O jogo dos duplos

A trama envolvente de "O último Van Gogh", de Edney Silvestre, trabalha com questões como cópia e original, moral e duplo
Edney Silvestre, autor de “O último Van Gogh”
01/03/2026

Quando lemos O último Van Gogh, um dilema nos assalta de forma sorrateira. Qual a relação entre um michê da zona sul do Rio, que vive numa quitinete em Copacabana, com o enigmático e atormentado artista Van Gogh? Edney Silvestre constrói uma verdadeira mise en abyme, unindo a história menor do passado do pintor holandês à narrativa no mundo contemporâneo, com uma história dentro de outra, com seus espelhamentos e repetições, recuando ou avançando no tempo, na qual os capítulos seguem um jogo em que passado e presente se encontram.

Igor Brown seria a máscara do michê, anônimo e invisível, por trás de sua identidade real como intérprete de Libras, um duplo trabalho, em que ele se satisfaz nas duas possibilidades de sobrevivência, sonhando em ter capital para viver num bom lugar em Ipanema. Sua história vai sendo narrada por ele de forma vertiginosa, quando ele mesmo se defende de sua profissão num trabalho bem remunerado que acende sua chama erótica e sua sexualidade incendiária:

Não faço michetagem só pelo dinheiro. Gosto de trepar. Me faz bem. Me alegra. Fico outra pessoa depois de gozar. O mundo muda à minha volta. Nada de problemas, nada de aflições…

Durante a narrativa, Igor faz um autorretrato pictórico de si, como se estivesse dentro de um quadro. Como pano de fundo, temos a história de Van Gogh a partir de suas cartas ao seu irmão mais novo Theo, que ele tanto amava, narrando suas dúvidas e inquietações. Uma figura torturada ao não ter tido o reconhecimento de sua arte, ganhando destaque após sua morte. Vários trechos das cartas são reproduzidos no livro de Edney, em que percebemos a fragilidade do pintor.

Entre o fato e a ficção, o documental e o literário, Silvestre une vários tipos de texto — o jornalístico, o epistolar, um tom investigativo e detetivesco, o erótico, o existencial — com uma análise íntima de si, no caso do narrador, sem se prender a definições classificatórias, erigindo um romance original e único, mesmo rendendo tributo a outros escritores.

O romance, com saltos e recuos, retardamentos temporais e avanços de sua história, nos faz lembrar de O jogo da amarelinha, de Cortázar, que une uma narrativa tradicional e linear até o capítulo 56 e depois disso colocando um “tabuleiro” em que ele sugere os pulos e voltas, dando um novo sentido à sua obra. Aqui, em O último Van Gogh, temos algo diferente, pois não há um tabuleiro, sendo o jogo narrativo seguindo os capítulos diretamente organizados de forma livre e lúdica, fazendo as conexões necessárias entre os dois mundos, no miolo do seu romance, cuja história atual vai seguindo uma certa linearidade.

Trama frenética
A capa do livro, uma pintura de Van Gogh que se move de forma simbiótica com a praia de Copacabana, logo abaixo, poderia enganar os mais desavisados. A noite estrelada não vai ser o fio condutor da trama bem urdida por Edney Silvestre. O que se acredita ser “o último Van Gogh” é outra pintura, que na trama, foi roubada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, estando nas mãos de um ex-oficial nazista que a escondeu no Brasil, que se encontra na época de Igor Brown, no século 21, no corredor de um apartamento no Leblon, tendo Igor Brown a missão de “sequestrá-la” e não a roubar, a partir da ordem de seus clientes, os gêmeos Alex e Valéria, netos de Philip Heinrich Schloendorf. Sim, Campos de girassóis ao meio-dia sob nuvens de tempestade tinha sido roubado pelo avô deles. A trama percorre desde o encontro sexual de Igor, em cenas de tirar o fôlego, até o mundo do crime, onde os “russos não perdoam”, por trás de uma máfia que tinha a intenção de roubar quadros para obter lucros astronômicos. O encontro também se dá entre Oriente e Ocidente nesse jogo manipulador.

