Poema limpo

Resenha do livro "Objetos", de Carlos Augusto Lima
Carlos Augusto Lima, autor de “Objetos”
01/08/2002

Objetos, de Carlos Augusto Lima, guarda apenas oito poemas. Pouco diante de tantos escritores que pensam que o respeito e a definição do gênero vêm do número de páginas. Muito para habitar um livro. O poeta cearense larga com uma virtude rara: a unidade de suas peças, com uma regularidade rítmica que sedimenta as paredes da casa. A postura anticomercial está expressa na módica tiragem de 200 exemplares. Com jeito artesanal, um fio vermelho trança as páginas de tom laranja. Gravuras de Wladimir Fontes aprofundam o relevo dos versos. A brochura inspira ao tato e à convivência.

O timbre é intenso e meditativo, irmanando-se à concentração expansiva de Manoel Ricardo Lima (Embrulho). Poesia provocativa, que não se conforma com a forma, mas luta contra ela, estica e dilacera a linguagem, substituindo a representação mental das coisas e subtraindo a alfabetização. “Cortar com olhos livres/ o nome.” Não importa o funcionamento dos objetos, mas o que significam. Eles não mais carregam um sentido de utilização e de dependência. Vencido o tempo útil, inutilizam o homem. São desvinculados dos antecedentes de fabricação e adquirem com o desuso uma “discreta coloração particular”.

Carlos Augusto Lima desarruma o mobiliário, o ínfimo relicário, fazendo um passeio de despedida pela cômoda, estante, cama, mesa, caneta e giletes. De sujeito vira alvo, visitado e absorvido pela herança. As pausas imitam os tiques de um inventário, o listar infindo das perdas. Um item corrompe e multiplica o outro: “latão, parafusos, / tintura encardida de/ preto/ ferrugem/ sustentação de mundo.” Observações casuais abrem uma via de transcendência, desfigurando os pertences em novas atitudes verbais. A faxina provoca uma anarquia de sentido. A desmontagem permite achados, tal a identificação de um álbum de fotografias como “gente em conserva”. O mutismo das coisas ensina o observador a falar sem a boca. O fracasso dos apontamentos é, na verdade, comoção do silêncio.

Objetos

Carlos Augusto Lima
Alpharrabio
Coleção Cacto
Fabrício Carpinejar

Nasceu em Caxias do Sul (RS), em 1972. Sua obra, que transita da poesia à crônica, do infantojuvenil ao jornalismo literário, é composta por mais de 50 livros, com cerca de 1 milhão de exemplares vendidos. Já venceu mais de 20 prêmios literários, incluindo duas edições do Jabuti. Escreve crônicas diárias para o jornal Zero Hora (Porto Alegre) e semanais para O Tempo (Belo Horizonte).

Rascunho