O voo da locomotiva, novo romance de Frei Betto, inspira-se na trajetória de Luz Arce, militante chilena perseguida durante a ditadura de Augusto Pinochet, desvelando as agruras de uma época desumana e cruel com relação à democracia e aos direitos humanos, quando torturas atrozes e assassinatos dos militantes de esquerda soterravam a utopia de um mundo melhor. Frei Betto adapta, ficcionalmente, a trajetória da ex-prisioneira para o Brasil, por meio da narradora-personagem Rosa Maria, nome que acolhe a sensibilidade em dupla humanidade, a flor rosa e Maria. De origem bem simples, filha de uma costureira e de um motorista de ônibus, foi a primeira pessoa da família a ingressar em uma universidade. Gradua-se em Educação Física. Logo depois, casa-se e tem um filho, formando, assim, uma família. No entanto, um sonho persegue seu íntimo, ser inquieto que era: entrar para a militância de esquerda para lutar por um mundo mais justo e igualitário.
Na entrevista que concedeu à revista Focus Brasil, Frei Betto (frade dominicano) cita uma passagem escrita por Alceu Amoroso Lima sobre seu primeiro livro, Cartas da prisão, que transcrevo: “Frei Betto tem uma escrita feminina. Ele escreve mais com a pele do que com a cabeça”. Pele essa que, em sua interpretação, combina a epiderme da carnalidade corporal, com um movimento que adensa o sentir e o pensar, cuja trajetória aponta para a essência do ser.
O voo da locomotiva divide-se em 33 partes, em sua maioria capítulos curtos, o que confere agilidade à narrativa, envolvendo-nos em uma trama tensionada e virulenta. Nela, temos duas línguas que se opõem: a língua mais humana e sensível, do lado dos que lutam pela causa humanitária, e a língua rascante e crudelíssima dos militares, com palavras mais violentas, xingamentos e palavrões.
Memória e inferno
A fragilidade do ser humano é revelada de forma crucial neste livro, cujas páginas se encontram nos rios do excesso e da exceção. Apesar dessas diferenças, logo no primeiro capítulo do livro, a narração de Rosa Maria aponta para uma linguagem situada no entrelugar entre o paraíso — ao se lembrar da família, fato permeável à pele — e o inferno, quando ela é presa e sofre todo tipo de violência, tanto física quanto psicológica. Assim, o leitor adentra o inferno do regime ditatorial, com sua postura diante dos prisioneiros políticos. Leiamos o início do capítulo I: “Há nomes amaldiçoados. Melhor não os pronunciar. Sujam mais a alma do que a boca. Escritos com a caligrafia do horror, provocam vertigens. Estigmatizados, abrigam-se soturnos nos desvãos da memória”. Aqui, a narradora vai se valer do artifício da memória para nos contar, como num diário, sua via-crúcis pelos corredores dos quartéis, sendo levada para vários locais, com o intuito de obrigá-la, em razão das intensas torturas, a delatar toda a organização da qual participou como militante, dando nomes, identidades e outros dados sobre suas atividades.
Para toda a sociedade, nesse caso, é necessário manter a memória, não o esquecimento. Não é preciso mais beber das águas do Lete. Esta época sombria não deve ser esquecida. Deve, sim, ser lembrada para que a repressão não volte como uma Hidra de Lerna. Deve-se, portanto, cortar o problema pela raiz. Frei Betto também tece uma crítica a alguns pontos da militância, apesar de tudo o que a ditadura cometeu de forma terrível e de ele próprio ter vivido na pele os efeitos dessa época de chumbo. A crítica feita se relaciona à própria organização interna do movimento de militância esquerdista, como a questão do ego do chefe, a obediência às regras e à hierarquização. Acredita o autor que o movimento deveria ter sido pautado na organização para atingir as camadas populares, em vez de ser chamado de terrorista por seus algozes.
Corpo e liberdade
Em O voo da locomotiva, a voz feminina, em primeira pessoa, faz um relato pessoal e intimista, no qual a escrita epidérmica se amolda à linguagem das vísceras, ao âmago do ser, e reflete de modo sensorial, pelo próprio corpo e não somente pela razão, num movimento de adensamento entre mente, sensação e corpo. Rosa Maria ganha um codinome, depois, uma identidade falsa e, após ter deixado o marido e o filho, vive novos amores. Desenvolve, principalmente, um sentimento maior por Alexandre, que vai para Cuba. Ela se compara a um ser que desceu aos infernos. Ela realiza uma catábase individual, sendo reduzida a nada pelos militares que a prendem. Jesus é a Imago Dei; ela é um frágil ser humano que vive o dilema de entregar seus pares de militância ou sofrer mais tortura ou morrer. Entretanto, um fato inusitado, no decorrer da história, vai mudar o rumo de sua decisão final.
