O silêncio e o mal

"Assim começa o mal" traz novamente a máxima de Javier Marías: a de que sempre chegamos tarde à vida das pessoas
Javier Marías, autor de “Assim começa o mal”
29/10/2016

Javier Marías é um escritor de repetições, e há uma delas que resume Assim começa o mal: a ideia de que chegamos sempre tarde à vida das pessoas.

Chegamos tarde porque não conhecemos grande parte dos fatos que nos precederam — quais circunstâncias vividas, que companhias tiveram e em que caminhos se perderam. Amores, amigos, mestres, todos com tanta história antes de nós: “ignoramos o que se forjou entre eles e provavelmente ignoraremos sempre; que percorreram um largo caminho juntos, quem sabe se sujando na lama sem que estivéssemos ali para acompanhá-los, nem para presenciá-lo”.

É o que conclui o narrador Juan De Vere ao tentar entender as razões do fracassado matrimônio de seu chefe, o cineasta Eduardo Muriel. Como acostumar-se a uma relação baseada em ofensas, ataques e desprezo? O que ocorreu para ter-se chegado a esse ponto? Algo justifica isso?

O fato é que sempre chegamos tarde à vida das pessoas, e Javier Marías ecoa essa percepção a partir de dois pontos de vista: o íntimo, nesse retrato conjugal de uma época em que o divórcio ainda era proibido; e o social, na Espanha recém-saída da ditadura de Franco, quando imperavam a Lei da Anistia e o esquecimento tácito das atrocidades de ambos os lados após a Guerra Civil.

Espectador em silêncio
Nesse início da década de 1980, perseguidos e perseguidores voltavam a conviver sob a condição de jamais pedir a ninguém para prestar contas. A promessa de um país normal, com eleições rotineiras e o fim da censura, e a consciência de que tudo o que foi concedido podia ser revogado a um estalar de dedos, ajudou nesse silêncio. “O futuro era tão tentador que valia a pena sepultar o passado, o antigo e o recente, sobretudo se esse passado ameaçava estropiar aquele futuro tão bom em comparação.”

Em meio a esse contexto, Muriel faz um pedido insólito a seu assistente: tornar-se íntimo de um amigo da família, dr. Jorge Van Vechten, pediatra respeitado que teria tido um comportamento indecente com uma mulher há muitos anos. Para isso, tem a missão de atraí-lo às noitadas regadas a álcool, drogas e liberalidade sexual dessa Madri pós-Franco, buscando fazê-lo abrir a boca.

Não custa muito a perceber que o médico possuiu ligações com a esposa de Muriel, Beatriz Noguera, e com o próprio regime autoritário — aliás, um dos pontos fracos do livro é fazer desse personagem um franquista tão clichê e caricato, do nome aristocrático aos olhos azuis, pele branca e cabelos louros. De Vere vai descobrindo esses fatos aos poucos, quase sempre às escondidas, como se estivesse assistindo a um filme, vendo as cenas sem ser notado, por entre frestas de portas e ao lado de janelas.

A atmosfera sombria, as tantas cenas noturnas e o clima policialesco lembram uma paródia de film noir, mas essa aparência esconde um dos grandes méritos do livro: sua reflexão sobre a passagem do tempo.

Não apenas pelo sentimento de que o narrador é um espectador, ou pelo personagem principal ser um cineasta, Assim começa o mal é uma homenagem de Marías ao cinema, uma de suas grandes paixões. Deu um tapa-olho ao protagonista, talvez para imitar John Ford, Raoul Walsh e Nicholas Ray; à moda de Hitchcock, fez de De Vere um espião voyeur, “como se fosse o ator de um filme que Muriel dirigia à distância e às cegas”. Diz ele:

Às vezes, eu me sentia como um criado antigo, dos que assistiam a tudo e se calavam enquanto acontecia, equiparados a verdadeiras estátuas na confiada imaginação de seus amos, que mais tarde tinham surpresas fatais ao descobrir a língua dessas estátuas.

Tempo além da idade
A atmosfera sombria, as tantas cenas noturnas e o clima policialesco lembram uma paródia de film noir, mas essa aparência esconde um dos grandes méritos do livro: sua reflexão sobre a passagem do tempo.

Duas gerações relacionam-se na trama. De um lado, os mais velhos tolhidos desde a infância das liberdades caçadas pela ditadura; de outro, jovens vivendo uma inesperada, frágil e vazia alforria. Enquanto os primeiros lamentam “estar perdendo uma época permissiva e fácil”, desesperados ao imaginar o que lhes escapavam “por uma boba incompatibilidade de datas”, os outros sofrem pela voracidade de seus atos, pelo desassossego de seus corpos e por suas insatisfações difusas.

