O ponto de partida: o filho eterno
A primeira imagem que sempre me vem à lembrança quando me perguntam se eu sou parecido com meu pai é aquela dele sentado na grama do quintal, na última casa em que moramos juntos. Ali se vê um homem alto, com os cabelos ralos, quase calvo, uma magreza bastante acentuada; percebe-se que não estava saudável (além disso, por mais que a foto fosse em preto e branco, vê-se um tom de palidez anormal em seu rosto, que ele tenta disfarçar com um sorriso brando, calmo, enquanto me segura entre suas pernas). Esse foi o pai que ficou comigo até o dia em que o vi pela última vez, vomitando sangue no corredor do hospital.
Muitos anos de análise foram necessários para que eu pudesse concluir — de certa forma, já que nunca é tão conclusivo quanto parece —, conscientemente, o que meu inconsciente já me avisava e eu não me dava conta de onde vinha minha paixão pelo esporte, pelo movimento do corpo. Certamente, a ojeriza à bebida alcoólica foi mais fácil de entender: a cirrose de meu pai continua em mim como uma cicatriz. Aqui cabe uma pequena observação: hoje consigo me aprofundar no mundo do vinho sem me culpar pelo passado de meu pai; entendi que são situações diferentes e que está tudo bem tomar uma ou duas taças de vinho no jantar (como faziam meus ancestrais italianos). Entretanto, ainda assim, meu corpo trava se essa quantia aumenta; o próprio organismo já dá pistas de que devo parar.
A percepção que o esporte me mostrava, ainda quando participava das aulas de educação física do colégio, foi a de que meu corpo precisava daqueles movimentos justamente para não ficar como o corpo de meu pai naquela fotografia ou se abaixando no corredor do hospital. Quanto mais eu participava das aulas, mais eu tinha certeza de que essa seria a única solução para me separar dessa imagem. Reitero que, naquela época, segunda metade dos anos 1980, eu não tinha a menor ideia dessa reflexão que agora esboço, e isso não importava, até mesmo porque eu convivia todos os dias com as pessoas da minha família acreditando que, sendo músico — profissão de meu pai —, eu estaria levando seu legado para frente.
No ensino fundamental, eu ainda não havia descoberto o atletismo; seguia jogando bola como todos faziam, treinei voleibol (muito influenciado pela seleção brasileira, medalha de prata nas Olimpíadas de 1984) e quase me profissionalizei (abandonei para estudar música — o conflito sempre foi grande) e caratê (época de Karate Kid).
Já no ensino médio (ginasial), entrei em contato com as corridas, e foi ali que me achei definitivamente até os dias de hoje. Mais de 30 anos depois, ainda me lembro da pista de areia atrás das salas de aula do Colégio Hugo Simas, em Londrina, onde fazíamos os saltos, os tiros, os treinamentos de média e longa distância.
Quando iniciei a faculdade, em Curitiba, eu seguia correndo, mas ainda de uma forma leve, descontraída, sem objetivo de competição. As prioridades eram, claramente, outras. Eu estava estudando para ser um profissional das letras, me tornar professor, escritor, trabalhar de forma intelectual e não me tornar um atleta profissional.
Em algum momento, tornei-me consciente de que essas atividades, que aparentemente são distintas, se complementavam perfeitamente em meu dia a dia e em minha vida. Uma simbiose que acontecia entre o corpo e a mente, que eu só notava quando um dos dois faltava por algum motivo.
Eu corria, mas sem muito método e sem muita consciência do que significava. Aos poucos, porém, a vida me levou por outros caminhos. Vieram o início da carreira como professor, o mergulho na música e, logo depois, na literatura. A corrida ficou de lado — não abandonada, mas guardada, como algo que já cumprira uma função.
O retorno aconteceu alguns anos depois, quase por acaso. Dois amigos me chamaram para participar de uma corrida noturna de dez quilômetros. Aceitei sem muita pretensão, talvez mais pela companhia do que pelo desafio. Era outro boom da corrida no Brasil: as ruas tomadas de gente, o som das passadas misturado às luzes da cidade.
A corrida foi se tornando uma espécie de eixo silencioso em torno do qual tudo o mais começou a girar: o trabalho, as leituras, a escrita. Ela voltava a ocupar seu espaço, não mais como fuga, mas como estrutura — uma prática que me permitia sustentar o ofício de professor e, principalmente, de escritor. O curioso (e aqui me repito) é que só depois de muitos anos fui compreender o quanto uma coisa dependia da outra.
O contraste das imagens do escritor
Durante muito tempo, a imagem que eu tinha do escritor era a do boêmio incurável. O artista que escreve à beira do abismo, cercado de fumaça, garrafas vazias e silêncios longos. O enfant terrible, como diriam os franceses — figura que habita a noite e a destrói, acreditando que só do excesso pode nascer algo verdadeiro. Baudelaire, Rimbaud, Bukowski: todos pareciam comprovar essa hipótese romântica de que a literatura precisa do colapso, e que o escritor, para ser legítimo, deve carregar em si uma ruína.