Igor Brown teria essa função de pegar o quadro original no corredor do apartamento no Leblon. E o narrador Igor, numa dupla personalidade, questiona se essa ação seria um crime ou não, percorrendo tal movimento ao longo do enredo. O que seria moral ou não? Ele é um ser cindido, com uma cisão cujo corte surgiu ainda jovem: era um menino de rua de 14 anos quando um personagem fundamental na trama aparece, recolhendo-o da rua — Ravello, seu sugar daddy, como expressava Valéria. O copista Ravello era um exímio reprodutor de obras de arte a partir do original, e sua cópia era tão perfeita que enganava os compradores, garantindo-lhe ótima situação financeira.

Isso nos faz pensar no conto Pierre Menard, autor do Quixote, de Borges, em que o personagem pretende reescrever linha por linha a obra de Cervantes. Aqui, a partir da questão cópia/original, no universo da pintura, somos levados a um enredo eletrizante que percorre cenas inusitadas a cada página, pois o romance de Edney Silvestre nos prende de tal forma que não queremos parar por muito tempo, nos levando de volta às suas páginas. Como um bom filme de Antonioni, Profissão: repórter, com Jack Nicholson, somos levados ao universo de duplas personalidades, documentos falsos, cujo nome do narrador é inventado, com o auxílio de seu pai postiço Ravello, que tinha identidade múltipla, sendo um ser que transitava entre várias identidades, para conseguir seus intentos. Várias nações são unidas nessa tessitura no campo da arte da pintura para negociatas mirabolantes e até criminosas.

Pensamento mestiço
O perfil do duplo tangencia o que podemos chamar de “pensamento mestiço”, conforme Serge Gruzinski formulou, em seus livros teóricos, em que pessoas de duas nações viviam o hibridismo de culturas. Podemos usar esse conceito para falarmos de múltiplas personalidades. Igor hesita entre o amor de Alex e Valéria, ou seja, temos o erótico altamente carnal e aquilo que o transcende também, o amor. Valéria chamou o irmão de fraco, sendo que a personalidade dela é cada vez mais revelada de forma cruel à medida que avançamos nas páginas do livro. Os encontros entre Igor e Alex, no quesito amoroso, são fortes e impactantes, sendo que o pêndulo do amor os contagia mais que os outros.

Igor Brown tinha dois perfis, seu nome verdadeiro e o fictício, em que ele se dirigia como terceira pessoa, como exemplo, “o telefone de Igor” e não: meu telefone. Vejamos:

Tenho dois perfis nas redes sociais. Nenhum deles é falso. Nenhum é totalmente real. Diferem na maneira como me apresento. Os alvos são diferentes.

Vive entre dois universos: o tradutor de Libras e o michê. Enquanto isso, as cópias perfeitas, “as duplicatas”, conforme Ravello explicava a Igor, lhe geravam muito lucro. Ele disse a Igor também que as obras de arte nos museus eram “duplicatas”. Esse termo, estendendo-se para as personalidades, faria do ser humano uma cópia perfeita de si mesmo, o que não seria a verdade, o ser cindido se tenciona na sua capacidade de fragmentação, de diversas faces, não podendo nem ser cópia de si nem do outro, como o caso dos gêmeos, na qual Ravello os chamava de doppelgängers.

Quem é mais real nas individualidades de Igor, assim como Alex e Valéria? A resposta pode estar numa das cartas de Van Gogh a Theo:

O que acho excelente em sua carta é que você diz que não devemos de modo algum ter ilusões sobre a vida. Trata-se de engolir a realidade de nosso destino, e é isso.

O caminho único, uma via de mão única, nossa verdadeira individualidade que é autêntica. A pergunta seria: Quem eu sou realmente? Todos os trechos citados das cartas de Van Gogh a Théo têm seus reflexos profundos na narrativa contemporânea, revelando a coesão e coerência do passado com os fatos atuais do enredo.

