Os escritores na escola

Numa remota oficina de literatura, um aluno de Anthony Burgess interrompeu-o para saber por que, afinal, acreditava poder ensinar alguém a escrever. Pergunta difícil
Ilustração: Osvalter Filho
01/09/2005

Numa remota oficina de literatura, um aluno de Anthony Burgess interrompeu-o para saber por que, afinal, acreditava poder ensinar alguém a escrever. Pergunta difícil. O caso foi relatado por William Burroughs no texto Oficina de ficção — É possível?, traduzido por Flávio Moreira da Costa. Apesar de não conhecer resposta definitiva à questão, Burroughs arriscou várias analogias: pilota um avião o profissional que se preparou para o serviço, alguém que provavelmente freqüentou um curso de pilotagem. Da mesma forma, é bom que um especialista em Física Quântica tenha estudado sua matéria. Em se tratando de literatura, no entanto, a dúvida é outra, maior: existiria uma tecnologia da escrita? Seria possível ensinar alguém a escrever boa ficção? Na edição passada do Rascunho, o escritor Raimundo Carrero, autor do recém-lançado Os segredos da ficção — Um guia da arte de escrever, garantiu que sim. E foi além: chegou a decretar o fim da inspiração, uma senhora “leviana e irresponsável”. Para discorrer sobre o assunto, convidamos oito autores brasileiros.

Noel Rosa tinha razão?
Flávio Moreira da Costa

Ninguém aprende samba no colégio, cantou nosso Noel. Eu também achava. Hoje, considero que freqüentar uma boa oficina de ficção ajuda a queimar etapas no aprendizado da técnica e do incentivo da escrita.

Eu já tinha uns quatro livros publicados nos anos 70 quando fui convidado para passar um ano letivo no International Writing Program, da Universidade de Iowa. Para quem não sabe, trata-se da pioneira das oficinas de ficção, até hoje a mais importante entre as dezenas de outras espalhadas pelos Estados Unidos. Philip Roth passou por lá. Na realidade, mais da metade dos escritores americanos passaram por algum tipo de creative writing. Em Iowa, assisti à oficina de poesia do poeta Donald Justice e ouvi palestras de escritores de vários países do mundo, entre eles, John Cheever, um dos maiores contistas americanos. Foi um grande incentivo.

Mas não o suficiente para que eu, de volta ao Brasil, me convencesse a criar minha própria oficina de ficção. A frase do Noel Rosa continuava batendo na minha cabeça. Acabei me decidindo quando fui convidado por Ligia Averbuck, que dava uma oficina pioneira na Faculdade de Letras do Rio Grande do Sul, para trabalhar com seus alunos num fim de semana. A partir daí, e por 17, 18 anos, mantive uma oficina em casa, sem nenhum tipo de apoio oficial ou oficioso. Mesmo sem noção de didática, acabei criando minha própria maneira de conduzir as oficinas: era um grupo de produção, isto é, de criação, e de encontro, isto é, de discussão, mas era sobretudo um grupo de leituras. (Eu dava certa orientação bibliográfica, para eles lerem em casa.)

A teoria só interessava na medida em que era despertada pelos textos dos próprios participantes, quando em discussão. Quem quisesse aulas teóricas que fosse para as faculdades de Letras, ou fosse ler livros afins. Descobri que muito da técnica literária, numa oficina, era abreviado, ou seja, aspectos que em geral os escritores levam anos para descobrir, o participante (e não “aluno”) da oficina conseguia sacar em meia dúzia de encontros — tudo em cima do seu próprio texto ou do texto dos seus colegas. Tive uns 80 participantes ao longo dos anos. (Fazia questão que eles se reunissem em grupos pequenos: só assim a coisa funcionava.) A maioria, pelo que sei, continua escrevendo. Cerca de dez publicaram livros. No entanto, publicar nunca foi prioridade da oficina: seria, no máximo, conseqüência. A prioridade era escrever, ou melhor: reescrever, criar seu próprio texto até o acabamento final. E eu pedia que eles lessem, em vez de livros sobre literatura (poderiam lê-los, se quisessem, claro), A arte cavalheiresca do arqueiro zen (livro do filósofo alemão Eugen Herrigel): o que menos importa é mirar o alvo; se houver uma longa preparação, torna-se inevitável que a flecha chegue a seu objetivo. E incentivava a leitura de bons contistas, clássicos e contemporâneos. E sobretudo, muita prática: que escrevessem conto atrás de conto, que seriam então lidos pelo grupo e reescritos em casa por cada um deles.

