Se o estilo de um escritor é o que torna o seu texto único e inconfundível, permitindo-nos identificá-lo em poucos parágrafos ou até mesmo em um par de frases, há que reconhecer que Luis S. Krausz é hoje um dos nossos principais estilistas literários. Os romances O outono dos ipês-rosas e Natação — seus dois mais recentes “exercícios de estilo”, publicados, respectivamente, em 2024 e 2025 — consolidam a técnica de Krausz e marcam um caminho próprio na literatura brasileira contemporânea.
Muito pouco ou quase nada “acontece” ao longo das páginas das duas obras, ambientadas na cidade de São Paulo. Talvez como consequência (ainda que não necessária) da ênfase no estilo, o enredo se encontra atrofiado. Trata-se evidentemente de uma opção do autor. Em O outono dos ipês-rosas, o narrador nos fornece, do início ao fim e repetidas vezes, uma série de informações sobre o protagonista — Martin Stieglitz. Página após página, vamos nos familiarizando com as origens judaico-austríacas de sua família, com o seu ambiente sociocultural, sua rotina, suas opiniões, suas antipatias, seus “gôstos” (como faz questão de grafar o autor); vemos fotos, inseridas no texto, de objetos que herdou de seus antepassados ou que ganhou de presente em alguma ocasião; e somos direcionados para uma miríade de notas de rodapé, que integram a narrativa em condições de igualdade com o corpo principal do texto. Os mesmos expedientes se estendem também a outros personagens que de alguma forma interagem com Martin Stieglitz.
Já em Natação, repete-se a fórmula da enumeração de informações, desta vez sobre o personagem Alberto Schwartz — estudante de um curso noturno dedicado à Ilíada, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, e frequentador das aulas de natação do professor japonês Kan-Ichi Sato, no bairro de Pinheiros. Durante o dia, Alberto trabalha num escritório de importação e exportação na avenida Paulista, vivendo a angústia de sentir-se inadaptado e insatisfeito. Nesse romance, Krausz utiliza menos recursos, reduzindo as oitavas de sua partitura. Não há notas de rodapé e as fotos estão limitadas a apenas sete. O leitor vai entrando aos poucos no universo do protagonista e dos que com ele se relacionam, em trechos alternados do livro.
E isso seria tudo, não fosse pelo fato de que romances não se resumem à ação que tem ou não lugar em suas páginas.
Alquimista literário
Para entender de onde saem a beleza e a força das duas últimas obras lançadas por Luis S. Krausz, há que retornar à questão do estilo e tentar descrever as características gerais de seu texto. Pois bem, em poucas palavras, Krausz é um alquimista literário, que mistura as mais diferentes influências e materiais no caldo grosso de seus romances. Ao incorporar em sua escrita os vícios e virtudes de diversos escritores, ele termina por amalgamá-los, produzindo a receita secreta de sua própria prosa. Cabe a pergunta: haverá por acaso, além da imitação, algum outro caminho que leve à originalidade?
Nos romances de Krausz, encontraremos as repetições melodiosas de Thomas Bernhard (as expressões “como se sabe” e “por óbvio”, utilizadas até mesmo quando não se sabe ou quando não é óbvio, são onipresentes); as imagens integradas ao corpo do texto à moda de W. G. Sebald e Javier Marías; ou ainda as notas de rodapé de Borges, que são parte inseparável do conjunto ficcional de seus contos; para citar apenas algumas das influências que a leitura de O outono dos ipês-rosas e de Natação evoca. Poderíamos seguir com a ficção judaica ou com a minimalista, e talvez terminássemos abarcando toda a literatura, porque uma coisa é certa: o leitor de Luis S. Krausz ouve vozes. Muitas vozes. Mas também ouve música! Seus romances parecem concebidos como sinfonias, onde as frases desenham temas, que serão desenvolvidos e repetidos com variações; frases que, em seu microcosmo, já contêm por si sós uma série de repetições:
Martin Stieglitz aprecia o azeite e Martin Stieglitz aprecia as azeitonas. Ele aprecia o azeite mais do que aprecia as azeitonas. Aprecia, também, azeitonas em azeite — uma especialidade grega que ele provou num restaurante grego da Rue Mouffetard, no 5ème arrondissement de Paris.
Fator vital na concepção harmônica de ambos os romances é o humor. Por sinal, esse humor sutil, regado com ironia e tintas judaicas, é um dos elementos que sustentam o equilíbrio das duas narrativas. Não há que subestimar a sua importância. O fato é que, sem o contrapeso do humor, a melancolia e a falta de enredo das obras resultariam num canto monocórdico, capaz de empobrecer o texto e cansar o leitor. Krausz esquiva esse risco, introduzindo notas de scherzi nos seus adagi, e graças a essa pequena arte da fuga logra escapar de uma das armadilhas mais traiçoeiras para um narrador: a de levar-se demasiado a sério.
E, sim, há muita melancolia em seu texto. Sobretudo, porque a falta de enredo em Krausz é uma das faces da extinção. O outono dos ipês-rosas descreve em tom nostálgico o mundo dos antepassados do protagonista, recordações da casa dos mortos, um universo sepultado para sempre; a própria cidade de São Paulo se revela o espectro embrutecido e gangrenado do que havia sido num passado não muito distante. Em Natação, a dicotomia apolíneo-dionisíaca bastante presente não se resolve em confronto, mas sim num olhar entristecido, de quase pena; e os velhos professores de grego e latim são o retrato de uma realidade cujos dias estão contados, parecendo prestes a exalar seus últimos suspiros, para finalmente juntar-se às matérias que ensinam, já mortas há muito tempo…
Há alunos que veem os velhos professores de grego como se eles fossem os últimos exemplares vivos de uma espécie em extinção: a dos estudiosos de línguas mortas.
Um aspecto negativo de ambos os livros que não se pode deixar de mencionar é a questão da revisão editorial. Tanto em O outono dos ipês-rosas como em Natação encontram-se vários pequenos erros de revisão, as chamadas “gralhas” no jargão tipográfico. Aqui, falta uma ltra; la, um acento; acolá, invertem-se lertas. Como se sabe, não há leitor que goste disso. Os erros de revisão são um ruído no texto. Isolados, podem até ser perdoados, mas a partir de certo número interferem na leitura de uma obra. Pois bem: as gralhas gralham na edição da Cepe e voltam a gralhar na da Alameda. Não cabe a Luis S. Krausz — e a nenhum autor — entregar manuscritos impecáveis a suas editoras. O trabalho de revisão é parte do processo editorial e é de incumbência das editoras. Claro que, como se sabe, as editoras no Brasil enfrentam inúmeras dificuldades; livros não são um produto rentável em nosso país, sobretudo os de ficção. Portanto, não se trata aqui de criticar quem exerce a árdua tarefa de editar livros. Tudo o que se pretende é dizer que romances da qualidade dos de Luis S. Krausz mereceriam revisão mais cuidadosa, de forma a evitar que as gralhas se infiltrem na orquestra e prejudiquem a execução da música.