No começo do romance Estrela nua, Carlos Eduardo, o narrador, diz:
O início foi uma página de classificados da Gazeta da Lapa […]: “Precisa-se de pianista para acompanhar estrela do bel canto.” Adivinha o que pensei na hora em que li aquilo: “Alguém está querendo se divertir às minhas custas”.
Trata-se de um jovem tecladista de uma obscura banda de rock que precisa de dinheiro, já que deixou a casa dos pais para morar sozinho e viver da música.
A mulher que colocou o anúncio chama-se Hilde Brandão, alguém que, no passado, teve alguma fama como cantora lírica e, no momento, precisa de uma pessoa para acompanhá-la ao piano, porque decidiu ser cantora de jazz.
A partir desse início, teremos o embate entre dois mundos muito diferentes: o da música clássica, com seus teatros suntuosos, onde desfilam orquestras sinfônicas e cantores líricos famosos; de outro, o universo do rock, com personagens bizarros e contestatários.
Figura inspiradora
A autora, Maria Adelaide Amaral, diz homenagear com o livro uma pessoa que existiu: Leonor Aguiar. Segundo a romancista:
Ela (Leonor) teria vivido tão intensamente, frequentado os meios mais cultos e refinados de São Paulo, teria tantas coisas interessantes para contar. Ela foi testemunha da Semana de 22, amiga de Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, da cantora Elsie e do pintor Di Cavalcanti.
Como se pode deduzir, trata-se de uma mulher à frente de seu tempo, alguém de vanguarda. E isso poderá ser percebido no desenvolvimento da narrativa.
Não se trata de um livro longo, muito pelo contrário: são oitenta páginas, cujo conteúdo traz o necessário para que o leitor possa refletir sobre o século 20 e sobre concepções filosóficas do período, muitas vezes diversas e contraditórias.
Fama e formação
A primeira questão é a da fama. Mas Hilde não é uma mulher saudosa de um passado em que viveu peripécias pela Europa e por boa parte do mundo, apresentando-se em diversos países.
Outro ponto é a cultura geral que a juventude, pelo menos na opinião dela, não traz como lastro. O jovem Cadu, apesar de ser bom instrumentista, carece de conhecimentos sobre o mundo e sobre a vida, beirando atitudes preconceituosas. Ela, pouco a pouco, a cada vez que ele comparece para tocar o grande piano de cauda que tem na sala do apartamento, vai mostrando-lhe como o pensamento do rapaz é limitado e contraditório.
Quando ele conta ao leitor como são seus companheiros de banda, a situação ainda é pior. Não se quer, com isso, menosprezar nem ridicularizar o rock ou os roqueiros, mas retratar uma geração muito limitada, em que os livros ficaram repousando nas bibliotecas enquanto esses jovens tratavam de questões que não eram novidades para gerações anteriores.
A mulher, seus desejos e a tentativa de protagonismo numa sociedade ainda patriarcal aparecem como possibilidades de discussão, ainda que o livro, aparentemente ambientado nos anos 1990, retrate uma época posterior a várias conquistas feministas do século 20.
Tempo e liberdade
O detalhe é que, no período, ainda não havia o smartphone, toda a parafernália tecnológica nem as redes sociais, tal como hoje as conhecemos, componentes que nos deixam, atualmente, quase num beco sem saída.
Hilde é uma mulher livre, faz o que quer, relaciona-se com quem deseja e do modo que acha melhor, não devendo nada a ninguém. É de admirar que, enquanto em outros países determinados problemas sociais já teriam encontrado algum avanço, no nosso tudo tarda e falha. Vejamos os retrocessos tentados agora por determinados grupos políticos. Hilde Brandão paira acima disso tudo, o que prova que nem sempre o presente ou a possibilidade de um futuro responderão melhor às necessidades humanas e evidencia, muitas vezes, a falência do progressismo.
Com o correr das aulas, há uma aproximação entre o jovem pianista e a mulher, já idosa, mas muito bonita. Então surge, na cabeça do rapaz, a dúvida: estaria ele se relacionando com sua mãe ou avó? Os colegas de banda insinuam várias soluções, mas não demonstram nenhuma maturidade sobre o relacionamento que poderia acontecer.
O livro segue por um caminho de Harold and Maude (Ensina-me a viver), famoso filme de 1971, dirigido por Hal Ashby, que retrata um jovem que se envolve com uma mulher já nos setenta e tantos anos.
Aprendizado
Para Carlos Eduardo, tudo acaba como um aprendizado. Hilde, inclusive, salienta que o problema do rapaz é o pensamento binário.
A estrutura do romance é quase a de uma peça de teatro, porque grande parte dos eventos é ambientada na casa de Hilde, durante as sessões de piano e de canto. Há algumas referências aos ensaios da banda de rock do rapaz, a seus amigos e à sua namorada, que é cantora da banda e que dorme no apartamento dele algumas vezes. O pai de Carlos Eduardo é caracterizado como um homem do ramo do Direito e deseja para o filho o mesmo caminho.
Às vezes, os jovens pensam que têm soluções para os problemas da vida; outras vezes, são os mais velhos que se acham donos da verdade. Mas Hilde não vê o mundo dessa forma; para ela, valem o aprendizado e a experiência que cada um consegue absorver no dia a dia. Num dos diálogos, ela diz ao rapaz: “Gosto tanto de você que estou lhe oferecendo a liberdade.” Ela lhe oferece a oportunidade de viajar para Nova York e estudar música; assim, ele teria mais chances de sucesso.
O pensamento do rapaz, porém, é restrito; ele não entende o amor dessa maneira; para ele, amar é ficar o tempo todo junto da pessoa amada.
Televisão e concisão
O diálogo mais revelador do livro está na página 72, mas cabe ao futuro leitor comprar o livro e lê-lo; não sou eu quem vai revelá-lo aqui.
A autora é uma figura conhecida no universo da dramaturgia e da televisão, tendo conquistado várias vezes o Prêmio Molière. Na TV, participou da escrita de novelas e minisséries, com destaque para A muralha, baseada no romance de Dinah Silveira de Queiroz (2000); Os Maias, adaptação do romance de Eça de Queiroz (2001); e A casa das sete mulheres, baseada no romance de Letícia Wierzchowski (2003), entre outras. A escrita concisa da televisão contribui para que o romance tenha um estilo límpido e de leitura fácil, colaborando assim para a expansão da leitura, tão necessária para jovens como Carlos Eduardo, o personagem de Estrela nua.
Voltando ao anúncio que o tecladista encontra na tal Gazeta da Lapa, pode-se concluir que o jovem não apenas ganhou parte de seu sustento tocando piano para Hilde; o mais lucrativo, no entanto, foi o caminho que a mulher lhe ilumina e que ele tem dificuldade de enxergar. Mas é assim mesmo; se fosse fácil, o mundo seria bem melhor.