Essa experiência de oficina, se foi útil para todos os participantes, não sei. Para alguns, creio que sim, pois do contrário não teriam ficado comigo sete, oito anos. Sei que foi muito boa para mim, pois eu aprendia com eles e tinha uma sensação de muito prazer quando via alguém que chegava com um texto amador e mesmo incipiente e saía escrevendo como gente grande. Ninguém aprende samba no colégio? Acho que Noel Rosa queria dizer: ninguém aprende a ter talento no colégio. Mas o resto, sobretudo técnicas do ofício, se aprende, sim. E quem tiver um pouquinho de talento, esse talento, ou dom, pode, sim, perder a vergonha, as amarras e se desenvolver. Não é ficção: meninos, eu vi.

Flávio Moreira da Costa é escritor, autor dos livros Modelo para morrer, O equilibrista do arame farpado e Nem todo canário é belga, entre outros. Mora no Rio de Janeiro (RJ).

O ignorante iluminado
Luiz Antonio de Assis Brasil

Perguntar se é possível aprender a fazer literatura “na escola” enseja a mesma resposta dada a outras perguntas: é possível aprender pintura na escola? É possível aprender música na escola? É possível aprender arquitetura, dança, escultura, na escola? É possível, enfim, aprender algum tipo de arte na escola? Todo o problema está no verbo “aprender”, em geral ligado às coisas aborrecidas do espírito. Como a arte (aceite-se que a literatura é uma arte) é coisa de sonhadores e ociosos, é impossível ser transmitida, pois viver na ociosidade é melhor do que aprender algo. Os construtores das catedrais góticas, entretanto, já mataram a questão há 700 anos, com seu famoso lema: ARS SINE SCIENTIA NIHIL EST (a arte sem a ciência não é nada). Maiakóvski, nosso contemporâneo, era mais pontual: “Só a técnica liberta o talento”. Então chegamos a algo indefinível e meio mágico, chamado de “talento”. O que é isso, afinal, em tempos do politicamente correto? Se alguém souber, que o diga e suporte as conseqüências dos excluídos do grupo seleto dos talentosos.

Como se percebe, essa é uma discussão que não levará a nada, como todas as discussões. O que mais espanta é que justamente os escritores, de um modo geral, são os mais elitistas e reacionários quanto à possibilidade de transmissão das técnicas de sua arte, sua querida e exclusiva arte, pela qual queimam pestanas em solitário afastamento dos prazeres do mundo.

Quando se vai à raiz desse grotesco preconceito, ele só pode ser atribuído à extrema novidade dos laboratórios de escrita em nosso país, quando já são questão vencida nos Estados Unidos, há muitíssimas décadas, e também na Grã-Bretanha, na França, na Espanha (com seu importante Taller Fuentetaja), na Coréia (sic) e em toda a parte em que as coisas da literatura são levadas a sério. A bibliografia sobre o tema já pode ser contada aos milhares. Ainda pensando no caso americano, há pelo menos 60 universidades em que são oferecidos bacharelados, mestrados e Ph.Ds em Criative Writing. A mais antiga é a de Iowa.  Nós, os brasileiros geniais, os originais, ainda mantemos uma visão antiquada e caolha sobre o assunto e, repito, eivada de preconceito.

O Rascunho me pergunta o que penso acerca da inspiração. A inspiração é um momento único, que se tem em vários lugares: tomando banho, viajando de avião, quebrando a cabeça numa oficina literária. O resto será trabalho, sempre bem-vindo num círculo de pessoas que têm o mesmo desejo de seguir a literatura como ofício. As oficinas sempre existiram, desde Homero, desde Camões, desde Eça. Não era uma oficina o que fazia Flaubert ao ler Madame Bovary a seus amigos, pedindo palpites? Não eram uma oficina os ensinamentos de Balzac aos seus jovens imitadores? (Um destes ensinamentos: “Corte, corte o texto, assim o crítico terá menos texto a criticar”). Não foi mestre de oficina Rilke, em 1903, ao escrever as célebres Cartas a um jovem poeta? A diferença é que as oficinas atuais são organizadas, sistematizadas e, portanto, dão resultado mais rapidamente. Alguém pode ganhar o prêmio Nobel sem freqüentar uma oficina formal? Claro que sim, e creio que todos que o obtiveram até agora nunca passaram pela frente de uma oficina. Todavia, o quadro está mudando rápida e dramaticamente. A origem natural de todos os escritores será os laboratórios de textos, os workshops literários, as oficinas, enfim. Apenas uma questão de tempo. Passou a era do artista-ignorante-iluminado. Por fim: só fala mal das oficinas quem não as experimentou. E esse foi o fim mesmo. Juro jamais voltar ao tema. É perda dos meus (poucos) neurônios.

