Simonia

"Perigo na esquina", de Tailor Diniz, enfrenta a violência urbana brasileira ao expor a intersecção entre crime, religião e política
Tailor Diniz, autor de “Perigo na esquina”
01/02/2026

Na realidade brasileira, a escrita de um romance policial se torna problemática. É o que pensa grande parte dos leitores e dos críticos a respeito desse gênero literário. Como um detetive pode acompanhar um caso, seguir um suspeito, investigar algo além de um simples adultério, numa realidade tão adversa como a nossa, com o crime organizado atuando em todos os lugares e esferas? Investigar um terreno minado como o das grandes cidades seria o mesmo que pedir em troca uma pesada carga que poderá varrer o investigador da face da terra. Num país em que quase a totalidade dos políticos está envolvida em suspeitas de fraudes, alguns eleitos por grandes grupos criminosos, funcionários de alto escalão e mesmo gente do Executivo usufruindo de esquemas de desvio de dinheiro público, que sentido teria um romance policial? Que obra daria conta disso? Nas estantes de uma livraria (Graças a Deus, elas estão voltando), ao descobrirmos volumes de Conan Doyle, Agatha Christie e de Georges Simenon, logo poderemos concluir que, caso esses autores houvessem escolhido como ambiente para investigação qualquer grande cidade brasileira, não demorariam a desviar a ação para paragens mais brandas. Talvez o detetive particular daqui fique circunscrito a pequenos casos, como investigar a suspeita de adultério ou procurar por um familiar desaparecido do cliente que lhe chega ao escritório.

É o que, a princípio, acontece no início do livro de Diniz. No entanto, quando a narrativa avança, concluímos que estamos enganados e que a literatura policial é possível, ainda que se apresente no livro de modo sorrateiro.

Partindo de uma investigação básica, Boccanera, excêntrico personagem de Tailor Diniz, esbarrará na grande criminalidade, envolvendo todos os níveis de malfeitores, como cafetões, traficantes, assassinos, políticos corruptos e pastores evangélicos venais. Portanto, vemos que a literatura policial, em nossas praias, ainda é possível, sim, e deve ter uma existência bastante longa. Basta saber como tratar do assunto. Ainda que o detetive não venha a resolver o problema maior que nos aflige — e nem é esse seu objetivo —, consegue mostrar o resultado na “pequena missão” para a qual foi contratado. No entanto, no afã de encontrar o desaparecido, ele coloca sua vida em risco.

Grande sacada
A grande sacada do romance é a escolha de um pastor evangélico com pretensões políticas a procurar o detetive para que este lhe encontre o filho sumido há anos. O autor é bastante corajoso ao explorar o tema muitas vezes envolvido em enormes trapaças, e que grande parte da imprensa não gosta de discutir. Ainda no primeiro capítulo, descobrimos que o pastor não procura o filho por simples amor paterno. A ação se desenvolve no centro de Porto Alegre e nos bairros adjacentes. Ediraltino Canassanta — esse é o nome do pastor — teme que o filho lhe coloque em complicações, já que é o responsável por uma próspera igreja e que pretende se candidatar a deputado federal nas próximas eleições, tendo como patrocinador o presidente da República.

O livro contém todos os ingredientes necessários para o desenvolvimento de uma boa história. Há duas mulheres quase fatais: Camila, prostituta e amiga do detetive, que o auxilia em algumas missões; a outra é a mulher do pastor, que procura Boccanera imediatamente após visitá-lo com o marido e o presenteia com quantias exorbitantes em dólares, exigindo ser informada antes do marido sobre o andamento da investigação. Não demora para se perceber que essa mulher “não é nada santa”, como afirma uma personagem.

Sempre se deparando com o que há de mais podre e temível na cidade (a prostituição, de mulheres e de travestis, a venda de drogas e a disputa pelo domínio de território por facções da criminalidade etc.), Boccanera, à sombra disso, percebe a intensa luta política, onde aparece como personagem o presidente da República do período anterior (2019-2022), no largo envolvimento que teve com os evangélicos.

Boccanera mora e trabalha num pequeno estúdio, com a sala dividida por um biombo que esconde a cama, uma mínima cozinha e o banheiro. A vantagem é que o apartamento permite apreciar o pôr do sol no Guaíba. Nem consta que esse divertido detetive tenha uma arma. Como ele irá se sair em meio a criminosos extremamente cruéis? E os “religiosos” não são exceção.

Durante o percurso deste quase inofensivo detetive, que não é da polícia nem tem ligação com ela, muitas vezes tememos pela sua vida: será que se sairá bem? Em geral, os romances policiais apresentam o detetive vitorioso no final, mas, vá lá, estamos na pós-modernidade, quem sabe ele morrerá e o autor arranjará outro método de investigação?

Convincente
É bom ressaltar que, quando sentimos essas dúvidas, significa que o romance é convincente e passa a ser uma obra que já não nos apresenta simples personagens, mas homens e mulheres que, para nós, leitores, são pessoas de verdade. A partir de então, cabe a quem terá (e tenho certeza de que serão muitos) o livro nas mãos usufruir da história bem articulada e seguir o percurso dos protagonistas Boccanera e Camilinha, como também perceber a malícia e o mau-caratismo do pastor Canassanta (nome sugestivo, sobretudo, o “santa”), e de sua esposa Solange. Muito nobre um pai procurar um filho desaparecido, muitos vão pensar, mas o verdadeiro motivo pelo qual ele pretende encontrar o filho, que se chama Júlio César e pode atrapalhar a vida política do pai, cabe ao leitor descobrir.

O livro se desenvolve em dezenove capítulos. Todos eles antecipam numa página que antecede cada capítulo um trecho desenvolvido no seu interior e que provoca algum suspense.

O romance apresenta ainda deliciosas descrições de cenas de sexo, protagonizadas pelo detetive e sua amante. Além delas, o livro é regado por muito uísque e cerveja. O que se pode criticar no romance são algumas reflexões filosóficas e literárias do detetive, que talvez sejam reflexões mais do autor do que do personagem, que não demonstra tamanha cultura acadêmica, cujas citações estariam acima de seu interesse de vida e quantidade de leitura.

Outro ponto a se criticar é a idealização da figura da prostituta. Camilinha é tão bonita, tão mimosa, que é difícil acreditar em sua verossimilhança como profissional do sexo.

Voltando ao início desta apreciação crítica, quando menciono a possível dificuldade em escrever romances policiais no Brasil, talvez Camila seja um trunfo a que todo escritor do gênero tenha o direito de recorrer, como, vez ou outra, acontece com o jogador que esconde uma carta na manga. Não me digam que romancistas são trapaceiros; afinal, o que é a ficção?

Perigo na esquina
Tailor Diniz
L&PM
248 págs.
Tailor Diniz
É escritor, roteirista e pintor. É autor de A superfície da sombra (Grua, 2012), adaptado para o cinema e traduzido na Bulgária. Crime na Feira do Livro (Dublinense, 2010), traduzido na Alemanha, e Transversais do tempo (Bertrand Brasil, 2006). Foi finalista em vários concursos literários, como o Jabuti em 2024, com Os canibais da Rua do Arvoredo (Lucerna, 2023).
Haron Gamal

É doutor em literatura brasileira pela UFRJ e professor de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Autor dos livros Magalhães de Azeredo – série essencial (ABL) e Estrangeiros – a representação do anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris).

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