“Este é Adão Ventura, um dos mais importantes poetas que temos em Minas, a terra de Drummond”, disse-me o crítico Fábio Lucas, em um almoço em que estavam vários intelectuais mineiros. Estendi a mão e Ventura a envolveu nas suas, num gesto caloroso. Ele me olhou com seu olhar luminoso, mas trocamos apenas algumas frases, ambos tímidos. Eu acabara de concluir o doutorado em Literatura Brasileira na USP. Adão Ventura desapareceu em 2004, antes que eu criasse o Fórum das Letras, em Ouro Preto. Hoje, ao ler a coletânea que reúne sua obra, com o título de um de seus livros, A cor da pele, tenho vontade de voltar no tempo, pois teria muito a conversar com ele. Felizmente, a literatura existe para tornar possíveis esses encontros — nosso diálogo se faz através dos poemas e textos de prosa poética que ele legou à posteridade.
Foram publicados em menos de uma dezena de pequenos livros, com tiragens limitadas, muitas vezes às expensas do autor. Felizmente, podemos conhecê-los graças à dedicação do poeta e pesquisador Fabrício Marques, organizador e prefaciador da cuidada edição que acaba de vir à luz, também com poemas avulsos e ensaio de Silviano Santiago.
A qualidade da produção poética de Adão Ventura, em um arco que vai do experimentalismo à afirmação da negritude, é surpreendente em uma obra tão concisa. Ele deixou poesia de forte teor político e meditativo sobre a violência do racismo estrutural no Brasil contemporâneo, sem jamais deixar de lado o rigor formal e estético. A trajetória do autor coloca em destaque a forma como a literatura espelhava os conflitos sociais, em meio às dificuldades da redemocratização do país.
O autor nasceu em 1939, em Santo Antônio do Itambé, vila presente em seus poemas, na época, pequeno distrito do Serro (MG). Advogado de formação, trabalhou na redação do Suplemento Literário de Minas Gerais, foi professor convidado de literatura brasileira na Universidade do Novo México, em 1973, e presidente da Fundação Palmares de 1990 a 1994. Estreou como poeta em 1970 e publicou, ao longo de três décadas, livros que hoje são considerados referência na literatura brasileira contemporânea. Sua bibliografia poética consiste dos seguintes títulos: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (1970), As musculaturas do arco do triunfo (1975), A cor da pele (1980), Jequitinhonha: poemas do vale (1980, com uma segunda edição revista e ampliada, de 1997), Texturaafro (1992), Duas vinhetas sobre uma viagem: África Austral (1990) Litanias de cão (2002) e a antologia póstuma Costura de nuvens (2006), organizada por Sebastião Nunes e Jaime Prado Gouvêa, amigos do poeta, à qual se soma o livro infantil Pó-de-mico de macaco de circo (1985).
Os dois primeiros livros, Abrir-se um abutre… e As musculaturas…, são frequentemente descritos como textos de prosa poética marcados pela “sobrecarga metafórica” e por um engajamento surrealizante e simbólico, não sem ironia, como no caso do poema dos porcos e algumas de suas obsessões:
eles adoram comidas finas, seus pratos são feitos de ouro. (…) — eles nunca se preocupam com colorações partidárias ou filosóficas, suas intenções são puramente gástricas.
Lógica onírica
A fortuna crítica sublinha nesses primeiros livros uma linguagem densa, por vezes de difícil legibilidade, em que a imagem tende a se autonomizar e a lógica onírica prevalece sobre a narrativa linear, aproximando Ventura de uma vertente brasileira da poesia de cunho surreal, em diálogo indireto com experiências do modernismo tardio e da poesia de invenção dos anos 1960. A dedicatória a Murilo Rubião e Affonso Ávila aponta nessa direção.
