Há o consenso, no mundo inteiro, de que o editor literário não é mais o que foi um dia. E aqui eu me refiro tanto àquele editor que comanda uma editora e decide sua linha editorial, o que em inglês é chamado de publisher, quanto ao profissional que lê, corrige e lapida o texto junto ao autor, o book editor. As duas figuras muitas vezes se misturam, e durante o século 20 tanto o publisher quanto o book editor tiveram seus dias de (muito) poder e (alguma) fama. Em uma palestra em novembro de 2009, em Barcelona, incluída em A marca do editor (Âyiné, 2020), o escritor e editor italiano Roberto Calasso (1941-2021) afirmou:
Quinhentos anos após o seu início, a tarefa de publicar ainda não alcançou uma reputação muito sólida. Parte mercador, parte dono de circo, o editor sempre foi visto com certa desconfiança, como um mascate esperto. E, mesmo assim, o século passado um dia poderá ser considerado a era de ouro dos editores.
De fato, ficou no passado aquela figura um tanto romântica do editor comprometido com a qualidade da obra e envolvido pessoalmente com o autor, a exemplo do estadunidense Max Perkins, editor da Charles Scribner’s Sons, de Nova York, e descobridor de gigantes como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe, retratado minuciosamente na obra Max Perkins, um editor de gênios, de A. Scott Berg (Intrínseca, 2014). A mística em torno do relacionamento de Perkins e Wolfe rendeu até um filme em 2016, O mestre dos gênios, dirigido por Michael Grandage. O Brasil também teve seus grandes editores no século passado, como Ênio Silveira, José Olympio, Jorge Zahar, Caio Graco Prado, Alfredo Machado, Massao Ohno e, mais recentemente, Charles Cosac. O último desses editores-celebridade ainda em atividade é Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, que, em seu livro O primeiro leitor, de 2025, nos conta a sua trajetória como editor e seu relacionamento pessoal, muitas vezes conturbado, com grandes escritores brasileiros e estrangeiros. Claro que havia os excessos, como o famoso caso de Raymond Carver, que teve seus contos tesourados sem piedade por Gordon Lish, editor da revista Esquire e da editora Alfred A. Knopf. Um dos livros mais famosos de Carver, What we talk about when we talk about love (de 1981, não publicado no Brasil), trazia 17 contos que foram aclamados pelo público e pela crítica como a obra de um gênio “minimalista”. Após a sua morte, foram encontrados os originais desses contos, que foram publicados com o título Iniciantes (Companhia das Letras, 2009). Ao compararmos as duas versões, fica claro o trabalho de “açougueiro” de Lish, que, em alguns casos, chegou a cortar metade do texto de alguns contos.
Poder em queda
Um fenômeno que contribuiu para o enfraquecimento do papel do editor é visto tanto no Brasil como em mercados mais ricos e profissionais, como o norte-americano e o europeu: a compra de editoras tradicionais por grandes conglomerados, como no caso da Companhia das Letras. Em 2018, o grupo Penguin Random House assumiu o controle majoritário da editora, ao elevar sua participação para 70%. No passado, em editoras importantes, porém ainda pequenas, as figuras do publisher e do editor ainda eram muito próximas e muitas vezes indissociáveis. Quando uma editora se torna grande, obviamente o publisher já não pode supervisionar nem se dedicar ao trabalho de editor como antes, porém ainda tem o controle da linha editorial da empresa. Num conglomerado, esse controle é assumido por um CEO, obviamente mais preocupado com vendas e marketing e, ainda em maior grau, com estratégias de expansão. O diretor executivo da Penguin Random House à época da aquisição da editora brasileira era o empresário alemão Markus Dohle, que deixou o cargo em 2022 após uma tentativa fracassada, dois anos antes, de comprar a tradicional editora estadunidense Simon & Schuster, aquisição barrada pela Justiça dos Estados Unidos após ação antitruste do Departamento de Justiça do país. Imerso nessas águas infestadas por enormes tubarões, o editor, consequentemente, perde poder decisório.
Um segundo motivo é o avanço tecnológico, que mudou a forma como os livros são editados, impressos, divulgados e comercializados. No Brasil, o barateamento da publicação, por meio da impressão digital, fez surgir centenas de pequenas editoras, que ainda contam com a tecnologia para divulgar seus livros gratuitamente (nas redes sociais) e vendê-los a um custo mínimo, por meio de seus sites (em vez de distribuí-los em todas as livrarias do país, o que demanda volume e logística). Porém, se o custo das pequenas é mínimo, o lucro também é. Mesmo assim, a sua existência fez pender a balança do mercado: uma editora pequena não pode fazer frente a uma gigante, mas centenas delas podem. Outro fator que modificou a forma como as editoras — e seus editores — trabalham foi o surgimento da Amazon, que começou como uma modesta livraria virtual e hoje é uma gigante varejista que muitas vezes usa os livros como chamariz para a venda de outros produtos, quando não os dá quase de graça. A pirataria virtual também é galopante, e podemos encontrar sites na internet em que se pode baixar, sem pagar, livros que acabaram de ser publicados. Há ainda outro fator: a autopublicação. Atualmente há uma multidão de autores independentes que publicam seus livros em plataformas como a Amazon, e estes, obviamente, dispensam a figura do editor, e até mesmo do copidesque e do revisor, pois muitos deles recorrem a ferramentas de IA, cada vez mais sofisticadas e eficientes, para a revisão de textos literários.
