No paraíso, o inferno

Romance de Flávia Iriarte usa viagem entre duas amigas para abordar diferenças de classe, violência de gênero e perda da inocência
Flávia Iriarte, autora de “Instruções para desaparecer devagar”
01/02/2026

Há uma passagem incidental em Instruções para desaparecer devagar, romance de Flávia Iriarte, que bem representa o atrito de idiossincrasias que mobiliza as errâncias de suas protagonistas. Durante uma corrida de tuk-tuk pelas estradas de terra do Camboja, Alice tem um choque de realidade ao observar, em meio aos vastos campos de arroz, cabanas rústicas com tetos de palha, sem qualquer sinal de vida exceto por um búfalo aqui e ali repousando sobre a lama. Ao contrário das fotografias solares das agências de viagem, o lugar é o cartão postal da miséria, infestado de crianças maltrapilhas e famintas pelas ruas, pedindo dinheiro em troca de sabe-se lá o quê.

Alice se compadece; seus olhos marejam, ao contrário de Bárbara, sua parceira de viagem. Com a infância talhada pela pobreza, ela já foi uma criança zanzando descalça por ruas de terra, a roupa suja, bichos cruzando seu caminho e uma família desfalcada, lotada de problemas. A mãe solo, a falta de grana e a gravidez da irmã na adolescência obrigaram a todos a “dividir o que era pouco e aos poucos ia se tornando nada”. Por isso, nada daquilo é novidade ou lhe comove, e ela não vê a hora de tomarem o avião para a Tailândia. Mas antes é preciso voltar ao começo da amizade e entender como foram parar ali.

Tudo tem início com um trote de faculdade e doses forçadas de vodca barata. Alice, jovem branca e abastada da Zona Sul do Rio de Janeiro, salva uma caloura das humilhações dos veteranos. A gratidão do gesto as aproxima, e logo a relação entre elas se mostra improvável. Enquanto Alice se formou em colégio bilíngue, fez intercâmbio no Canadá e não teve dificuldade em ingressar na faculdade, Bárbara vem da periferia, “tem a cabeleira encaracolada, a pele e os dentes de quem pega a vida no enlace”, estuda por conta de uma bolsa integral e passa um dobrado para pagar o aluguel de um quartinho em Copacabana. Encontros em bares e festinhas fortificam seus elos pessoais, até que, depois de assistir a um vídeo no YouTube, Alice decide sair de férias numa viagem exploratória pelo Sudeste Asiático. Na falta de companhia, convida Bárbara, que reage com uma risada incrédula de quem não tem dinheiro sequer para o táxi até o aeroporto. Mas o pai rico da amiga vai custear a viagem, então embarcam com destino final na Tailândia.

Conflito interno
Acontece que o gesto de generosidade também carrega a marca de um conflito interno: Alice é a herdeira que se sente culpada por seus privilégios, de modo que o convite, embora não expresso, pode ser encarado como uma forma de compensação. Seu comportamento, aos 19 anos, é um misto de síndrome de Poliana, ingenuidade indevida e filha mimada. Isso terá um impacto nos descaminhos da viagem, precisando que Bárbara intervenha, muitas vezes, para corrigir a rota. A visão desencantada da vida, a dureza que assegura uma maior lucidez, age em contrapartida ao mundo de Confissões de adolescente, no qual as preocupações giram em torno da mãe neurótica e superprotetora, de porres e pegação, de considerar a ida à periferia um tipo de turismo exótico. Tais aspectos do enredo dão a falsa impressão desses romances aguados, de transição da juventude para a vida adulta, mas logo se verifica uma estratégia para potencializar os sinais de perigo antes do sorvedouro trágico.