Essa fase inicial está profundamente atravessada pelo contexto da ditadura militar, momento em que a repressão política, a censura e o silenciamento de reivindicações coletivas (inclusive raciais) criam um ambiente em que a linguagem oblíqua, alegórica ou onírica se torna um recurso para tratar de temas interditos:
o jazer do mofo não dissipa a angústia do teu silêncio. A morte muitas vezes antecede as definições do corpo, mas o ventre da terra abriu-te em frutos.
Críticos como Affonso Romano de Sant’Anna e Édimo de Almeida Pereira (autor da dissertação Metamorfoses do abutre: a diversidade como eixo na poética de Adão Ventura) observam que esses primeiros livros já contêm uma sensação de desamparo social que mais tarde se articularam explicitamente às questões étnico-raciais.
Com Jequitinhonha: poemas do vale (1980), Ventura desloca o foco enunciativo em direção ao Vale do Jequitinhonha, região mineira marcada por desigualdades, migrações e culturas populares. O livro é frequentemente lido como um momento de inflexão, em que a experimentação formal se articula a um registro mais próximo da oralidade, da memória familiar e comunitária.
Em Jequitinhonha, Ventura ensaia um modo de inscrição do sujeito poético em um território histórico e simbólico concreto, produzindo uma “poesia da terra” que não se reduz ao regionalismo folclorizante. A experiência do Vale, elaborada em versos que oscilam entre a descrição de paisagens, o registro do trabalho e da pobreza e uma dimensão quase mística da convivência com o rio e a seca, condensa memória da escravidão, heranças de comunidades negras rurais e uma cultura popular atravessada por religiosidades sincréticas:
Em virgem da lapa
deposito
o meu peso
de ter nascido
neste mundo torto
Poemas como Relâmpagos de um cerimonial de partida da tropa descrevem mais o cotidiano dos tropeiros do que qualquer documento histórico:
É preciso curar a bicheira da mula,
polir os cincerros, remendar as bruacas,
descansar a madrinha da tropa,
secar os baixeiros, arrumar carne-seca,
cachaça da boa, toucinho magro,
embornal de farinha,
fazer a trempe,
apanhar gravetos e esperar o sol nascer
na larga da manhã.
Nesse livro, aparecem homenagens aos avós escravizados do poeta, como Teodoro da Fazenda, título do poema, personagem que aparece em outros livros:
Eu vaqueiro, vaga-lume de pés
na estrada, costureiro de cipós
e trovoadas, sigo luz de lua e
poeira de descampados.
Esses poemas dedicados a seus progenitores escravizados são os meus preferidos, de uma dor e beleza que transcendem o tempo:
Sebastiana Ventura de Souza
Sebastiana de Minas Gerais
Sebastiana de Minas
Sebastiana de Tal
vem limpar o chão
vem lavar a roupa
vem enxugar a louça
vem cantar cantiga
de ninar
para mim.
Assunção da negritude
Publicado também em 1980, A cor da pele é o livro mais conhecido e mais estudado de Ventura, visto pela crítica como o momento em que se dá a assunção explícita da negritude como eixo temático e político da sua poesia. A própria dedicatória — “aos que lutaram e lutam pela causa do negro no Brasil” — inscreve a obra em uma tradição de luta e resistência, aproximando o poeta de movimentos negros que ganhavam força no período da abertura política. O título do livro, replicado neste poema, já diz tudo:
para um negro,
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
Para um negro,
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
Ou neste outro, fortíssimo, com musicalidade de atabaques:
faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.
faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é cercado por estes muros altos
— currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.
faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.
O tema retorna até se tornar conciso e contundente como socos:
a cor da pele,
saqueada
e vendida.
a cor da pele,
chicoteada
e cuspida.
O efeito é radicalizado nesses poemas de “anáforas hipnóticas”, como refere Marques, “feito tambores do congado e das noites ancestrais”:
levar um negro ao tronco
e cuspir-lhe na cara.
levar um negro ao tronco
e fazê-lo comer bosta.
levar um negro ao tronco
e sarrafear-lhe a mulher.
levar um negro ao tronco
e arrebentar-lhe os culhões.
levar um negro ao tronco
e currá-lo no lixo.