A faixa etária, nesse caso, conta muito menos do que a inquietude dos desejos pessoais. Vemos em Van Vechten a vontade juvenil de “um desses indivíduos que sempre querem mais e que chega um momento em que não sabem o que querer”.

Olham ao seu redor, movimentam-se em busca de objetivos novos e não os encontram, de modo que desconhecem como canalizar a ambição e a energia que se negam a deixar de rondá-los, a atenuar o cerco, a levantar acampamento. Até certo ponto pode-se dizer que a idade os trai. […] Assim, eles se transformam em pessoas quase sem consciência da passagem do tempo por elas e o sentem como uma espécie de eternidade invariável na qual se instalam a vida inteira e que não é previsível que desapareça nem mude seu passo, que se afaste deles nem os abandone: são seus reféns, ou suas vítimas gratas.

Muriel, apesar de compartilhar os anos de Van Vechten, é, ao contrário de seu amigo, de um imobilismo e de uma passividade notáveis: “simplesmente não levava em conta a passagem do tempo, como se fosse algo tão conhecido que não valia a pena dedicar um só minuto a lamentá-lo nem a ponderá-lo. Ou como se já houvesse acontecido com ele no passado tudo o que era fundamental”.

O pior fica para trás
E o que era fundamental na vida de Muriel realmente aconteceu? Além de ser o motivo para a inércia de suas aspirações, essa resposta também leva às origens do ódio sentido em relação à esposa.

Aí se vê a habilidade de Javier Marías com o desfecho de longos enredos. Não há furos, e ao mesmo tempo tudo está sujeito a diferentes interpretações. Digressões aparentemente exageradas de início só fazem sentido após a conclusão. Detalhes passam a ser muito mais significativos, e as repetições, sempre elas, tornam-se a essência do texto.

A começar pelo título: como em outros livros do escritor espanhol — Coração tão branco e Seu rosto amanhãAssim começa o mal é uma citação de Shakespeare. “Assim começa o mal e o pior fica para trás” é o que diz Hamlet, e é o que repete à exaustão o narrador De Vere (não por acaso, seu nome vem de Edward De Vere, conde de Oxford que teria sido o verdadeiro escritor das obras do bardo, segundo uma das tantas teorias que põem em xeque a existência do autor inglês).

Essa referência surge no momento em que Muriel decide revogar a tarefa de espionagem dada ao seu jovem assistente. Van Vechten acabara de salvar Beatriz da morte, levando-o a concluir: “Se em outro tempo ele fez algo de ruim, é um problema de quem sofreu com isso, não cabe a mim verificá-lo nem tomar nenhuma decisão. Nem mesmo me cabe sabê-lo”.

“Todo o que se conta, tudo aquilo a que não se assiste é só rumor, por mais que seja envolto em juras de autenticidade. E não podemos passar a vida dando bola para isso, ainda menos agindo de acordo com seu vaivém. Quando a gente renuncia a isso, quando renuncia a saber o que não se pode saber, talvez então, parafraseando Shakespeare, talvez então comece o mal, mas em compensação o pior fica para trás.”

É a tese de quem prefere o benefício de renunciar a saber o que não se pode saber — porque o tempo passa e tudo fica envolto em uma bruma, e o que importou já não importa mais, ou muito pouco. “Que pouco sentido tem tentar impedir, evitar, vigiar, castigar e inclusive saber, a história está muito cheia de pequenos abusos e vilezas maiúsculas contra os quais nada se pode porque são uma avalanche, e que ganhamos averiguando-os?”

Chega-se ao ponto em que o pior ficou para trás porque pelo menos já é passado. Afinal, em nossa condição natural, “ninguém se dedica a rastrear os passos nem as origens dos que aprecia e respeita, ainda menos se lhes guarda gratidão”. E então, por não revirarmos nada, o mal começa.

Assim começa o mal
Javier Marías
Trad.: Eduardo Brandão
Companhia das Letras
515 págs.
Javier Marías
Nasceu em Madri (Espanha), em 1951. Entre romances, ensaios e coletâneas de contos, escreveu mais de trinta livros, traduzidos em dezenas de idiomas.
Tomás Adam

É jornalista, autor de ensaios sobre cultura, literatura, política e economia.

Rascunho