O segundo romance da espanhola Xita Rubert, Aconteceu em Key Biscayne, narra a história de um pai e seus dois filhos adolescentes durante uma temporada na paradisíaca ilha citada no título, localizada em Miami-Dade, próxima à cidade de Miami. O livro ganhou o Prêmio Herralde de Novela de 2024, dividido ex aequo entre Rubert e a chilena Cynthia Rimsky, autora de Clara e confusa, recém-lançado pela Relicário.
A família em questão parte para Key Biscayne por conta de uma decisão do pai, Ricardo, professor universitário que resolve se mudar de Boston para Miami. O objetivo é passar uma temporada com os filhos (um menino e uma menina) na ilha, como parte de um acordo realizado com sua ex-esposa. Esse é o ponto de partida de uma narrativa que se abre em diversas veredas, cujas principais são os atritos familiares entre pai e mãe, os confrontos culturais de uma família espanhola nos Estados Unidos, a ambiguidade paterna e a crítica social à vida em Key Biscayne. A narradora do romance é a filha. Anos depois, ela busca rememorar o que teria acontecido naquele período na ilha, época em que tinha apenas doze anos. A instabilidade narrativa e a dúvida que ela lança sobre alguns acontecimentos moldam uma história que se mantém nebulosa, sobretudo em seus pontos mais delicados e controversos. O que seria real e o que seria imaginado são questões que a narradora se coloca desde o início e que acabam por fazer parte da estrutura narrativa:
Compartilhamos o ano em Key Biscayne, mas não vivemos exatamente o mesmo; cada um se lembra dos acontecimentos à sua maneira, e não da maneira que quer, mas da maneira que pode.
A narrativa também se vale de um clima de mistério, sugerido pelo título. O leitor espera descobrir o que teria acontecido em Key Biscayne e o livro joga com essa atmosfera próxima à de um romance policial. No entanto, o que encontramos são pistas falsas, já que o que de fato teria acontecido se mantém oculto por conta das ambiguidades da narração.
Figura paterna
Ricardo e sua natureza dúbia são pontos de destaque no romance. O pai, um intelectual que a princípio impressiona os moradores da ilha, na intimidade revela negligência na criação dos filhos e desenvolve estratégias para que os adolescentes se mantenham distantes da mãe, causando sofrimento a ela. Há certa perversidade e bastante irresponsabilidade em ações que acabam colocando os adolescentes em risco. Na relação com os filhos, a menina parece se manter do lado do pai, enquanto o menino, Nico, se distancia ao longo da narrativa. No entanto, o fato de os três estarem em uma mesma situação desafiadora — a adaptação a um novo lugar e a um novo estilo de vida — os aproxima.
A vida em Key Biscayne, ilha habitada por ricos que transitam em carrinhos de golfe e moram em mansões, é descrita de forma caricatural. Ainda que a intenção tenha sido “carregar nas tintas” para apresentar o mundo e a hipocrisia dos ricos da ilha, em alguns momentos, personagens e situações soam estereotipados. O romance parece retratar o que se costuma associar à Flórida de Trump, embora os acontecimentos remontem à era Obama. É como se um mundo de aparências e artificialidade já estivesse em gestação na rememoração da narradora. O preconceito dos ricos, as mulheres plastificadas, a adultização das meninas, a corrupção e o tráfico acabam entrando como temas do cotidiano na ilha. É interessante observar como o pai se adapta a essa vida. Apesar de, na vida privada, ridicularizar ou criticar os habitantes de Key Biscayne, Ricardo não deixa de aproveitar as festas para as quais é convidado, inclusive portando uma arma que ganha de presente, mesclando-se perfeitamente ao estilo local.
Em uma dessas festas, o diálogo entre os convidados expõe a mentalidade da maioria dos moradores:
[…] … essas colegas da sua filha… sim, as mães costumam ser atrizes latinas aposentadas, aposentadas aos trinta, como os jogadores de futebol! […] E os pais, enfim… agora o tráfico segue por outras vias, mas acredite: a droga, como as armas, sempre encontra novas maneiras de circular. […] Olha, não estou dizendo que todos os pais das meninas sejam narcotraficantes.
Ao rememorar os dias na escola que frequentou, a narradora também chama a atenção para a aparência artificial das colegas, com cabelos alisados e excesso de maquiagem, um “exército de meninas manequins”. A erotização precoce das meninas, sobretudo de Eleonora, personagem que se destaca entre as amigas da escola, introduz o tema do abuso e da exploração sexual, ainda que abordado de forma sutil. O modo escorregadio de narrar é uma característica da obra. Os fatos não são explícitos e ficam a cargo da interpretação do leitor. Acompanhamos o que é narrado em meio a comentários elípticos da narradora, que se fundem com reflexões sobre invenção e fabulação.
Revelar e esconder
O romance tem início com a descrição de um pênis que se revela à narradora. É o primeiro texto que o leitor lê, antes de acompanhar cronologicamente a sequência que vai da chegada à partida de Key Biscayne. Ao final desse prólogo, temos:
Haverá quem diga, com uma inteligência presunçosa:
“Lembrar já é mudar, a memória sempre tem algo de invenção”. Mas não. Sei que o buraco é mais embaixo. Não se trata apenas de que eu invente coisas, sem perceber, ao lembrar. Invento porque quero, porque preciso. O desejo de relatar esconde em mim outro desejo: o de substituir o real pelo narrado, o de modificar e suplantar o que aconteceu. Trata-se de narrar a realidade. Se fosse ficção, a ficção não faria falta.
Ao final da leitura do romance, é instigante voltar ao prólogo e refletir sobre a escolha dessa abertura da obra. O texto ganha outro contorno porque, para além de trazer o contexto sexual presente no livro, funciona como uma síntese do movimento da narrativa. Desde o início, palavras e imagens parecem querer revelar algo que se esconde.
Nada se esclarece sobre o que de fato teria acontecido em Key Biscayne, embora pistas permeiem a narrativa e comportamentos do pai possam ser questionados. Uma espécie de fuga de pai e filha deixa o final da temporada na ilha em aberto. Sendo assim, ficam as questões: o que havia entre pai e filha? O que ela quer dizer ao enfatizar que deseja substituir o real pelo narrado? As ambiguidades do pai revelam algo mais obscuro e que não poderia ser dito? A fabulação está a serviço dessa revelação por meio da escrita? O livro parece sugerir que sim. A descrição do pênis no prólogo remete a um episódio específico do romance, mas, em uma narrativa como essa, também pode se relacionar a outra cena não revelada. A confusão é proposital e reforça a ambiguidade da narração.
A obra oscila entre momentos até mesmo graciosos e cômicos por conta das situações vividas pela família na ilha, mas também guarda um lado bastante sombrio e perturbador. Como em qualquer bom romance, o livro não dá respostas, embora sugestione o leitor. A instabilidade narrativa opera como uma estratégia para que não seja possível cravar os fatos ocorridos em Key Biscayne, embora possamos, com espanto, imaginá-los.