Mas qual é o papel de um editor e de uma editora, exatamente? Ainda em A marca do editor, Roberto Calasso reflete:
Nós supomos que uma boa editora é aquela — se me permitem a tautologia — que publica, até onde é possível, apenas bons livros. Portanto, para usar uma definição mais simples, aqueles livros dos quais o editor tende a sentir mais orgulho do que vergonha. Sob esse ponto de vista, uma boa editora provavelmente não está particularmente interessada em fins econômicos. Publicar bons livros nunca deixou ninguém rico. Ou, pelo menos, em comparação com o que se pode ganhar vendendo água mineral, microchips ou botões. Parece-me que uma editora só pode obter lucros substanciais se esses bons livros forem submergidos por muitas outras coisas de qualidade bem diferente. E quando você submerge, é muito mais fácil se afogar — e então desaparecer para sempre.
Forma e risco
Calasso trabalhou para a Adelphi Edizioni desde a fundação da casa, em 1962. Roberto Bazlen esteve entre seus fundadores, e Calasso tornou-se seu presidente em 1999. Em 2015, ele comprou a editora para impedir que ela fosse adquirida pelo grupo Mondadori, um gigante do mercado editorial italiano.
Um publisher obviamente precisa se preocupar também com vendas e divulgação, para que sobreviva, mas o seu foco principal deveria ser a qualidade daquilo que ele publica. Ao contrário do que acreditava Calasso, Alfredo Machado (1922-1991), um dos fundadores da editora Record, defendia o que chamava de “política de Robin Hood”, ou seja, lançar títulos mais comerciais, que vendessem muito, para custear a publicação da chamada alta literatura. Goste-se ou não dessa estratégia, o fato é que a Record completará 84 anos de existência em dezembro, tendo encampado várias outras editoras pelo caminho, como a Civilização Brasileira e a José Olympio. Charles Cosac, por sua vez, torrou uma parte considerável de sua herança milionária na publicação de livros de altíssima qualidade durante 18 anos e acabou tendo de encerrar as atividades da Cosac Naify em 2015, voltando à tona em 2024 com a editora Cosac, porém com um escopo menor. De qualquer forma, um bom editor é também aquele que corre riscos — ou corria. Em 1912, o editor alemão Kurt Wolff, um dos sócios da editora Ernst Rowohlt, recebeu em seu escritório em Leipzig o jovem Franz Kafka, que, aos 29 anos, jamais havia publicado um livro. A primeira edição de Betrachtung (Contemplação) foi impressa em 800 exemplares em novembro daquele ano e começou a circular em dezembro. As vendas foram muito baixas. Isso não impediu que Wolff, em sua própria casa editorial, a Kurt Wolff Verlag, depois publicasse A metamorfose (1915), O veredicto (1916), Na colônia penal (1919), Um médico rural (1920), O castelo (1926) e América (1927). Se fosse hoje e Kafka publicasse por um conglomerado, ele provavelmente seria dispensado após as baixas vendas de seu primeiro livro.
Um dos principais papéis do editor, no passado, foi exatamente o que Kurt Wolff fez: apresentar ao mundo um gênio da literatura. E como os novos talentos da literatura são descobertos, se os editores atualmente não têm mais esse encargo? Nos Estados Unidos, eles procuram um agente literário; esta é a regra — embora esteja crescendo o número de escritores autopublicados que alcançam uma vendagem significativa e são contratados por uma editora grande. No Brasil, o número de agentes literários ainda é muito pequeno para um país de dimensões continentais e uma literatura tão ampla e heterogênea. Restam as editoras pequenas e independentes ou a autopublicação. As grandes editoras não mais prospectam novos escritores: a maioria sequer aceita receber originais não solicitados. O que elas fazem é observar o trabalho das pequenas e, caso um autor ganhe um prêmio importante, tenha vendas expressivas e/ou tenha muitos milhares ou milhões de seguidores nas redes sociais, ele é chamado para publicar. O risco, portanto, é minimizado.
Além dos livros
Mas o papel do editor de verdade, aquele do passado, não se resumia a descobrir novos talentos e editar seus textos. Em um ensaio sobre seu editor, Henry Robbins, a escritora estadunidense Joan Didion afirmou:
O que editores fazem pelos escritores é misterioso, e não tem a ver, ao contrário do que todos pensam, com títulos, frases ou “mudanças”. O relacionamento entre um editor e um escritor é muito mais sutil e profundo do que isso, ao mesmo tempo tão elusivo e radical que parece quase com o de um pai com um filho.
E completa:
O editor dá ao escritor a ideia de si mesmo, a imagem de si mesmo que permite a ele sentar, sozinho, e escrever. É uma tarefa difícil, e exige que o editor não só mantenha uma fé que o escritor possui só em raros momentos, mas também que ele goste do escritor, o que não é fácil.
Por fim, para Calasso, um editor é aquele que dá uma forma à editora. As capas, a diagramação, os textos de apresentação são tão importantes quanto o seu catálogo, ou seja, tudo aquilo que contribui para o modo como os livros são apresentados como objetos. O que se perde, no mercado literário atual, é esse sentido de personalidade (visite o site da Adelphi e você verá do que estamos falando). Obviamente ainda há aqueles que resistem, por coragem ou por falta de escolha, mas do jeito que as coisas se encaminham, com um mercado inundado por livros autopublicados ou publicados sem critério, ou com o único critério de potencial de vendas, e um público que já não sabe discernir o que tem ou não tem qualidade literária, talvez no futuro a figura do editor — aquele com o poder de dizer “não”, segundo Calasso — desapareça por completo.
NOTA
Marcelo Nunes, colaborador do Rascunho há alguns anos, faleceu aos 59 anos, em 30 de agosto. Além deste ensaio, entregou-nos uma resenha, que será publicada em breve.