença e cresceu no Espírito Santo, tendo sua vida modificada pelo poder mortuário da pandemia. A morte da mãe e A perda da bolsa de mestrado, motivo que a levou a sair da casa de sua mãe para estudar, são catalisadores da trama. Ao enfrentar as dificuldades provocadas pela perda e pela elaboração do luto, que a deixa estagnada em seu apartamento em Copacabana, uma solução para pagar as dívidas é pedir socorro à vizinha Alzira, que a apresenta ao síndico do prédio e agiota, Bino.

Do empréstimo que Nerissa não consegue pagar resulta um estupro como “forma de pagamento” dos juros e, depois, uma sede de vingança. A partir daí, ela começa a investigar Bino e seus esquemas envolvendo bandidos, milícias e lavagem de dinheiro, fazendo com que se aproxime da vizinha e, posteriormente, passe a trabalhar para uma política que investiga as fraudes e coerções praticadas por esses sujeitos contra moradores de diferentes localidades do estado do Rio de Janeiro.

Paula Novais constrói seu romance demarcando e destacando a cidade do Rio de Janeiro como uma personagem. Nerissa vive em Copacabana, na Zona Sul, caracterizada no imaginário como opulenta e rica, mas o que o leitor encontra é um bairro que difere da imagem associada ao lugar. Funcionando como uma flâneuse, a personagem descaracteriza a localidade apresentada como ponto turístico, conferindo-lhe novos contornos. Essa outra visão do bairro se dá a partir dos encontros e do desenvolvimento da trama que a protagonista vivencia, mostrando ao leitor que nem tudo que reluz é ouro.

Cidade em camadas
O fato de Nerissa ser uma personagem enlutada parece indicar que tudo girará em torno desse tema, mas, como uma matrioska, ou melhor, como a própria cidade carioca, com seus inúmeros viadutos, pontes e ligações entre zonas e bairros, a narrativa transporta o leitor para outras camadas. A morte da mãe é a ponta do iceberg para abordar as relações conflituosas e, por vezes, escusas existentes nas grandes capitais brasileiras, o envolvimento de cidadãos com o crime organizado, o negacionismo científico e aquilo que a pandemia e o governo do então presidente Jair Bolsonaro, identificado com a extrema direita, trouxeram à tona.

[…] A Covid desmantelou o pouco que minha mãe e eu havíamos construído e simplesmente parei de acreditar que pudesse haver um céu que nos protegesse. Pensando melhor, acho que a descrença se instalou de forma definitiva quando eu soube pelas enfermeiras o quanto minha mãe estava lutando pra sobreviver na ala dos intubados.

O leitor acompanha, então, o cartografar de um bairro que perpassa outras áreas da cidade. Na ida ao Posto 3 ou ao Posto 6, descobre-se, por exemplo, que Bino, agiota e grande controlador dessa cena marginalizada na parte nobre da cidade, afeta todos os moradores do prédio e, além disso, interfere no fechamento de seus concorrentes na orla, pois vende a cerveja mais barata do que o normal.

Gaiola urbana
Logo, a gaiola realçada no título do livro se apresenta como uma imagem claustrofóbica que atravessa todo o romance. Apertado, labiríntico e quente. Essa sensação, tão bem desenvolvida por Novais, leva o leitor sempre a esperar que algo aconteça, pois há constantemente algo à espreita. A imagem da gaiola de concreto ganha novas conotações quando percebemos a saída do microespaço — o apartamento de Nerissa, com sua mancha de mapa-múndi —, para uma escala mais ampla, que envolve a investigação da milícia, a construção de prédios com áreas ilegais e o desabamento dessas construções, com vítimas fatais. Uma boa representação desse espaço marcado pela ilegalidade é o rato que rói a estrutura do prédio da política corrupta, onde a protagonista passa apenas um dia trabalhando:

 […] A tampa vinha sendo empurrada, de dentro para fora, por algo no interior do concreto roído: faltava pouco pra se desprender por completo e… bum! Uma ratazana cinza-amarronzada, medonha, despencou emaranhada no pedaço de fio desencapado. Ela se debatia furiosamente, determinada a roer o fio. Em breve, estaria livre.

Ao abordar temas tão importantes e constantemente retomados na televisão e nas redes sociais, Novais trabalha de forma eloquente a linguagem, mesclando a oralidade carioca com referências como o assassinato de Marielle Franco e a luta de vereadoras para descortinar esses chefões das milícias. A referência a Eunice Paiva, no final do romance, remete ao apagamento de arquivos ocorrido durante a ditadura e às formas de silenciamento presentes nos dias de hoje, seja com os senhores do crime, ricos e vivendo em ponte aérea, seja com os milicianos, mandando matar quem atravessa o caminho deles.

Afeto e resistência
Novais brilha nessa dança densa e costurada dos ecos do Estado nas relações cotidianas das personagens. O prédio onde a protagonista vive escancara toda uma problemática da capital fluminense. Nerissa conduz o leitor por esse emaranhado de ligações, tramas e dramas sem deixar o humor de lado e encontrando no afeto uma fuga à densidade do contexto. Suas relações com Celso, que mora no mesmo prédio e tem medo do síndico, e com Zelone, o jornalista que quer mudança e justiça, brotam de um contexto violento e perturbador, no qual a protagonista corre risco de vida à medida que se aprofunda nos esquemas que começam com o agiota Bino.

Outro ponto importante é a forma como a amizade entre Alzira e Nerissa se articula a partir da figura de Bino. A diferença de idade que separa as duas demarca o poder da violência exercida por esse homem, que estupra ambas em momentos distintos. A relação de ajuda mútua, então, torna-se a mola propulsora para a transformação e a mudança de olhar sobre o lugar onde vivem; afinal, morar num bairro de prestígio não é sinônimo de distanciamento da violência e do crime organizado: é uma falsa sensação de proteção.

Portanto, a costura entre instâncias que podem ser lidas como díspares num primeiro momento cai por terra no decorrer do romance. A covid-19 não é um contexto acessório; ela é atualizada ao longo da história. Como abordado nos primeiros parágrafos, o local se instaura na universalização da pandemia. As especificidades aparecem nos detalhes da investigação sobre o síndico, na rede de milícias e na forma como isso afeta desde os bairros de classe alta até a favela.

Paula Novais constrói um romance de muitas camadas, com ganchos bem estruturados que prendem o leitor. Ágil, divertido e bem-humorado, especialmente nas conversas entre Nerissa e Alzira e na disparidade de comportamento entre as duas, o romance constrói uma relação marcada pelo companheirismo e pela proteção mútua. Gaiolas de concreto armado é um romance bem ambientado, conectado, ensolarado e atravessado por sons de tiros ao fundo, rasurando as paisagens paradisíacas do Rio de Janeiro com a realidade que grita e se encontra nas entranhas da cidade.

Gaiolas de concreto armado
Paula Novais
Dublinense
320 págs.
Paula Novais
Nasceu em Minas Gerais e mora no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro livro em 2022, Ambidestria. Em 2025, ganhou o Prêmio Caminhos de Literatura com seu romance de estreia, Gaiolas de concreto armado.
Douglas Sacramento

É professor, crítico literário e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA).

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