Luiz Antonio de Assis Brasil é escritor e ministrante, há 20 anos, da Oficina de Criação da PUCRS. É autor de A margem imóvel do rio, O pintor de retratos e Videiras de cristal, entre outros. Sua oficina já lançou 34 antologias de contos e seus alunos já publicaram 68 livros individuais. Mais informações no site www.laab.com.br.

Nem bênção do Papa, nem prêmio Nobel
Domingos Pellegrini

Aprendi a escrever lendo. Mas melhorei a arte da escrita lendo não só literatura, mas também sua teoria (para prosa e poesia), crítica literária, ensaios. Há quem pense que, por fazer uma literatura clara e aparentemente simples, sou um autor primitivo e apenas autodidata. Mas cursei Letras (UEL, Londrina), fiz especialização em Teoria da Literatura (Unesp, Assis). O jornalismo também me ensinou muito, principalmente para ser romancista.

Mas o que mais me ensinou foi escrever O tempo de Seo Celso, quando me propus a escrever a biografia de um homem por quem me apaixonei depois de morto. Acabou sendo uma parceria póstuma. Todos os impasses a que eu chegava (e a que já tinha chegado antes, em tentativas frustradas de escrever romances), ele me resolvia, através dos escritos que deixou, ou através de seus amigos que eu entrevistava (mais de 50). Assim, para mim funcionou que o desafio foi o que mais ensinou, estabelecendo meta, corpus (as entrevistas, a pesquisa documental e livresca, a visita às locações, a reconstituição de época) e os tons para as várias partes do livro.

Cursos e oficinas podem ajudar, sim, se forem honestos e criativos, e não apenas caça-níqueis burocráticos. Mas mesmo estes podem ajudar, se a pessoa for apaixonada, ou seja, se tiver o dom. Porque se não tiver o dom, a chama, o fogo, chame como quiser, nem curso abençoado pelo Papa nem oficina conduzida por prêmios Nobel vai fazer alguém virar escritor…

Domingos Pellegrini é escritor e poeta, autor de O caso da Chácara Chão, No coração das perobas, Meninos no poder e Terra vermelha, entre outros. Mora em Londrina (PR).

O copo da criação
Carlos Nejar

Creio, sim, na validade e na importância das oficinas e dos cursos que se dedicam a ensinar o ofício de escrever ficção (e também poesia) aos alunos. E é bem possível aprender muito da arte de escrever literatura na escola, na faculdade ou freqüentando cursos coordenados por escritores profissionais. Sobretudo, desenvolvendo a criatividade que o aluno traz, o espírito de infância que não deve morrer e é a fonte de toda a verdadeira criação. Infelizmente, em muitas escolas e faculdades, o estudante é obrigado a se adequar a formas, emperrando, em molde fixo e mofado, a sua natural inventação. Nesses cursos, o aluno descobrirá a leitura, o amor ao livro — motor fundamental da criação. Podem-se ensinar algumas regras de bem escrever, mas o verdadeiro criador é o que estabelece as suas próprias regras, cria o seu ritmo e sua linguagem, além dos esquemas pré-estabelecidos. Escrever se aprende escrevendo e lendo, apaixonadamente. Como viver se aprende vivendo. A inspiração é apenas a gota de água que faz o copo da criação transbordar. É um mote que a vida nos dita. O mais é severo trabalho, domínio do silêncio e da palavra sobre o silêncio. A inspiração é tão primordial quanto a capacidade de fazer as palavras voarem. A arte do vôo requer palavras menos pesadas que o ar. Entretanto, saber voar é dado a poucos. Apenas aos que têm a vocação indeclinável para a vida. Não seria isso inspiração? Que não subsistirá sem trabalho.

Carlos Nejar é poeta e ficcionista, autor de Os viventes, Os dias pelos dias, O poço do calabouço e O túnel perfeito, entre outros. Mora em Guarapari (ES).

O motor do esforço
Moacyr Scliar

Acredito que existe, sim, uma vocação para a literatura; algumas pessoas têm, em relação ao manejo da palavra, a mesma facilidade e a mesma intimidade que outras têm em relação à música, ou às cores, ou às formas. Mas mesmo estas precisam aperfeiçoar seu talento; e, por outro lado, as pessoas, em geral, podem se aperfeiçoar na técnica literária. Por isso acho úteis as oficinas literárias: não formam escritores, mas ajudam bastante, inclusive no aspecto psicológico. Escrever é um ato solitário, e quem escreve muitas vezes se ressente disso. A possibilidade de conviver com gente que partilha os mesmos interesses (e os mesmos problemas) e, mais, a possibilidade de ser orientado por alguém experiente representam um apoio valioso. Mesmo porque escrever é reescrever, é aperfeiçoar constantemente o que se fez. A inspiração existe, mas desempenha o mesmo papel do motor de arranque num carro; dá a partida, mas não mantém o veículo andando. Isto é o outro motor que faz, e este motor equivale ao esforço, não raro árduo, de retrabalhar. Se há fórmulas que facilitem a vida do escritor? Um bom computador ajuda, principalmente no que se refere à tecla “deletar”. Há outros truques; cada escritor desenvolve o seu. Mas são absolutamente secundários. O importante é ter uma boa história para contar e contá-la bem.