Eu também acreditei nisso. Achava que escrever era necessariamente sofrer — ou, ao menos, corromper um pouco o corpo para alcançar alguma centelha do espírito. Era como se o pensamento só se tornasse literário quando nascia da dor. E, de certo modo, isso fazia sentido em uma época em que eu ainda confundia intensidade com veracidade. O que era intenso parecia ser o que era real; o que era disciplinado soava morno, falso, domesticado.
Mas o tempo, a vida e o corpo — sempre ele — foram desmontando essa crença. Aos poucos, percebi que a literatura não exige autodestruição; exige entrega. E que há muitas formas de se entregar: a noite é apenas uma delas. A corrida, curiosamente, foi me mostrando isso.
A figura do escritor que corre, que desperta cedo, que se alimenta bem, que cuida do corpo para sustentar o pensamento, me parecia, no início, quase uma falsidade, algo que não existe. Era como se o exercício físico contaminasse a pureza da criação. Mas, à medida que eu corria, percebia que aquele esforço repetitivo, metódico, solitário produzia o mesmo tipo de vertigem que antes eu associava à imagem clássica do escritor solitário fechado em um quarto de hotel, escrevendo a noite inteira, acendendo um cigarro no outro.
Haruki Murakami talvez tenha sido o primeiro a me fazer entender isso com clareza. Em Do que eu falo quando falo de corrida, ele descreve a prática diária da corrida como uma extensão natural do ato de escrever — um espaço de silêncio e concentração em que o corpo se torna o mediador do pensamento. Ele fala de ritmo, de respiração, de paciência. E, de repente, tudo aquilo que antes eu via como virtudes “não literárias” — o método, a regularidade, a moderação — começou a me parecer também profundamente inevitável.
Murakami não é o único. Don DeLillo costuma dizer que só consegue pensar quando caminha longas distâncias. Joyce Carol Oates afirma que corre para “pensar com as pernas”. Emmanuel Carrère vê na disciplina física uma forma de domar a mente para poder escrever. Todos, de algum modo, parecem compreender que há algo na repetição rítmica — do passo ou da frase — que conduz à mesma espécie de transe criativo.
No fundo, tanto o escritor boêmio quanto o escritor corredor buscam o mesmo estado: o instante de suspensão. Um o encontra na dissolução — a perda de si na noite, na bebida, no risco; o outro, na repetição e na disciplina — a perda de si na cadência, no esforço, na respiração. Ambos buscam o mesmo vazio, o mesmo silêncio que antecede a palavra.
Nada impede, é claro, que eu continue escrevendo sobre personagens notívagos, errantes, autodestrutivos. A literatura não precisa ser o espelho da rotina; ela nasce da imaginação, e a imaginação continua bebendo da sombra alheia. Mas o corpo que escreve mudou. E talvez, por isso, o olhar também tenha mudado.
Hoje, vejo que o escritor que corre não é o oposto do escritor boêmio — ele é o seu desdobramento. O que importa é chegar à entrega total para a criação. Dentro do universo da corrida, alguns chamam esse momento de runner’s high; eu prefiro chamar de não-lugar.
A fase aérea
Há uma imagem que sempre me fascina na corrida: o instante em que ambos os pés deixam o chão. É um fragmento mínimo, quase imperceptível, mas é ali que o corpo flutua, suspenso entre o impulso e a queda. É um não-tempo dentro do tempo — a pausa invisível que sustenta o movimento. Talvez seja isso o que me faz correr: o desejo de alcançar, por alguns segundos, esse espaço de suspensão, esse intervalo em que o corpo deixa de ser peso e se transforma em pluma.
É também nesse ponto que a corrida se aproxima da escrita em minha concepção. Ambas acontecem nesse entre-lugar — nem completamente no corpo, nem completamente fora dele. Escrever e correr são, de certo modo, exercícios de desaparição. O corpo corre até deixar de sentir-se corpo; o escritor escreve até esquecer-se de si. O gesto de correr e o gesto de escrever partem do mesmo impulso: habitar o mundo e, ao mesmo tempo, escapar dele. Correr dele.
Quando comecei a pensar na ideia de não-lugar, encontrei em Marc Augé uma definição que me atravessou profundamente. Para ele, os não-lugares são espaços de passagem, transitórios, sem identidade, sem história — aeroportos, rodovias, estações, shoppings. Mas há também os não-lugares da mente, aqueles em que deixamos de estar plenamente ancorados no real para entrar em um território intermediário, onde o tempo se dilui e a percepção se amplia. É nesse espaço simbólico que meus livros começaram a se desenhar.