A metáfora do voo da locomotiva é muito instigante e nos faz refletir sobre o prazer da liberdade em meio ao medo da morte. Em seus pesadelos, Rosa Maria se vê nos trilhos da locomotiva, que vem em sua direção. Ela tenta se salvar, pulando por cima dos dormentes, mas, no final, a máquina alça voo sobre ela, deixando-a em paz. Ela se vê em sua doença moral; nela, a pele da alma dói mais do que as torturas físicas. A relação entre o algoz e a vítima traduz uma escrita da morte, do desalento, do nada e do vazio que atinge o alvo do sofrimento alheio pelo sadismo. O carrasco adquire a não escrita, o que não se deseja, o que não tem amor ou compaixão. Um niilismo subversivo do caos.
A memória se torna o recurso mais potente de nossa humanidade, pois dá aquele clique em nossa percepção dos fatos reais e não inventados, trazendo à tona a versão não contada, silenciada pela postura ultrajante da ditadura e seus asseclas: “Sei que se não há memória não há história”. Rosa mal sabia sobre a organização militante e foi aprendendo e tateando aos poucos, participando de várias frentes da militância: da gráfica, em que eram impressos os panfletos, livros e folhetos; da luta armada; e da Escola de Quadros, em que recebia sindicalistas, cansados do trabalho, que seriam instruídos sobre o movimento revolucionário. Na língua dos revolucionários, havia diferentes dialetos e linguagens que os camuflavam na clandestinidade, com a utilização de nomes novos e identidades falsas. A fachada era o lema deles. De certo modo, a face camaleônica do movimento os protegia. Rosa, porém, buscava o ideal, que seria o real em forma profundamente utópica. Ela pensou: “Para mim, socialismo era o nome político do amor”. Ela reflete sobre isso com o corpo da alma, que se amolda ao espelho de um ideal a ser seguido. Após a leitura de muitos manuais de guerrilha urbana, como o de Marighella, por exemplo, ela vai se instruindo cada vez mais. Sim, eles seguiram as “pegadas do Che”. E Frei Betto realiza um trabalho exemplar neste seu livro com relação à construção das personagens, revelando-nos, por meio de Rosa Maria, suas fragilidades, contradições, desejos, medos e sentimentos de culpa e remorso. Além disso, ela, como profunda observadora, disseca a alma de outros seres, sejam vítimas ou algozes. Pois sua literatura é densa e profunda. O voo da locomotiva, no seu pesadelo, seria uma forma de tentar driblar o terror e o peso do medo, o peso da coisa mais bruta, para se atingir a leveza de um pássaro. E o seu pesadelo era acompanhado pelo Bolero, de Ravel, que se caracteriza por ter uma melodia uniforme e repetitiva. Durante a narração, o pesadelo volta várias vezes no intuito de prendê-la ao jugo traiçoeiro da repressão.
Crueldade e amor
Enquanto os combatentes esquerdistas tinham afetos e sentimentos por seus familiares, num aquecimento sensório e real, os militares tinham a frieza da escala mais profunda do Inferno de Dante, na sua obra monumental, A divina comédia, pois o pior castigo, por incrível que pareça, estaria no nono círculo, na região mais congelada, destinada aos traidores, de acordo com o Inferno dantesco. E pensamos, nós, leitores, diante dessa obra magnífica de Frei Betto, que faz o resgate histórico de uma época, o quanto a crueldade é incompatível com a fé, com a figura compassiva e alentadora de Cristo, que sofreu humilhação, vilipêndio e martírio nas mãos de seus carrascos.
Neste livro de Frei Betto, temos o olhar piedoso do autor. O amor e a luta armada se combinam? Deve-se priorizar o indivíduo ou o coletivo em prol de uma causa maior? Esses são alguns dos dilemas que atravessam a narrativa. Amor e militância: uma questão importante para Rosa Maria. No capítulo XI, Frei Betto nos faz refletir sobre o conceito de amor. Em contraste com a volúpia de Eros, com a imagem da luxúria, o autor nos revela o amor mais complexo e espiritual. Na lâmpada de cada um, em si mesmo, é que cabe a resposta.
À guisa de conclusão, a esse amor mais sensível opõe-se a aridez de um deserto, exemplificada pelos seres que transpiram ódio contra seus semelhantes, como os militares da época da ditadura que até torturaram e mataram soldados que auxiliavam os prisioneiros, estes demonstrando que, apesar de tudo, havia uma réstia de luz e humanidade no interior dos quartéis. Nada justifica esta carnificina do sangue alheio, mas humano. E, do lado oposto, o sentir mais familiar serve como alívio para as dores da tortura de Rosa Maria, que se lembrava do filho e dos pais, uma espécie de paliativo para suas dores mais profundas. A obra de Frei Betto, portanto, nos dá um alerta: não esquecer jamais. Aqui se dá a transformação mais revolucionária; esse é o papel da memória organizada para que colapse o caos.