Cristina Peri Rossi, escritora uruguaia descendente de italianos emigrados para a América do Sul, é a autora da antologia poética Nossa vingança é o amor, que reúne poemas de seus livros lançados entre 1971 e 2024. A organização e a tradução da obra ao português ficaram a cargo de Ayelén Medail e Cide Piquet, que cumprem bem uma missão mais do que relevante: praticamente apresentar Peri Rossi aos leitores e às leitoras brasileiros. Segundo sua pequena fortuna crítica, a poeta tinha apenas um livro publicado no Brasil, a despeito de ser considerada um dos grandes nomes da poesia em língua espanhola e de sua suposta participação no que foi considerado o boom da literatura latino-americana, afiliação que ela nega por questões geracionais, entre outras. De todo modo, Peri Rossi seria a única mulher a participar dessa seleta lista de contistas, romancistas e poetas. Somente nos últimos anos, finalmente, sua literatura foi traduzida mais fartamente (ou menos escassamente) por aqui, o que inclui o romance A insubmissa, publicado pela Bazar do Tempo.
Compõem Nossa vingança é o amor seletas, em número bastante equilibrado, de poemas pinçados de 18 títulos de Peri Rossi, de Evoé (1971, obra que causou escândalo na cena uruguaia) a Fata morgana (2024). Dessa extensa bibliografia poética é possível inferir a cadência constante da produção literária da autora, que não para nos livros de poemas. A autora é ainda romancista e contista, com uma longa lista de prêmios literários, inclusive o Cervantes 2021, o mais importante de língua espanhola, pelo conjunto de sua obra.
Nossa vingança é o amor reúne, além dos versos selecionados, os poemas originais em espanhol, o discurso da autora ao receber o Prêmio Cervantes, o posfácio da tradutora Ayelén Medail, além da bibliografia completa de Peri Rossi e de informações biográficas sobre ela e sobre seus tradutores no Brasil, no que resultam 400 páginas de leitura prazerosa e surpreendente. Ao final do volume, é possível lamentar que conheçamos tão pouco — e tarde — a poesia de Peri Rossi (e não apenas a dela, mas outras, vindas de países nossos vizinhos).
De professora politizada, atuante em partidos de esquerda uruguaios, e autora de textos na imprensa, em 1972, Peri Rossi tornou-se uma desconhecida migrante que aportava com sua companheira na Espanha também ditatorial. Questões como o exílio, o amor, a homossexualidade e o deslocamento são constantes em sua obra, representadas aqui em poemas tais como XI, de Estado de exílio, que trata do próprio sentido da escrita literária:
Nenhuma palavra nunca
nenhum discurso
— nem Freud, nem Martí —
serviu para deter a mão
a máquina
do torturador.
Mas quando uma palavra escrita
na margem da página na parede
serve para aliviar a dor de um torturado
a literatura faz sentido.
Ou este, à página 40 da antologia, que não apenas remete, mas arremete a leitora (e o leitor) a cenas íntimas e melancólicas do exílio, levando também ao enfrentamento de temas como os governos totalitários, as ditaduras do século 20 (e, afinal, a todas elas) e as migrações forçadas:
XIV
Aquele velho que lavava pratos
numa cafeteria em Saint-Germain
e de noite
atravessava o Sena
para subir ao seu quarto
num oitavo andar
sem elevador sem chuveiro
nem instalações sanitárias
era um matemático uruguaio
que nunca quis viajar à Europa.
Do livro Diáspora, à página 55 de Nossa vingança é o amor, o poema sem título mostra mais lados da história e, de quebra, confirma a perícia de Peri Rossi no manejo dos versos e das nossas emoções:
Antes do cessar-fogo,
John O’Neal Rucker foi o último soldado norte-americano
morto no Vietnã.
Seus pais se fotografaram
junto ao retrato de John O’Neal Rucker
em trajes de gala.
O nome do último vietnamita morto
nunca foi divulgado pelas agências de notícias.
Não se sabe se porque carecia de pais,
de fotografias
ou noites de gala.
É um espanto quando a literatura é capaz de provocar esses giros de visão, ponto de vista, leitura de mundo e outros mais, que não raro a boa poesia é exímia em fazer. Daí um de seus conhecidos perigos, segundo seus ameaçados e geralmente covardes detratores.
A homossexualidade aberta de Peri Rossi e a abordagem do tema em seus poemas aparecem fartamente nos comentários à sua literatura. Junto com isso, vem também a crítica ao patriarcado (incluindo a literatura de grandes nomes masculinos) e a perspectiva feminista que ajuda a tecer poemas como Genealogia, dedicado a Safo, Virginia Woolf e outras escritoras:
Doces antepassadas minhas
afogadas no mar
ou suicidadas em jardins imaginários
trancadas em castelos de muros lilás
e arrogantes
esplêndidas em seu desafio
à biologia elementar
que faz da mulher uma parideira
antes de ser de fato uma mulher
soberbas em sua solidão
e no pequeno escândalo de suas vidas.
Têm seu lugar no herbário
junto a exemplares raros
de variada nervura.
Ou a cena de Simulacro, pela qual não é difícil imaginar a vida comum, infelizmente com um frescor de dias atuais, embora o poema seja de um livro de 1996 (Aquela noite):
Quando um vendedor qualquer
(de detergentes, seguros, vídeos ou congelados)
bate na minha porta,
finjo ser uma mulher convencional
e respondo que meu marido não está.
Que compreensivos são os vendedores
com uma esposa desprotegida.
Me deixam o catálogo — para que meu marido o veja —
e dizem que voltarão em outro momento,
quando meu esposo tiver retornado.
Com o catálogo na mão,
— que não lerei —
me dirijo, outra vez,
à velha máquina de escrever:
único espaço
sem maridos
sem vendedores
sem catálogos.
Nossa vingança é o amor tem, além do mérito de apresentar parte da poesia de Cristina Peri Rossi aos leitores e às leitoras brasileiros, o poder de formar admiradores dessa escritora, apenas tardiamente difundida por aqui. A autora seduz pela força de seus versos, cheios de crítica e ironia, além da origem no espanhol doce, apontado por um de seus personagens, e do alívio de sua perspectiva singular e aguda, chegada até nós pela via de uma boa tradução. Sem dúvida, está aí uma poesia que sugere, revela, desperta e provoca.