Duas mulheres viajando sozinhas por territórios desconhecidos estão, a todo momento, suscetíveis a riscos. Saindo do espaço ficcional, uma pesquisa rápida em portais de notícias lembra das duas estudantes holandesas desaparecidas, em 2014, no Panamá; a dupla de turistas assassinadas no Equador, em 2016; as amigas escandinavas sequestradas e mortas, em 2018, no Marrocos. Do pouso do avião, Alice e Bárbara entram numa zona de imprevisibilidades, cuja escala de ameaça varia de perrengues relacionados à hospedagem ao assédio escancarado. Os pontos de tensão vão se rompendo em desconfortos relevados, em situações suspeitas que são minimizadas por uma inconsequência juvenil, por um entendimento de que atribulações também fazem parte do pacote de experiências. Desse modo, as personagens estão sempre espreitadas por algo ruim que poderia dar as caras se… alguém invadisse o quarto da porta quebrada, o condutor de tuk-tuk desviasse o caminho ou a oferta de consumir drogas fosse aceita.

Em dado momento, elas escutam o grito de uma mulher no quarto ao lado e discutem sobre o que fazer: será que avisam na recepção ou tudo não passa de um equívoco? Nesse quesito, as atitudes das amigas se invertem. Bárbara tem o espírito aventureiro, de quem se arrisca por novas vivências, relativizando tudo que não esteja à altura de seu passado drástico. Logo convence Alice a desencanar, no entanto a jovem guarda recordações de episódios de abuso que ouviu, de situações de importunação que viveu. Possivelmente se ligassem para a recepção, nada seria feito, pois a integridade da mulher nunca é a primeira opção, porque o mundo as aceita como alvos fáceis, passíveis de serem perseguidas, pressionadas, sexualizadas, atacadas e violentadas. Dos comentários sociais que se extraem do enredo, o regime da misoginia se indexa aos desdobramentos da trama, consubstanciando o procedimento dos agentes que operam na obtenção da confiança para transformá-la em emboscada.

Alice e Bárbara passam a viagem topando com homens com malícia para tirar proveito da fragilidade, que usam o crédito da ajuda para acessar um interesse secreto. Quando decidem embarcar no papo de um viajante europeu que se oferece para ser o guia das melhores praias, das melhores festas, dos melhores passeios, a comunicação entre elas se tenciona num cabo de guerra entre quem cede e quem assume o controle. Rivalizando entre si, não se dão conta de que prudência, numa travessia sem bússola, é proteção. E assim vão de arrasto, vítimas de uma cadeia de enganos que as leva a um dos finais mais impactantes da literatura brasileira recente.

Iriarte constrói um road novel cujo movimento narrativo se dá em frentes tangíveis e intangíveis, ora de maneira simultânea, ora de modo induzido. A exploração dos espaços geográficos se infunde numa jornada por cenários internos, fundos psicológicos voláteis nos quais a chegada do amadurecimento formula um labirinto de conjuntura sobre privilégio, futilidade, autoengano, empatia, desilusão e perda da inocência. São esses elementos de caracterização que conspiram para o grande mérito da autora: a elaboração de protagonistas com personalidades magnéticas e diálogos capazes de provocar, através de concordâncias e desavenças, reflexões sobre diferenças de classe, pertencimento e violência de gênero. Ao acompanhar suas andanças, o leitor se mantém constantemente inquieto, aflito por não conseguir alertar sobre escolhas que, sabe de antemão, conduzem a um destino brutal. Não por indicações da ficção, mas pelo passado da realidade. Todos nós conhecemos relatos de mulheres que, em busca do paraíso, foram tragadas para o inferno.

Instruções para desaparecer devagar
Flávia Iriarte
Faria e Silva
156 págs.
Flávia Iriarte
É editora, mentora de escrita criativa e fundadora da Carreira Literária, escola online de formação de escritores. Em 2010, fundou a editora Oito e Meio, que já publicou centenas de autores brasileiros. Em 2016, foi uma das cinco vencedoras do Jovens Talentos da Indústria do Livro, prêmio organizado pelo portal PublishNews. Além das atividades no Carreira Literária, é parceira da editora LeYa Brasil, com a qual criou um selo destinado a publicar escritores selecionados conjuntamente.
Sérgio Tavares

Nasceu em 1978. É autor de Cavala, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, publicado em Portugal com o título Equação sobre o abismo. Também publicou Queda da própria altura, antologia finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Alguns dos seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Escreve sobre literatura brasileira e hispano-americana para jornais e revistas, além de editar o site A Nova Crítica.

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