A trama envolvente de Edney Silvestre tem forte tensão dramática, deixando-nos em suspenso, em que caminhos se cruzam de forma a não sabermos a trajetória final que nos enlaça definitivamente, deixando vias em aberto na imaginação do leitor. Os elementos mais potentes em suas histórias são a relação entre o lúdico e o real, a força de um tom analítico com uma linguagem fluida, clara, mas não objetiva, que dá espaço para a originalidade e imersão do literário no cotidiano de pessoas de várias classes sociais, da elite às classes menos abastadas, a duplicidade que se une entre seus pares, formando um todo coeso e os limites do que é moral ou não. As relações humanas são reveladas numa obra cortante, em que perfis diferenciados se banham no mar onde as ondas se quebram.

Alex e Valéria também têm dupla personalidade e passaportes de dois países, que levam Igor a se questionar sobre o roubo do quadro. Michetagem não é crime, mas roubo sim. No entanto, ele entrará em mais conflito, pois os gêmeos vão chantageá-lo a partir de Inteligência Artificial, uma cópia do mundo real. Que também o levam a criar vários ângulos de uma mesma questão. Pegar o quadro. Sim ou não, tentando driblar aquilo que seria um ato de bandido. A personalidade de Van Gogh também vai sendo revelada pouco a pouco no livro através de narrações sobre ele de formas pormenorizadas, tanto nas cartas para seu irmão como na história do passado dele, no século 19.

Sacro e profano
E encontramos também o sacro-profano, por exemplo, quando o narrador compara certos personagens nas suas feições, quando nas relações sexuais dele com os outros, comparando-os a santos cristãos, mostrando a androginia deles. No polo oposto, Van Gogh tinha profunda compaixão pelos seres do mundo em seu sofrimento. E a moralidade a partir da visão de Igor era espinhosa. Apesar disso, ele era um homem ambicioso. Reviravoltas, cenas inusitadas, conflitos psicológicos são alguns ingredientes que tornam o romance fascinante.

Podemos afirmar que por trás de um romance de espionagem e investigação, temos uma obra de arte literária, em que ficamos sabendo dos meandros do universo da pintura, assim como o da literatura, do cinema e da música. E os capítulos, unindo páginas brancas e negras, mostram a técnica do chiaroscuro, na qual os duplos se relacionam, entre as sombras da noite e um sol implacável, em que a história se move. O livro de Edney Silvestre, na verdade, é uma ode a Van Gogh, um dos maiores artistas da humanidade, como percebemos na conclusão, citando um grande trecho de Van Gogh. O nome de “Igor” não é gratuito. Um dos seus significados é “o que trabalha na terra”, um nome nórdico relacionado também a um “guerreiro”. Assim vemos o choque entre a conturbada cidade e os campos das visões de Van Gogh, a terra que ele tanto amou nas suas pinturas. Assim, os dois destinos se cruzam. O romance no seu ato de narrar segue as multiplicidades das histórias que se encaixam perfeitamente, enquanto suas descrições são minuciosas como as pinceladas de um pintor realista. No capítulo final, podemos observar o tom do artista incompreendido e desajustado com relação a uma realidade cruel. Citemos uma parte desse extenso trecho para arrematar nossa análise:

Alienados mentais: assim nos chamam, a mim e aos desajustados nesse mundo que não nos quer soltos, que nos prefere isolados em sanatórios e asilos, que nos rejeita porque nós não cedemos.

O último Van Gogh
Edney Silvestre
Globo
368 págs.
Edney Silvestre
Nasceu em Valença (RJ), em 1950. Autor, entre outros, de Se eu fechar os olhos agora, Amores improváveis, Vidas provisórias e Pequenas vinganças. Jornalista de longa carreira, se destacou na cobertura dos ataques de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, para a Rede Globo, quando era correspondente em Nova York. É vencedor dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti. Seus livros já foram publicados em oito países.
Alexandra Vieira de Almeida

É professora da rede estadual do Rio de Janeiro. Foi tutora a distância durante oito anos da faculdade de Letras do Consórcio Cederj – UFF. É doutora em Literatura Comparada pela UERJ e atualmente está fazendo dois pós-docs. Tem oito livros de poemas publicados, sendo o mais recente, A mecânica da palavra, 2022 (Penalux).

 

 

Rascunho