Valor poético e social
Silviano Santiago, em ensaio incluído no livro, reconhece em A cor da pele tanto um valor poético quanto social, destacando a forma como o livro articula experiências pessoais do homem negro brasileiro com uma memória coletiva da escravidão, marcada pelo racismo estrutural e por formas cotidianas de violência. Poemas como Negro forro — incluído por Ítalo Moriconi na antologia Os cem melhores poemas brasileiros do século — exemplificam esse movimento:
Minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.
Minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.
Em Texturaafro (1992), Ventura radicaliza as implicações formais da escrita afrocentrada, experimentando recursos de fragmentação, descentramento do sujeito e montagem que a crítica relaciona ao contexto pós-moderno. Édimo de Almeida Pereira, na dissertação citada acima, dedicada à obra completa do poeta, lê Texturaafro como um livro em que a identidade negra é construída não como essência homogênea, mas como processo, textura de múltiplas vozes, referências à cultura afro-brasileira, religiosidades, música e imagens de corpo cindido pela experiência do racismo, como no poema Origem:
Vestir a camisa
de um poeta negro
— espetar seu coração
com uma fina
ponta de faca
dessas antigas, marca Curvelo,
em aço sem corte,
feito para a morte
— E acomodar
no exíguo espaço
de uma bainha
sua dor-senzala.
É em Texturaafro que a diversidade se torna eixo da poética venturiana, como lembra Édimo de Almeida Pereira, deslocando o foco exclusivo da cor da pele para uma constelação de temas: relações de gênero, religiosidade, memória, cultura popular, relação com a terra de origem e tensões urbanas. Nessa perspectiva, Texturaafro não apenas amplia o escopo da poesia negra no Brasil para além de modelos modernistas (como Jorge de Lima ou Raul Bopp), mas também inscreve a obra de Ventura em debates contemporâneos sobre identidades múltiplas, mestiçagens e interseccionalidade.
Litanias de cão (2002), último livro publicado em vida, é descrito pela crítica como o momento de maior explicitação de um olhar político sobre o Brasil. O livro é organizado em seções que incluem, entre outras, um conjunto de textos sobre Brasília, reunidos sob o título Brasília: ou reflexões sobre o poder, em que a capital aparece como metonímia de uma ordem política que corrói o corpo social:
o poder é boquirroto
e às vezes aborto
de um parto arrevesado…
Corrupção metaforiza esse vício como um “tumor maligno”:
Primeiro
o câncer começa a roer
o nó da gravata.
Depois
os óculos
depois
os ossos.
O poema evidencia a internalização da violência e do cinismo no tecido social. A crítica observa que, em Litanias de cão, Ventura retoma a densidade metafórica das obras iniciais, mas agora articulada a um discurso mais direto e seco, o que levou Rui Mourão a falar em “simplificação” expressiva, um estilo que tenta nomear o horror sem abrir mão de uma elaboração simbólica rigorosa. Nesse livro, Ventura também produz ácidos e desesperançados metapoemas sobre a palavra, que apontam para um desencanto até mesmo com a potência redentora da poesia, embora ela seja o veículo de expressão desses sentimentos, como em Limite:
e quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.
e quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.
e quando a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.
Sua inquietação se revelava também na tendência a republicar diversas vezes o mesmo poema, modificando-o, mesclando-o com partes de outros, enfim, em uma infinita reescritura, que aponta para o caráter impermanente da vida e da poesia:
Nesta mão eu te trago
a estrada suja de suor,
nela escrevi meu nome, dela
reconheci firma,
muitos anos se passaram até eu
chegar aqui,
com esse testamento
todo timbrado em armaduras e
distâncias.
O leitor de poesia terá de adquirir A cor da pele para conhecer as outras versões desse poema. Assim, poderá conservar na estante essa obra preciosa, para redescobri-la também em infinitas leituras, como na definição de Paul Valéry sobre a obra de arte.