Moacyr Scliar é escritor, autor de O centauro no jardim, A mulher que escreveu a Bíblia, Max e os felinos, Os leopardos de Kafka e Na noite do ventre, o diamante, entre outros. Mora em Porto Alegre (RS).

Caminhos encurtados
Menalton Braff

Minha relação com as oficinas literárias me tem valido a construção de um conhecimento. Relutante, no início, quanto à eficácia desses “cursos de escritor”, acabei entendendo que dentro de seus limites pode existir alguma utilidade. Uma oficina — tenha ela a extensão que tiver — não pode pretender a transmissão e/ou criação de talentos. O velho Antônio Albalat, clássico do gênero, com seu A arte de escrever, cometia o equívoco de dizer que quem pode falar pode escrever. Se falar já não é sempre a mesma coisa, o mesmo acontece com o escrever. Aprender a transformar algumas idéias em discurso, isso é claramente possível. Qualquer um pode melhorar seu domínio sobre a língua, isto é, pode apropriar-se de um melhor conhecimento dos conectivos, dos pronomes relativos. É possível aprender que um período tenso é mais eficaz que um período frouxo. São questões da língua que, em qualquer aula de redação, podem ser aprendidas. E podem melhorar a redação.

Mas isso não é literatura. Para ela é necessário talento. Qualquer um pode tornar-se um bom (ou razoável, pelo menos) redator. Isso não significa que em uma oficina qualquer um possa tornar-se um artista.

A oficina não cria talentos, mas encurta os caminhos de quem os tem. Em minha experiência pessoal, encontrei muitas barreiras e acabei fazendo o curso de Letras na tentativa de superá-las. Não, mas um curso de Letras também não é um “curso de escritor”. Aprende-se muito mais Estrutura e Funcionamento do Ensino de Primeiro e Segundo Graus (nome antigo), do que técnicas narrativas. O caminho que se abrevia em uma oficina é exatamente este: há técnicas de narrar, e não é pela simples leitura de bons textos narrativos que se assimilam tais técnicas. Imagino que a discussão a respeito dos modos diversos de se iniciar uma narrativa (descrição de personagem, de ambiente, introdução do conflito, início ex-abrupto etc) leva o aluno (aluno?) mais rapidamente ao domínio dessa técnica. A tipificação de narrativas (temática, estilística, estrutural, tendência ideológica) economiza tempo.

E por aí segue. Quem tiver talento, acho que fará bom proveito de uma oficina. Existem, hoje, escrevendo, vários escritores egressos das oficinas. E não têm feito má figura.

Menalton Braff é escritor, autor de À sombra do cipreste, Janela aberta e Na força da mulher. Mora em Serrana (SP).

Sem vícios
Michel Laub

Não se pode falar das oficinas como algo uniforme, porque cada uma delas tem seu próprio método. Fiz a do Luiz Antonio de Assis Brasil, em Porto Alegre, que é dividida em dois semestres: o primeiro é quase uma cadeira de faculdade, um resumo da evolução das técnicas literárias ao longo da história; só no segundo é que se passa à “criação” em si. Pessoalmente, a primeira parte foi muito útil, já que nunca fui desses caras que leram A morte de Virgílio aos onze anos de idade. Na oficina é que aprendi que existia um negócio chamado fluxo de consciência, por exemplo, ou me dei ao trabalho de exercitar diferentes formas de diálogo e estilo. São exercícios meramente formais, mas é a partir do domínio dessas ferramentas que você vai procurar por um caminho próprio.

No que se refere à criação, é evidente que ninguém aprende a ser escritor numa sala de aula. Tanto é assim que 90% dos que fazem esses cursos, acho, nunca chegam a publicar um livro. Mas é interessante ter seus primeiros textos lidos e analisados por gente que tem algum contato com a área. É diferente de mostrá-los para a mãe ou a irmã, que sempre vão elogiar tudo o que você faz. Tenho certeza de que perdi alguns vícios nesse processo inicial, o que foi um ganho muito grande. Os vícios substitutos, claro, eu tratei de arrumar depois.

Michel Laub é jornalista e escritor, autor dos romances Música anterior e Longe da água. Mora em São Paulo (SP).

Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

Rascunho