Em Poeira fria, Esquina da minha rua e Olhos de sal — a trilogia que chamo de Trilogia do não-lugar —, os personagens vivem exatamente nesse limiar: não pertencem inteiramente ao mundo nem a si mesmos. Estão presos entre o que foram e o que ainda não conseguiram ser. São figuras que transitam por espaços físicos — cidades, quartos, praias, ruas — que são, na verdade, extensões de seus estados internos. Em Poeira fria, por exemplo, a cidade parece dissolver-se à medida que o protagonista se desintegra; em Esquina da minha rua, a vida do personagem é uma espécie de ruína preservada, um tempo que já passou, mas que ainda insiste em existir; em Olhos de sal, a cidade de Curitiba é o lugar de onde tudo parte e para onde tudo retorna, metáfora de um eterno ir e vir.
Esses personagens vivem, cada um à sua maneira, nesse território de suspensão — e foi correndo que percebi que esse mesmo lugar existe dentro de mim. O não-lugar da minha literatura é o mesmo não-lugar da corrida. Quando corro, entro nesse espaço mental em que o mundo ao redor se dissolve: as ruas deixam de ser ruas, o tempo deixa de ser tempo. A cada passada, o pensamento se organiza e se desorganiza, como se a cadência do corpo fosse o próprio ritmo da linguagem.
Durante uma maratona, essa sensação se repete inúmeras vezes. Cada passada é um pequeno desaparecimento, uma breve suspensão do peso. É curioso pensar que o corpo, ao repetir esse gesto milhares de vezes, entra em um tipo de transe, um estado de presença ausente. É o mesmo estado em que a escrita acontece: quando a mão escreve, mas a consciência parece estar em outro plano, guiada por algo que não se explica.
A corrida, portanto, não é apenas metáfora da escrita — é também seu método. É correndo que encontro o tom, o ritmo, a pausa. O corpo que se move ajuda o pensamento a se mover.
Por isso digo que o não-lugar é o ponto em que as duas práticas se encontram. Na literatura, ele se manifesta como um território psicológico; na corrida, como um território físico que, pela repetição, se torna mental. Em ambos, há a busca pelo mesmo estado de flutuação — o desejo de escapar da gravidade.
Talvez escrever e correr sejam tentativas complementares de lidar com o mesmo vazio. O escritor busca o silêncio entre as palavras; o corredor, o silêncio entre as passadas. Ambos escutam o mesmo som — o da respiração, o da existência se mantendo por pouco. E é nesse pouco que tudo se escreve.
Hoje, vejo que a corrida me ensinou a escrever. Ou, talvez, que foi a escrita que me ensinou a correr. Ambas exigem ritmo, persistência, silêncio e uma certa entrega ao desconhecido. Ambas me colocam no mesmo ponto de partida: o instante em que é preciso respirar fundo e confiar no próprio movimento.
A queda: o corpo interrompido
Há um mês, uma lesão me fez parar e cancelar as próximas corridas para as quais estava me planejando.
A dor apareceu sem aviso. Um incômodo pequeno, quase insignificante, no tornozelo direito. Ignorei, como sempre fiz com tudo o que tentava me deter. Continuei correndo, aumentando o volume, ajustando a passada, acreditando que o corpo se adaptaria. O corpo sempre se adapta — até o dia em que não mais.
A lesão, no início, me pareceu um castigo. Mas, aos poucos, revelou-se uma forma de escuta. O corpo, que sempre me empurrou para frente, agora me obrigava a ficar. A aceitar o intervalo, o vazio, a pausa. E foi aí que entendi que o silêncio também é movimento.
Durante as semanas de imobilidade, comecei a reler alguns textos antigos. Percebi o quanto a corrida já estava neles, mesmo quando eu não falava dela. Havia o mesmo impulso, o mesmo desejo de ultrapassar algo — o tempo, a dor, o limite, o eu. Correr e escrever eram duas formas de lidar com a mesma inquietação: a de não conseguir estar parado dentro de si.
Há algo de profundamente literário nesse movimento: transformar a dor em forma, a ausência em linguagem, o corpo interrompido em corpo refeito.
Se, no início, eu acreditava que a escrita era um modo de sobreviver ao que faltava, hoje entendo que ela é também um modo de devolver vida ao que permanece. Escrever é continuar respirando por quem já não respira. Correr, do mesmo modo, é continuar o movimento que foi interrompido.
Quando corro, sinto que o corpo do meu pai corre comigo. Não como um fantasma, mas como um eco. Cada passada é uma tentativa de reescrever o que ficou suspenso naquele corredor de hospital — uma tentativa de transformar o fim em ritmo.
A corrida me ensina a escrever com o corpo; a escrita me ensina a correr com a alma. Uma alimenta a outra, uma abraça a outra no mesmo espaço de suspensão, esse não-lugar em que o tempo parece parar — o mesmo instante em que ambos os pés deixam o chão, o mesmo instante em que a frase deixa o papel e começa a respirar sozinha.
Talvez eu continue escrevendo sobre personagens que se perdem, que buscam algo e não encontram, que se autodestroem para tentar existir. Mas, agora, sei que, mesmo nesses abismos, há sempre uma pulsação que insiste. E é essa pulsação que me faz continuar — passo a passo, palavra a palavra.