Poeta e vingativa

Questões como o exílio, o amor, a opressão das ditaduras, a homossexualidade e o deslocamento são constantes na poesia de Cristina Peri Rossi
Cristina Peri Rossi, autora de “Nossa vingança é o amor”
01/03/2026

Cristina Peri Rossi, escritora uruguaia descendente de italianos emigrados para a América do Sul, é a autora da antologia poética Nossa vingança é o amor, que reúne poemas de seus livros lançados entre 1971 e 2024. A organização e a tradução da obra ao português ficaram a cargo de Ayelén Medail e Cide Piquet, que cumprem bem uma missão mais do que relevante: praticamente apresentar Peri Rossi aos leitores e às leitoras brasileiros. Segundo sua pequena fortuna crítica, a poeta tinha apenas um livro publicado no Brasil, a despeito de ser considerada um dos grandes nomes da poesia em língua espanhola e de sua suposta participação no que foi considerado o boom da literatura latino-americana, afiliação que ela nega por questões geracionais, entre outras. De todo modo, Peri Rossi seria a única mulher a participar dessa seleta lista de contistas, romancistas e poetas. Somente nos últimos anos, finalmente, sua literatura foi traduzida mais fartamente (ou menos escassamente) por aqui, o que inclui o romance A insubmissa, publicado pela Bazar do Tempo.

Compõem Nossa vingança é o amor seletas, em número bastante equilibrado, de poemas pinçados de 18 títulos de Peri Rossi, de Evoé (1971, obra que causou escândalo na cena uruguaia) a Fata morgana (2024). Dessa extensa bibliografia poética é possível inferir a cadência constante da produção literária da autora, que não para nos livros de poemas. A autora é ainda romancista e contista, com uma longa lista de prêmios literários, inclusive o Cervantes 2021, o mais importante de língua espanhola, pelo conjunto de sua obra.

Nossa vingança é o amor reúne, além dos versos selecionados, os poemas originais em espanhol, o discurso da autora ao receber o Prêmio Cervantes, o posfácio da tradutora Ayelén Medail, além da bibliografia completa de Peri Rossi e de informações biográficas sobre ela e sobre seus tradutores no Brasil, no que resultam 400 páginas de leitura prazerosa e surpreendente. Ao final do volume, é possível lamentar que conheçamos tão pouco — e tarde — a poesia de Peri Rossi (e não apenas a dela, mas outras, vindas de países nossos vizinhos).

De professora politizada, atuante em partidos de esquerda uruguaios, e autora de textos na imprensa, em 1972, Peri Rossi tornou-se uma desconhecida migrante que aportava com sua companheira na Espanha também ditatorial. Questões como o exílio, o amor, a homossexualidade e o deslocamento são constantes em sua obra, representadas aqui em poemas tais como XI, de Estado de exílio, que trata do próprio sentido da escrita literária:

Nenhuma palavra nunca
nenhum discurso
— nem Freud, nem Martí —
serviu para deter a mão
a máquina
do torturador.
Mas quando uma palavra escrita
na margem da página na parede
serve para aliviar a dor de um torturado
a literatura faz sentido.

Ou este, à página 40 da antologia, que não apenas remete, mas arremete a leitora (e o leitor) a cenas íntimas e melancólicas do exílio, levando também ao enfrentamento de temas como os governos totalitários, as ditaduras do século 20 (e, afinal, a todas elas) e as migrações forçadas:

XIV
Aquele velho que lavava pratos
numa cafeteria em Saint-Germain
e de noite
atravessava o Sena
para subir ao seu quarto
num oitavo andar
sem elevador sem chuveiro
nem instalações sanitárias
era um matemático uruguaio
que nunca quis viajar à Europa.

Do livro Diáspora, à página 55 de Nossa vingança é o amor, o poema sem título mostra mais lados da história e, de quebra, confirma a perícia de Peri Rossi no manejo dos versos e das nossas emoções:

Antes do cessar-fogo,
John O’Neal Rucker foi o último soldado norte-americano
morto no Vietnã.
Seus pais se fotografaram
junto ao retrato de John O’Neal Rucker
em trajes de gala.
O nome do último vietnamita morto
nunca foi divulgado pelas agências de notícias.
Não se sabe se porque carecia de pais,
de fotografias
ou noites de gala.

É um espanto quando a literatura é capaz de provocar esses giros de visão, ponto de vista, leitura de mundo e outros mais, que não raro a boa poesia é exímia em fazer. Daí um de seus conhecidos perigos, segundo seus ameaçados e geralmente covardes detratores.

A homossexualidade aberta de Peri Rossi e a abordagem do tema em seus poemas aparecem fartamente nos comentários à sua literatura. Junto com isso, vem também a crítica ao patriarcado (incluindo a literatura de grandes nomes masculinos) e a perspectiva feminista que ajuda a tecer poemas como Genealogia, dedicado a Safo, Virginia Woolf e outras escritoras:

Doces antepassadas minhas
afogadas no mar
ou suicidadas em jardins imaginários
trancadas em castelos de muros lilás
e arrogantes
esplêndidas em seu desafio
à biologia elementar
que faz da mulher uma parideira
antes de ser de fato uma mulher
soberbas em sua solidão
e no pequeno escândalo de suas vidas.

Têm seu lugar no herbário
junto a exemplares raros
de variada nervura.

Ou a cena de Simulacro, pela qual não é difícil imaginar a vida comum, infelizmente com um frescor de dias atuais, embora o poema seja de um livro de 1996 (Aquela noite):

Quando um vendedor qualquer
(de detergentes, seguros, vídeos ou congelados)
bate na minha porta,
finjo ser uma mulher convencional
e respondo que meu marido não está.
Que compreensivos são os vendedores
com uma esposa desprotegida.
Me deixam o catálogo — para que meu marido o veja —
e dizem que voltarão em outro momento,
quando meu esposo tiver retornado.
Com o catálogo na mão,
— que não lerei —
me dirijo, outra vez,
à velha máquina de escrever:
único espaço
sem maridos
sem vendedores
sem catálogos.

Nossa vingança é o amor tem, além do mérito de apresentar parte da poesia de Cristina Peri Rossi aos leitores e às leitoras brasileiros, o poder de formar admiradores dessa escritora, apenas tardiamente difundida por aqui. A autora seduz pela força de seus versos, cheios de crítica e ironia, além da origem no espanhol doce, apontado por um de seus personagens, e do alívio de sua perspectiva singular e aguda, chegada até nós pela via de uma boa tradução. Sem dúvida, está aí uma poesia que sugere, revela, desperta e provoca.

Nossa vingança é o amor
Cristina Peri Rossi
Trad.: Ayelén Medail e Cide Piquet
Editora 34
400 págs.
A insubmissa
Cristina Peri Rossi
Trad.: Anita Rivera Guerra
Bazar do Tempo
208 págs.
Cristina Peri Rossi
Nasceu em Montevidéu (Uruguai), em 1941. Exilou-se em Barcelona nos anos 1970, com breve passagem por Paris, sem jamais ter voltado ao seu país de origem. Neta de imigrantes italianos, formada em literatura, professora nessa área, militante de esquerda no Uruguai e colaboradora de diversos jornais. Escritora de vasta obra em prosa e verso, reconhecida pelo Prêmio Cervantes em 2021, além de uma extensa lista de outras premiações recebidas desde jovem.
Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

Rascunho